A Garganta da Serpente
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Uma noite inesquecível

(Luciana Fátima)

"... Mas os dias só trazem dissabores,
E as noites fortalecem minhas dores
."
(William Shakespeare)

Ela deitou-se naquela noite fria sem muita perspectiva de dormir, já que há alguns dias sofria de uma terrível e inexplicável insônia. Rolou durante muito tempo na cama, sem que Lorde Morpheu se apiedasse do seu desespero. Ouvia todos os ruídos tipicamente noturnos sem lhes dar atenção. Um carro passava de vez em quando pela rua, um cão latia de um lado da cidade e outro respondia uivando ao longe, o apito insano do guarda noturno em algum lugar do bairro, uma sirene ao longe. Então um barulho estranho a fez ficar em alerta. Passos lentos e incertos eram ouvidos do silêncio do seu quarto, porém não lhe era possível precisar o local. Ao mesmo tempo que pareciam perto, desapareciam e se faziam ouvir mais distantes.

Tentou prestar atenção, mas como o ruído desapareceu, ela acabou esquecendo e tentando mudar o curso dos pensamentos para, quem sabe, finalmente adormecer. Como acontecia quase todas as noites, ficou pensando na vida inútil que tinha levado até agora. Um emprego medíocre, em que o salário dava apenas para pagar o aluguel daquele apartamento minúsculo no primeiro andar do prédio, já que era o mais barato que conseguira encontrar. Havia conseguido, ainda que com muito sacrifício, terminar o colégio, mas não aproveitou nada do ensino, já que trabalhava o dia todo e quando chegava nas aulas, não tinha forças para se manter acordada.

Amigos, não tinha. Família, todos em lugares muito distantes. Encontrava-se absolutamente só naquela selva de pedra que fazia com que ela se recolhesse e se escondesse de todos, afinal, sempre fora motivo de chacotas por parte das pessoas de que tinha tentado se aproximar até então.

Namorados, até tentara, mas eles só pensavam em uma única coisa, que não era exatamente o que ela esperava deles. Romântica, como fora criada por sua mãe no interior, desistiu de tentar encontrar o grande amor de sua vida, pois seu príncipe encantado, seu ideal de homem se desvanecera em todos seus namorados. Mesmo assim, lá no fundo de sua alma, ainda sonhava com aquele ser ideal da infância e adolescência. Quem sabe, sonhar não paga, como diria sua avó.

Vivia desconsolada pelos dias e desesperada pelas noites. Não sabia mais o que fazer para acabar com aquela sensação horrível de que estava desperdiçando toda sua vida naquele lugar, que não lhe trazia paz, alegrias e nem o grande amor de sua vida. Às vezes acreditava que morreria só, de tristeza, trancada naquele apartamento e ninguém a encontraria a não ser pelo cheiro que provavelmente seu corpo exalaria. Talvez se voltasse para o interior, as coisas aconteceriam mais facilmente, mas não poderia dar o braço a torcer para sua família, de que tinha ido para a cidade grande e nada conseguira.

Quando o véu da escuridão cobria seus dias, um sentimento de que não aguentaria uma nova noite de desespero a fazia soluçar por horas a fio, até que na madrugada, conseguia finalmente, exausta, adormecer um pouco, antes de levantar-se para mais um dia de torturas no seu odiado emprego.

Cansada de olhar para a fresta da janela, que deixava entrar uma tênue luz na escuridão de seu quarto, resolveu levantar-se para ler alguma coisa. Pegou um dos vários livros antigos da estante na tentativa de relaxar um pouco. Começou a ler o romance, mas minutos depois suas vistas começaram a embaralhar.

- Nossa, o sono chegou mais rápido do que eu esperava... - pensou enquanto caminhava sonolenta para a cama.

Deitou e cobriu-se com o lençol surrado que compartilhava suas noites solitárias. Ficou ainda alguns instantes olhando para a claridade que entrava pela janela, quando de repente aquele barulho voltou a chamar sua atenção. Passos de sapatos masculinos, ora próximos, ora distantes. Fato estranho, pois a essa hora não costumava passar ninguém por aquela rua.

Os passos que estavam longe começaram a ficar mais próximos, davam a impressão de que o desconhecido procurava algo ou alguém por entre aquelas vielas. O barulho dos sapatos havia desaparecido por instantes e estranhamente com ele, todos os outros ruídos da cidade se calaram. Não era possível ouvir nem carros, nem cães, nem sirenes, muito menos apitos, nada. Imperava um silêncio absoluto. Ela começava a achar esquisita toda essa situação. Pensou em abrir a janela para olhar o que estava acontecendo, mas como o trinco estava quebrado há meses e não tinha a menor vocação para serviços de marcenaria, nem dinheiro para pagar alguém, não havia a menor possibilidade de bisbilhotar.

A claridade que entrava pela janela estava ficando muito fraca. Será que a iluminação da rua queimou de novo? - Pensava um tanto quanto confusa, talvez pelo sono que a assaltava. Olhando fixamente para o filete de luz que ainda entrava, percebeu, de repente, que o quarto estava completamente escuro. A luz se apagara de vez.

- Não deveria entrar pelo menos a claridade da lua? Tenho certeza de que estava cheia ontem à noite. Ainda bem que tenho nervos fortes e não me intimo com qualquer coisinha! - Pensou já quase adormecida.

Ruídos de passos novamente. Agora firmes, como se a pessoa soubesse exatamente aonde estava indo. Aproximaram-se pouco a pouco, até parar bem embaixo de sua janela do seu quarto. Ouviu um barulho na janela, como se alguém tentasse abri-la.

- Ainda bem que o trinco está quebrado. Nem eu consigo abrir essa porcaria. Mas o que levaria um ladrão se entrasse aqui? Não tenho nada de valor nessa espelunca. - pensou aliviada.

De repente, a luz apareceu novamente e foi ficando mais forte até que ela percebeu aterrorizada que havia um estranho dentro do seu pobre quarto. Sentou-se assustada na cama e só não gritou porque estava tão apavorada que a voz não lhe saía, parecia que o grito morria- lhe na garganta.

O homem, que mais parecia uma visão, andava com aqueles mesmos passos resolutos que ouvira há pouco pelo quarto, observando tudo. Sua expressão era muito estranha, mas seus olhos brilhavam estranhamente. Depois de tudo olhar minuciosamente, começou a aproximar-se de sua cama bem devagar.

- O que você quer? - conseguiu enfim balbuciar.

Ele nada disse, apenas aquele olhar flamejante, fitando-a como se quisesse trespassar seu corpo. Caminhava em sua direção, e parecia que flutuava no ar. Ao chegar e ficar suficientemente próximo, seu olfato sentiu um suave perfume de jasmim e ela pôde notar como era estranhamente belo. Sua figura toda vestida de negro, contrastava com a brancura de sua pele, mas era másculo, como os príncipes dos seus sonhos de adolescência.

Sem nada dizer, ele tocou suavemente seus cabelos, seu rosto e pareceu que seus lábios revelaram um leve sorriso, mas não podia dizer se isso era real ou fruto de sua imaginação fértil. Sem que ela pudesse expressar a mais leve resistência, ele lhe deu um beijo apaixonado, como ninguém jamais havia feito em toda sua vida.

Não entendia, não conseguia raciocinar e nem tentava reagir, apenas se entregava embevecida àqueles beijos quentes, molhados, cheios de sentimentos, àquelas carícias que faziam seu coração disparar. Como poderia aquela criatura mágica estar ali, fazendo tudo aquilo?

Delicadamente ele começou a descer as mãos pelo seu corpo e sem que ela percebesse, ele deixara-a completamente nua. Não lembrava como, mas ele também estava na mesma situação e os dois rolavam na cama, espalhando os lençóis entre beijos e carícias, que ela nunca, nem de longe, imaginara que pudessem existir.

Foi a noite de amor mais maravilhosa que qualquer mortal pudesse desejar e ela se sentia extremamente feliz. Ainda com essa sensação de embriaguez e felicidade, pensou ouvir ao longe um ruído, que ficava mais próximo a cada segundo. Quando menos esperava, um barulho horrível a fez pular na cama e sair do entorpecimento delicioso em que se achava. O apito estridente do guarda noturno soava desesperadamente embaixo de sua janela.

Sentada na cama, assustada, nua, completamente suada, ela percebeu a dura realidade e desatou num choro convulsivo. Tinha sido apenas um sonho, um maravilhoso e delicioso sonho. Não era justo, mas só poderia ser mesmo, pois nenhum homem seria capaz de fazê-la feliz daquela forma, ainda mais ela, que não se achava nem um pouco atraente.

Chorou, tentou em vão arrancar os cabelos, quis como nunca ter coragem para o ato que pensara tantas vezes ao longo de sua vida sem sentido. Gostaria de ter coragem para acabar com aquela existência inútil. Levantou para lavar o rosto e tentar acalmar aquele furor que apoderara-se dela. Foi até o banheiro, jogou muita água fria no rosto e, esquecendo-se do trinco quebrado, foi em direção à janela, pois talvez o ar frio da manhã pudesse lhe acalmar um pouco.

Somente ao chegar na janela, se deu conta da inutilidade de seu gesto, mas qual não foi sua surpresa ao notar, que a mesma janela quebrada, estava aberta e que a luz tímida do sol que começava a nascer, invadia todo seu quarto e iluminava alegremente seu rosto banhado em lágrimas.

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