A Garganta da Serpente
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Por conta da casa

(Luís Fernando Pinotti Silva)

Foi um alívio quando o carro encostou no meio-fio.

Afinal eu havia me preparado metodicamente para aquele instante. Quase nada sabia sobre aquele homem obeso e discreto que, dirigindo um Honda Civic, baixava os vidros esfumaçados e acenava em minha direção. Ali a noite se encarregava de trazer aos seus companheiros uns trocados para o baseado diário e para o aluguel mensal, e onde sua despedida era celebrada à base duma dose de conhaque e, com um pouco de sorte, sem ferimentos graves. Ali era o nosso território, a nossa Faixa de Gaza, a nossa Hollywood. O centro paulistano possui um charme decadente e isso forma um ecossistema independente dos outros bairros ali próximos.

Já sabia que ele se esgueirava pelas ruas da região como uma hiena em busca das carcaças no deserto, como um abutre que cerca o gado morto na estrada. As poucas informações que possuía me eram suficientes: ele era promotor de justiça, gremista e fazia questão da voz da Maria Callas durante a penetração. Informações oriundas de redutos boêmios quase sempre são verídicas. Assim, me cuidei com tanto zelo que meu pequeno apartamento de dois quartos se assemelhava a um camarim de superstar. Depilei minhas pernas, passei gilete nas axilas e talco na virilha. Optei por um conjunto de lingerie discreto e branco, com bordados, justo por motivos óbvios. Pouca maquiagem, perfume no decote e no pescoço, vestido azul-hortênsia e uma bolsa de verniz com meu iPod e outros itens necessários para a sobrevivência nas ruas da cidade. E camisinha. Por conta da casa.

Jamais duvidei de que seria a escolhida. Ele fazia questão de optar por aquelas que pontuavam nas travessas das grandes avenidas, sem muito movimento, onde a pouca luminosidade vinha dos decadentes botequins de clientela fiel e pratos generosos à base de bisteca bovina com ovos fritos. Ouvi a buzina, vi o aceno, o anjo do destino havia dado um rasante por entre os postes. Sorri para mim mesmo e entrei no carro.

Era um homem de poucas palavras. Pediu o preço, cem reais sem pechincha, hotel por sua conta e a camisinha é por conta da casa. Breve sorriso, barba bem feita e manchas de suor na camisa de listras verticais verdes. Durante o trajeto fui tirando minhas impressões: unhas aparadas, dente de ouro e uma calvície querendo se agravar. Cabelos grisalhos, ondulados e um pouco de cera no ouvido direito. Uma pulseira prateada com um nome em grafia itálica, aliança na mão esquerda e sachês perfumados nas laterais das portas dianteiras. Bancos de couro, uma garrafa de água pela metade e nenhum sinal do cinzeiro naquele painel repleto de luzes. Eu precisava do cinzeiro.

Dobrou na Peixoto Gomide, entrou na garagem de um edifício sem a solenidade de um porteiro que amenize a noite dos sofridos com um tímido sorriso desdentado e sincero, carregado de humildade e sem sinais vitais de esperança na reciprocidade do gesto. Estacionamos na segunda vaga, a contar da pilastra de concreto, ele pediu que eu aguardasse no carro e fosse para o quarto andar dentro de dez minutos. A voz dele era grave, pigarreada, mas seu hálito denunciava somente a passagem recente dum chiclete de hortelã por entre seus lábios ressecados. Assenti com a cabeça, saquei meu iPod e ouvi Squirrel Nut Zippers, Itamar Assumpção e o velho Macca enquanto me consumia em impaciência e ardor. Exatos duzentos e doze dias ansiando por um aceno que me conduzisse à plenitude e trouxesse a paz para minha alma no que eu intitularia de perfeito epílogo.

Tempo esgotado. Elevador sem espelhos e sem música, duas coisas que eu não suporto. Quarto andar. Apartamento 402, o único com a porta entreaberta. O homem não precisava dos velhos hotéis da região. Mantinha um cubículo de paredes brancas que não possuía mais que uma cama de casal, quadros retratando naturezas-mortas, um frigobar branco com a maçaneta corroída pela ferrugem e um televisor pequeno ao lado de um vaso sem flores. Ele deitado, nu, com toda a sua adiposidade latente envolta por uma grossa camada de suor. Novas impressões em uma corrida observação: metódico ao colocar a roupa nos cabides do armário aberto, olhos famintos, pau pequeno. Foi quando me pediu licença para acender um cigarro com seu Zippo e o anjo do destino concedeu-me a dádiva de presenciar seu segundo rasante naquela madrugada.

Há duzentos e doze dias eu não dormia tranquila. Ao ouvir os urros lancinantes de minha mãe na sala do sobradinho onde morávamos e ver o telefone que acabara de tocar despedaçado ao pé da porta já sabia que ali se encerrava a crônica da desgraça anunciada. Minha irmã era viciada e fugiu de casa aos dezoito anos. Um conhecido meu ouviu rumores de que ela chegava ao extremo ao apostar a vagina nas rodas de pôquer e nas bocas-de-fumo da periferia, mas a notícia jamais se confirmou. Sem eira nem beira, nunca mais soubemos dela, apesar das buscas incessantes dos meus pais pelos cantos mais inóspitos das quatro zonas da cidade. Demorou uma hora até que meu pai criasse coragem para pedir que eu o acompanhasse até a cena do crime.

No caminho o resumo da conversa com o policial, amigo íntimo da família: a quarta vítima de uma aberração que estrangulava mulheres e currava os cadáveres sem deixar rastros de sêmen ou impressões digitais poderia ser a nossa Joana. E que eu seria o responsável no reconhecimento do corpo, deixado nu sobre uma cama desfeita de uma chácara à beira da rodovia Regis Bittencourt. Demorou quarenta minutos uma viagem que eu queria que nunca tivesse um destino final.

De bruços, com a cintura coberta por um lençol amarelado, eu a reconhecera pelas costas. Tinha feito a tatuagem de joaninha, egocêntrica homenagem, a mesma que nosso pai nunca havia permitido que fizesse. Os pulsos finos traziam pequenas perfurações de agulha, pesada agrura de seu vício, e os cabelos escorridos de índia agora se assemelhavam ao de Elis Regina nos anos setenta, memória trazida à baila pelos discos empoeirados de nossa mãe. Papai sentiu a impiedosa verdade sendo escarrada para fora do quarto pelas golfadas do meu silêncio e dobrou-se aos pés da porta, sujando suas calças de agasalho no chão de cimento umedecido pela célebre e insistente garoa que tão famosa tornou a metrópole. No ar, além dos chiados que escapavam pelas ondas do rádio-relógio, uma indefectível mistura de nicotina com especiarias. Alguém havia fumado um cigarro de cravo naquele quarto e não havia sido Joana. Joana só gastava seu precioso pulmão se o cigarro em questão fosse de maconha colombiana.

Passei duzentos e doze dias vagando pela noite do centro. Saí de casa, deixei o emprego da redação do jornal na Martinho Prado e aluguei um apartamento próximo dali. Duzentos e doze dias bebendo uísque puro em restaurantes vazios, manchando meus dentes com cigarros, cigarrilhas, charutos, beijando bocas, orelhas, chupando, cuspindo, mordendo, batendo, apanhando, gozando, fingindo e descendo até o último degrau da dignidade para criar a carapaça intransponível da malandragem, tentando chegar com um sopro de vida ao instante seguinte. Duzentos e doze dias até chegar naquele quarto do quarto andar, com aquele homem por mim tão desejado.

O Gudang Garang acendido pelo promotor de justiça, gremista e apreciador de Maria Callas é um dos cigarros indianos mais conhecidos no mundo. Seu aroma de cravos é um poderoso afrodisíaco, acreditam alguns imbecis que necessitam de estímulos transcendentais para conseguir gozar uma única vez em semanas. Deixei o vestido cair e, a pedido dele, coloquei-me em posição para aguardar a penetração anal. Ele deu a primeira tragada e apagou o cigarro no cinzeiro de porcelana que estava na cômoda de madeira, ao lado de um cardápio plastificado e de dois copos americanos vazios.

A camisinha, querido. Por conta da casa. E abri a bolsa de verniz que estava aos pés da cama.

O zunido cortou o ar, o jorro vermelho aqueceu todo o meu corpo em jatos sucessivos, manchando meu piercing do umbigo. Não havia similar que se comparasse à pequena faca de aço suíço de papai, pelo menos não que eu tivesse conhecimento. Enquanto o órgão genital jazia inerte no chão de tacos, o corpo tombou pesadamente no colchão, seguido de um contorcionismo que me trouxe de volta as memórias infantis de um avô açougueiro que estripava porcos no fundo do quintal de sua casa. Formava-se uma poça considerável de sangue nos lençóis quando apanhei o par de luvas cirúrgicas e, com a mão esquerda, segurando seus dois pulsos com firmeza, desferi o golpe de misericórdia na carótida. Fiz uso da fronha rosada de um dos travesseiros para sufocá-lo enquanto o líquido viscoso se esvaía rumo à liberdade. Depois coloquei o fone do iPod cuidadosamente em seu ouvido e tenho certeza que a canção de Maria Callas que cruzou sua mente enquanto era currado na agonia por uma travesti.

De camisinha. Por conta da casa.

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