A Garganta da Serpente
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O Negro

(Luís Fernando Pinotti Silva)

Eu sempre fui um fodido.

Sempre fui ridicularizado na escola por ser quieto demais. Depois, ridicularizado pelas mulheres por respeitá-las demais. Depois, ridicularizado no serviço público porque trabalhava demais.

Fadado ao fracasso, nada havia dado certo para mim.

Nada. Até o dia em que conheci o negro.

O negro me encarou a noite inteira naquele boteco de azulejos sujos e com um banheiro pichado. Eu, com minha porção de pastéis frios e uma Coca-Cola morna diante dos meus olhos, olhava pra ele e pensava: porra, não acredito, mais um querendo confusão comigo. Saí do trabalho com meu chefe redigindo um memorando para o departamento de recursos humanos pedindo desconto na minha folha de pagamento. Eu não tive culpa, moro com uma tia inválida e preciso receber sua aposentadoria. Naquele dia o meu salário de fome importava menos que minha dor na unha encravada. E agora o negro, sentado no balcão, pulseira de prata no pulso esquerdo, estrela de Davi dourada no peito à vista pelos dois botões abertos da camisa cor-de-rosa. Ele mal olhava para seu bauru, mal tocava no copo de cerveja à sua frente, fitando-me como se me conhecesse há anos. Eu tinha certeza de que nunca o tinha visto no bairro, apesar de que sua fisionomia me lembrava o Carl Weathers. "Apollo, O Doutrinador". Esbocei um sorriso, mas me lembrei de que a vida estava uma merda e isso freou qualquer manifestação de felicidade em meu rosto, mesmo que ela não durasse mais de dois segundos.

O negro só me encarava. Não se movia. Tamborilou seus dedos no balcão por duas vezes e nada mais.

Contei as moedas para pagar a conta, afinal os donos de botecos também precisam se alimentar. Não comem o pastelzinho frio que nos servem, mas precisam se banquetear. O negro continuava sentado na banqueta, olhos na minha direção que desviaram quando o Flamengo levou o primeiro gol. Leve sorriso em lábios outrora sorumbáticos. Vascaíno o filho-da-puta, pensei. Só xingo as pessoas em pensamento.

Tinha quatro reais. A conta me custaria seis reais. O turco não deixaria passar em branco. Terceira vez nessa semana, ele me falaria. Tinha um olho de vidro e uma tatuagem que cobria toda a extensão do seu braço musculoso. O turco tinha sido ajudante de pedreiro antes de transformar sua garagem naquela espelunca.

Por ter sido um fodido não significa que não possuo um emprego, se bem que ter um filho escriturário não era bem o que meus pais haviam planejado para o meu futuro. Às vezes sonho com meu pai, dizendo que a desilusão o matou. Prefiro acreditar que a vida é cheia de coincidências, o meu sono flui melhor dessa forma. Iria receber o adiantamento naquela semana, então fui dialogar com o Turco, mesmo sabendo que seria mais fácil amestrar uma pulga do que ter êxito nessa empreitada. Sabia que ele não me ouviria.

É a terceira nessa semana, porra. Você me deve muito, não é de hoje, e vai pagar. O turco me olhava firme e sequer piscava. Eu deveria ganhar dinheiro como adivinho, mas antes tinha de pensar numa maneira de sair dali. Foi quando percebi que o bar já tinha esvaziado. Quase. O negro continuava ali, sentado, vendo a derrota do Flamengo e aparentemente alheio a qualquer manifestação de vida ao seu redor. Se brotasse um cacto em seu assento talvez ele sequer se manifestasse.

A porta de ferro do bar baixou. O Nagib, primo do Turco, saiu da cozinha para isolar o recinto. Éramos quatro: eu, os dois carniceiros e o negro imóvel, estátua de madeira, homenagem à Zumbi. Senhor das trevas, senhor das demandas.

Aquele bairro era perigoso. Aquele boteco era pior ainda. Não sei porque não me casei com Ritinha: se tivesse juízo na cabeça e amor no coração, talvez não precisasse jantar ali todos os dias.

Quando eu percebi, a tatuagem multicolorida do Turco já estava em volta do meu pescoço. Arco-íris da dor. Entorpecido, não ouvia nada, só sabia que ele gritava muito enquanto uma silhueta rumava em minha direção. Eu não sei porque, mas pensei no negro que estava no balcão no exato instante em que levei o primeiro golpe.

Supercílio aberto. Meu pai foi boxeador, cansei de ver minha mãe cuidando de supercílios, o vermelho vivo de sangue foi a cor mais presente em minha vida. O Nagib tinha me acertado um murro.

Eu nunca acreditei em telepatia, sempre achei que era palavra criada por vigaristas a fim de garfar dinheiro dos trouxas. Mas eu continuei pensando no negro que estava no balcão, mesmo sangrando como um porco. Foi quando ouvi o estampido.

Quando vi Nagib no centro de uma poça vermelha, percebi que seu joelho havia sido estourado por um tiro, dividindo a perna esquerda em duas massas distintas. O negro deu dois passos, encostou o cano quente da pistola na têmpora daquele homem mutilado e manteve o mesmo olhar direcionado a mim anteriormente, mas foi o Turco quem teve a honra de ouvir a única frase proferida por ele naquela noite.

Quanto vale a conta de um homem honrado? A voz do negro era prudente, abria meu tímpano, corria por minha espinha. Como o negro sabia que eu era honrado? Eu passei quatro anos arrebentando cadeados, roubando carros, saqueando, pilhando e nunca o anjo-da-guarda, que minha avó jurou existir durante toda a minha infância, havia me acolhido na candura de suas asas.

E quando o Turco soltou meu pescoço, toquei o solo segundos antes dum estampido dividir o crânio do Nagib. O Turco não conseguiu chegar na cozinha, tombou com uma bala na nuca, ao lado do balcão de cimento. Ainda pude ver o negro sorrir para mim e desaparecer pela capa serena da noite. Foi quando me atentei para os mistérios da vida e tentei decifrar o porque de não existirem anjos negros nos altares das poucas igrejas por onde passei na vida.

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