A Garganta da Serpente
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Escuridão

(Luciana Fátima)

A insatisfação com tudo na vida sempre foi uma de suas características mais marcantes. Desde criança, nunca estava feliz com nada nem com ninguém. Brinquedos, alimentos, roupas, animais, lugares, nada que seus pais lhe ofereciam satisfaziam aquele pequeno ser, de aparência frágil e doentia. Parecia estar sempre em busca de algo indecifrável ou que não fosse deste mundo. Não conseguia fazer amigos, pois os garotos da sua idade queriam se divertir e a melancolia constantemente estampada no seu rosto afastava todos que dele se aproximavam.

Quando ainda era adolescente, saiu de casa e foi para o mundo buscar aquele algo mais que ele não sabia exatamente o que era, mas que nas suas andanças, com certeza, descobriria. Viajou para lugares inusitados, trabalhou sempre com as coisas mais estranhas possíveis, de preferência, que colocasse sua vida em risco, apenas para sentir uma emoção diferente, coisa que era cada vez mais difícil. Conheceu muitas pessoas interessantes, mas estava sempre sozinho, com aquela mesma sensação de vazio dentro do peito e aquele brilho triste nos olhos, que o diferenciava dos demais rapazes.

Depois de perambular por várias partes do mundo, encontrava-se calejado pela vida e mais infeliz do que nunca, por isso, resolveu voltar. Tantos anos após sua partida, estava ansioso por rever sua casa e seus pais, mas a notícia que recebeu dos antigos vizinhos quase o derrubou. Finalmente agora teria um motivo real para a tristeza que sentia: estava absolutamente só no mundo, já que todos os parentes distantes lhe eram desconhecidos e seus pais haviam morrido tragicamente num acidente automobilístico.

Continuou suportando sua vida na mesma casa da infância, que ficara abandonada desde a morte dos pais, mas seus dias jamais seriam como os de quando ainda era um menino, cercado pelo mimo dos pais. Aos poucos ele foi transformando-se em um ser vazio, sem luz, que vivia de maneira cada vez mais estranha.

Não saía mais de casa, alimentava-se muito mal, evitava totalmente o contato com os vizinhos, vivia pelas noites, dormia durante o dia, andava com pessoas tão ou mais estranhas do que ele... Bebiam exageradamente, ouviam músicas estranhas, vestiam-se de forma esdrúxula, enfim, seus amigos pareciam saídos de um filme de horror e ele sempre acabava suas noites de loucuras jogado naquela casa imunda e abandonada, bêbado, sozinho, entre seus antigos livros empoeirados.

Acordava depois do sol se pôr e saía procurando seus amigos, mas na verdade, era sempre encontrado por eles, para mais uma festinha daquelas... Esbarravam-se em alguma esquina escura e saíam pelas ruas, pelos bares e danceterias, a procura de diversão, se é que aquilo que faziam pudesse ser considerado ou chamado de diversão.

Depois de encontrar muitos tipos estranhos e formarem um bando, bebiam, riam, divertiam-se bastante, vagavam pelas ruas, sem rumo certo, mas naquela noite em especial, ele sentia a velha insatisfação de sua infância aumentando a cada minuto, mas não conseguia encontrar explicação, já que tinha se divertido bem mais do que das outras vezes.

De repente, enquanto o grupo caminhava fazendo algazarra pelas ruas, ele, não aguentando mais o barulho, resolveu se afastar um pouco. Ficou um tanto assustado com o sentimento desconhecido que o invadia ao perceber que estava reconhecendo o lugar por onde começava a andar, como sendo um dos lugares que mais adorava ficar quando era garoto. Andou um pouco mais e conseguiu finalmente encontrar o portão daquele majestoso cemitério.

Caminhou sem saber por quanto tempo, lembrando-se de seus pais e de muitas passagens de sua infância, mas acabou sentindo um enorme cansaço. Decidiu sentar-se em um dos túmulos e talvez cochilar um pouco, mas pensou em escolher um jazigo bem bonito, já que pretendia passar o resto da noite ali.

Procurou muito, até encontrar um enorme mausoléu que lhe chamou a atenção pela beleza de sua ornamentação, de muito bom gosto e que lembrava uma linda estátua que ele sempre via no jardim da sua casa quando pequeno.

Sentou e ficou olhando as estrelas. Sentiu uma enorme paz dentro de si, uma sensação que ele jamais experimentara em toda sua vida. Estranhou e questionou consigo mesmo porque se sentia assim... Depois de muito observar a imensidão do céu, que parecia não ter fim, decidiu deitar-se sobre o túmulo e tentar adormecer, mas qual não foi seu horror, ao ver no túmulo em que estava sentado, uma foto sua de quando era garoto. Imagens irreais e estranhas afloraram em sua mente, uma estrada escura, luzes, um caminhão em alta velocidade, gritos, sangue, dor, escuridão...

Tentava, estarrecido, entender o que estava acontecendo, mas era inútil... Leu várias vezes seu próprio nome na lápide, sua data de nascimento, mas a morte... a data de sua morte... não era possível. Havia se passado mais de três décadas de sua morte.

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