A Garganta da Serpente
  • aumentar a fonte
  • diminuir a fonte
  • versão para impressão
  • recomende esta página

Um encontro com o Demônio

(Linx)

Estava chovendo aquela noite, e fazia muito frio também, afinal o inverno paulistano costuma ser muito rigoroso nessa época do ano, e para muitos não era algo tão terrível, pois a essa hora estavam dormindo debaixo de seus tetos, em suas camas confortáveis, cobertos e aquecidos, mas para muitos, como os moradores dessa praça no centro da cidade, era realmente terrível e não só pelo frio, mas também pela chuva que cismava molhar seus corpos mesmo quando tentavam se proteger embaixo de uma arvore ou marquise. Em um dos bancos, embaixo de uma arvore estava J., deitado pensando na sua vida, ou sobrevida como costumava chamar, pois aquilo não era vida, aquilo era o próprio inferno, um inferno gelado naquela noite. Olhava a chuva, e os pensamentos vinham em sua mente, recordações de outros tempos, recordações daqueles dias...

"...era um dia muito bonito até e eu tinha acordado muito feliz, como já não fazia tempos, olhei para o lado e ela estava lá deitada, dormindo como um anjo, olhava para ela e não conseguia acreditar que ela me traia com outros homens e naquele dia olhando ela, com a luz do dia atravessando a janela, não acreditava realmente. As pessoas falam demais pensava eu, mas eu estava errado, mais do que eu imaginava que pudesse estar. Tomei um banho, escovei os dentes, tomei um belo café da manhã e fui trabalhar. Não tinha muito trabalho e eu resolvi ir para casa mais cedo, afinal era o último dia da semana e até meu chefe havia ido embora, porque não ir. Passei antes de chegar em casa num mercado e comprei algo para comer e beber, pensava que porque não fazer um agrado a ela, ela merece e eu estou tão bem hoje, meu Deus como pude ser tão idiota. Cheguei em casa e ao abrir a porta ouvi uma música baixa e vozes de homens. Deixei tudo no chão e subi as escadas até o nosso quarto e vi ela com outros dois homens fazendo... merda e eu não consegui fazer nada além de sair do quarto e sentar na porta e deixar ela terminar. Ouvia os gemidos, os gritos dela, aquilo me cortava por dentro, me sentia um nada, um lixo. Algum tempo depois, percebi que eles tinham terminado e me escondi atrás de outra porta, a do quarto de hospedes, e esperei que eles saíssem para falar com ela. Corri até ela e lhe dei um tapa no rosto com tanta força que ela caiu no chão.

- Vagabunda, como pode fazer isso comigo?

- Porque você é um frouxo, um merda, que nem me satisfazer direito você sabe!

- É que você queria mais, queria ser metida por dois ao mesmo tempo, sua puta!

- Queria sim! Sou mesmo uma vagabunda. E você não passa de um corno!

Aquilo estava ficando insuportável, e eu apenas virei as costas em meio aos seus gritos histéricos e sai dali..."

Depois daquele dia, acabamos nos divorciando e ela com a ajuda de alguns amigos (muitos até amantes), pagou bons advogados, acabou no final ficando com tudo que era nosso, não sei como até hoje, mas ela conseguiu, acabou comigo. Depois de um tempo acabei perdendo meu emprego, meus amigos, minha vida, e tudo que me sobrou foi essa praça e esse trapos que estou vestindo.

Dormir eu não estava conseguindo, o frio, a chuva e aqueles pensamentos na minha mente, não me deixavam em paz nem um segundo. De repente reparo em algo estranho: uma senhora vestida de preto, com um xale vermelho escarlate cobrindo sua cabeça, olhando o chão. Não via direito seu rosto, nem outros detalhes mas o que mais me chamou a atenção para aquela senhora era que a sua volta parecia estar seco e se dava a impressão de estar quente, mesmo com toda aquela chuva, estava seco, como podia, mas pensei ser só impressão causada pelo meu sono e um pouco pela fome que estava passando. Não demorou muito e reparei que ela também olhava para mim agora e me fez um sinal que me pareceu um convite para me aproximar (confesso que começava a sentir um pouco de medo).

Pensei um pouco e resolvi me aproximar. Sentia uma leve sensação ruim, mas minha curiosidade era maior que aquele simples arrepio que sentia pôr dentro. Aproximei-me dela e me fez um gesto para que eu me sentasse ao seu lado. Me sentei e virei o rosto em sua direção e pude ver seu rosto com mais detalhes: era bem enrugado, com varias marcas, seus olhos eram pretos e pareciam não Ter pupilas, seu cabelo era bem preto o que não seria muito comum para uma senhora na idade que ela aparentava. Tinha um queixo pontudo, e orelhas grandes e compridas, bem mais que o normal. Reparei também que sua roupa estava suja de algo que parecia terra e que suas mãos além de tão enrugadas quanto seu rosto, tinham grandes unhas pretas e pontudas, como unhas de algumas raças de cães. Ela virou seu rosto para mim e deu um sorriso sarcástico, o que me fez notar que seus dentes eram todos podres.

- Olá J.

- Como sabe meu nome? Perguntei eu bastante intrigado

- Ora J., eu te conheço, conheço sua vida.

- Como? Perguntei eu, agora assustado mesmo.

- Não pode imaginar quem eu sou

- Não.

Ela deu um novo sorriso, e olhou no fundo dos meus olhos e eu vi aquela cena, da minha mulher com aqueles dois homens no nosso quarto, como se a tivesse vendo ao vivo, como naquele dia. Desviei o olhar e ouvi que ela deu uma leve risada. De repente veio uma ideia a minha mente, uma ideia de quem poderia ser aquela velha. Me recusava a acreditar em aquela hipótese que veio a minha mente aquela hora ser verdade, mas algo me dizia que era: estava diante do demônio.

- Conseguiu entender quem está diante de você

- Você é um..., pensei um pouco, gaguejava muito mas falei... demônio

- Não sou um demônio. Sou o demônio, Satanás ou Lúcifer se preferir.

- Meu Deus. Disse eu meio pôr impulso

- Deus, que invocar Deus agora. Veja só sua vida, olha o que Deus fez a você

Ao dizer isso olhei para minhas roupas e minhas mãos. Tudo sujo e rasgado, e apesar de tudo, agora naquela situação, achei mesmo que era tudo culpa de Deus.

- Porque você apareceu a mim. Falei eu baixo, mas com um pouco mais de coragem

- Não tenha medo. Eu só quero te ajudar, te dar a ajuda que Deus não quis lhe dar

- O que? Disse eu já com uma voz alta e segura

- A se vingar o que mais, não é esse seu maior desejo

- Sim!

- Então não quer se vingar

- Sim eu quero

- Não quer matar aquela vadia?

- Sim! Disse eu agora com uma mistura de prazer e ódio

- Então, te darei essa chance, de matar sua mulher

Ao dizer isso um prazer demoníaco me consumiu e todo ódio que sentia pôr aquela que tinha destruído minha vida aflorou. Vi a chance de me vingar e queria aquilo mais do que tudo agora.

- E o que você ganha em troca?

- Uma alma, sua alma

O sangue congelou em minhas veias e senti o arrepio mais gelado da minha vida corre minha espinha. Ele queria me levar ao inferno, queria que eu lhe vendesse minha alma, como eu faria aquilo? Como....

- Pôr que você tem tanto medo? Não quer me servir, prefere servir ele - disse isso e apontou para cima - é isso que prefere, ele só quer que você o adore pro resto da eternidade, eu não, só quero que você seja um dos meus homens na batalha final contra ele. Fique do meu lado, do lado dos vitoriosos.

Pôr mais que tenha ouvido falar sobre céu e inferno, Deus e o Diabo e tudo isso, pôr deveria acreditar nos outros, nos que me excluíram quando eu precisei. E Deus? Porque crer nele? Tinha a chance de me vingar e não iria a perder.

- Irei ser seu solado é isso?

- Sim claro, e quando chegar a hora, você lutará junto com os outros contra Ele.

- Então eu aceito, me de minha vingança e eu serei seu soldado.

- Então que assim seja!

Dito isso tudo ficou escuro e quando vi alguma coisa, vi minha casa, a casa que eu perdi e onde ela estava. Vi também que minha roupa tinha mudado: era a mesma que eu estava usando naquele dia em que ela me traiu - uma camisa verde claro, uma calça jeans azul claro e sapatos pretos. Olhei para o lado e vi um cachorro todo sujo e machucado e com marcas de sarna pôr todo corpo até as orelhas. Estava pronto para chuta-lo dali quando reparei em seus olhos, pretos como os dá..., agora eu entendi, era ela ("ele", melhor dizendo). O cachorro foi até a porta da frente, parou na frente dela e olhou para mim, como se dissesse para eu vir a ele. Cheguei perto dele e da porta, tentei abri-la e para minha surpresa ela abriu. Entrei dentro da casa e ele logo atrás, olhei a entrada me lembrando dos velhos tempos, quando eu chegava do trabalho cansado e sentava no sofá da sala em frente, onde ficava minha televisão e meu rádio. Ele caminhou até a cozinha e indo atrás dele, vi ele parado do lado da mesa de jantar e uma faca de cozinha brilhante, como se tivesse sido lustrada, com um cabo preto, grande e afiada em cima dela. Peguei a faca e a contemplei, logo depois olhando a direção da escada. Olhei para ele, mas ele ficou onde estava, até voltou o olhar para mim, mas voltou o olhar para frente e ali ficou, passei então pôr ele e caminhei até a escada com a faca nas mãos. Subi degrau pôr degrau bem devagar e silenciosamente, cheguei ao topo e novamente parei e recordei os bons momentos. Como era bom chegar em casa e ver aquele corredor, com meu quarto no final dele e com minha..., parei de pensar e caminhei até o quarto. Cheguei na frente da porta segurei a maçaneta, respirei umas três vezes bem fundo - meu coração parecia que ia sair pela boca - e abri a porta vagarosamente. Vi ela deitada na cama de bruços, sozinha, bem no meio dela. Usava uma camisola rosa claro, uma que eu tinha lhe dado em um dos seus aniversários e que ela dizia gostar muito. Estava meio coberta, meio descoberta e a luz da lua refletia sobre lua. Olhei aquilo e pensei em desistir, dei até um passo para trás, mas ao olhar para baixo ele estava lá, olhou bem no fundo dos meus olhos e novamente eu vi aquela cena, abaixei a cabeça, fechei os olhos e me aproximei da cama. Fiquei bem ao seu lado, levantei a faca no máximo que conseguia e lhe dei o primeiro golpe, perto do coração, mas só lhe acertei um ombro. O sangue jorrou pelo corte e molhou toda cama; ela acordou com um grito de pavor, se arrastou para o lado e eu lhe dei outro golpe, dessa vez na perna.

- Ahhh! O que está..., o que está fazendo, pare! Gritava ela apavorada e chorava muito.

- Cale a boca! Disse eu e lhe dei outro golpe, dessa vez no braço.

- Pare, pelo amor de Deus! Pôr favor! Não!

- Morre vadia!

Dito isso golpeei-lhe o pescoço com toda minha força. O sangue jorrou no meu rosto e nas paredes, ela deu um último grito, caiu na cama e morreu. Joguei a faca no chão e dei um grito. Corri daquele quarto, desci as escadas com o coração acelerado e de um vez cheguei do lado de fora. Tinha me vingado, tinha me vingado até que enfim. Olhei bem para frente e lá estava aquela velha, olhando para mim com um meio sorriso.

- E então, gostou?

- Sim, muito. Disse eu olhando para o sangue nas minhas mãos. Matei a vadia!

- Isso, muito bom. Agora você é meu servo.

- É eu me lembro, quando morrer irei te servir.

- É, pena para você que isso não vai demorar.

- Do que está falando...

Comecei a sentir uma forte dor no peito que começou a se irradiar para meu braço. Cai ajoelhado e olhei para cima, vendo a velha me olhando e rindo.

- Comendo aquelas porcarias, bebendo, fumando e usando aquelas drogas, achou que ia viver até quando? Disse ele dando uma gargalhada alta e grossa.

- Não posso morrer! Não agora! Não me deixe...

A dor aumentava e eu comecei a ver tudo escuro. Meus olhos foram ficando pesado e meu corpo também. Cai e não senti mais nada, mas logo senti meu corpo e meus olhos conseguiram se abrir novamente. Estava num lugar sujo, com várias ruínas pôr todos os lados. Pessoas magras e sem vida no rosto vagavam pelo lugar e me vendo, começaram a se aproximar. Chegando perto começaram a me bater, tentei fugir e depois de um pouco de luta consegui. Corri olhando para trás e ao olhar para frente vi uma mulher com o braço, o ombro e o pescoço cortado; era ela que veio me dar as boas vindas a meu eterno sofrimento...

  • 2974 visitas desde 8/08/2006
menu
Lista dos 2201 contos em ordem alfabética por:
Prenome do autor:
Título do conto:

Últimos contos inseridos:
Copyright © 1999-2020 - A Garganta da Serpente
http://www.gargantadaserpente.com.br