A Garganta da Serpente
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Sonhos perdidos

(Luciana Fátima)

Era uma tarde de inverno, daquelas onde o sol tímido tenta, em vão, afastar o frio congelante e onde sua luz fica mais bela do que em qualquer outra estação.

Eu caminhava pela praia deserta, apenas ouvindo o barulho das ondas que iam e vinham, sem se alterarem com minha tristeza. Um profundo vazio apoderara-se de minha alma, sem motivo aparente, e eu decidira caminhar para ver se o vento frio afastaria meus pesares.

Caminhei sem rumo durante muito tempo. Os pensamentos vagavam distantes, sem se deterem em nada, apenas relembrando fatos passados. Muito longe eu podia avistar uma ave negra, que ora se aproximava, ora se afastava, mas parecia que me acompanhava em meu passeio solitário. Sem dar atenção por onde andava, somente parei quando percebi que estava à beira de um penhasco. Um lugar lindo, muito alto, de onde só era possível ouvir as ondas quebrando ao longe e o bater das asas do corvo que me seguia.

Sentei-me, para apreciar o lugar, que além de belo era pois assustador, qualquer passo mal dado seria fatal. Fiquei absorta em meus pensamentos durante um tempo, que não me é possível precisar. De repente, senti um arrepio subir pela espinha e a sensação de que estava sendo observada.

Olhei rapidamente para trás. Foi quando vi aquela figura enigmática, totalmente vestida de preto, o que combinava estranhamente com seus olhos, que não transmitiam qualquer sentimento, apenas me fitavam, como que trespassando-me. Por um momento, não consegui articular uma única palavra, como que hipnotizada por aqueles olhos, incrivelmente negros.

- Sente-se triste? - ele perguntou-me.

Não pude responder, apenas balancei a cabeça afirmativamente e voltei a olhar para o mar, sentindo mais do que nunca aquele vazio inexplicável. De onde saíra tão enigmática figura? Como viera parar ali, sem que eu ouvisse nenhum ruído? Não tive coragem de perguntar.

Ficamos ali sentados durante todo o cair da tarde, sem dizermos nada. O sol se punha no horizonte e o momento parecia mágico demais para que fosse quebrado com palavras sem importância. Foi o pôr-do-sol mais lindo e demorado de que me recordo... O céu tingiu-se de várias cores, como a incendiar-se, antes das primeiras estrelas começarem a brilhar no céu e uma lua cheia esplendorosa surgir para iluminar a noite.

Sem olhar para trás - porque eu pressentia que ele continuava ali - comecei a falar-lhe que estava me sentindo estranhamente triste naquele dia e que, enquanto caminhava pela praia, passavam por minha mente fatos que nem me lembrava mais.

Mesmo que meu bom senso me dissesse que nunca havia feito isso antes - falar assim com estranhos - continuei falando e contando coisas que minha memória me trazia sei lá de onde. Falei por muito tempo sem saber porquê e sem esperar respostas.

Quando enfim achei que já falara o suficiente, a noite havia caído por completo e uma magnífica lua nos iluminava. Olhei para trás e ele continuava me olhando da mesma maneira. De repente ficou em pé. O vento brincava com seus cabelos negros e seus olhos brilhavam tanto quanto a lua. Ofereceu-me a mão para ajudar a levantar e quando toquei-a, tive um gesto de repulsa; era fria como jamais sentira e muito branca, não sei se pela luz da lua ou se era apenas impressão causada pelo negro que o envolvia, mas, somente nesta hora, reparei que ele tinha a pele muito pálida. Sua voz grave e doce soou em meus ouvidos:

- É bom falar. Você conseguiu lembrar coisas que aconteceram há muito tempo. Viu sua vida inteira desfilar, como num filme, e, ainda assim, sente-se triste, mas não se preocupe, pois somente eu posso acabar com esse vazio e vim para fazer exatamente isso.

Sem que tivesse tempo de reagir, me segurou firme em seus braços, senti seu corpo frio muito próximo ao meu, e deixei-me ficar nesse abraço, sem reagir. Depois, meus membros ficaram frios, como que congelados e somente então senti, muito de leve, que ele me levantava do chão, mas com tanta delicadeza que parecia que flutuávamos.

Apenas percebi, cheia de horror, o que acontecia quando já era tarde demais e íamos em direção ao precipício. Tentei me livrar dos seus braços e não pude, pois estava completamente imobilizada, não havia força física, mas parecia que uma energia invisível me envolvia. Não senti nada, nem reagi, apenas fechei os olhos e ouvi ainda o barulho das ondas, que se confundiam com o barulho de asas que pareciam me envolver naquele abraço profundo.

Não me lembro de ter chegado ao fundo do abismo, nem de nada mais. Imagens desconexas passam pela minha mente, mas não fazem sentido. Nem sei mais o que aconteceu realmente, ou o que foi obra da minha imaginação. Não sei quanto tempo se passou, apenas me lembro de ter acordado sentada em um túmulo e rodeada por vários outros. A lua já não brilha no céu e corro por entre as alamedas vazias procurando a saída desse terrível labirinto.

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