A Garganta da Serpente
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Dor de alma

(Luciana Fátima)

"Louvado sejas pela Morte! Ela a todos visita,
e é nossa irmã, e ninguém foge aos braços seus.
Ai do que morre condenado! Mas, bendita
a alma que trilha os teus caminhos, senhor Deus!
"
(São Francisco de Assis)

Pergunto-me hoje, Deus, como pude ser tão burra e por tanto tempo. Por que não vi tudo logo no começo? Céus, como puder viver cega por todos esses anos?

Hoje eu posso ver. O culpado por tudo isso é do amor... Ele, sempre ele, a nos destroçar o cora-ção, a destruir, cruelmente, todos os nossos sentimentos mais nobres.

Tantas vezes eu pisei no meu orgulho para continuar a seu lado, e tudo isso em nome do amor... o imenso amor que eu sentia por você.

Enquanto isso, você... Oh, Deus, dai-me forças para suportar esta situação! Não consigo aguen-tar...

Por que você me fez sofrer tanto assim? Por que? Logo eu que sempre fui tão cética com relação aos sentimentos? Eu, que me entreguei de corpo e alma, sem questionar nada...

Por que isso tinha de acontecer logo comigo, por quê? Ah, quando penso em todo esse tempo que eu acreditei no seu amor, sinto tanta raiva!

Você nunca me amou como eu te amei. E quando eu lia nos romances todas aquelas lindas histó-rias de amor com final feliz, eu realmente acreditava que isso pudesse acontecer conosco... quanta ingenu-idade da minha parte.

Acho que todo esse tempo vivendo entre os livros me fez ficar boba. Eu me sentia como uma adolescente, descobrindo o amor perfeito. Perfeito... como eu pude acreditar que algo assim existisse no mundo real? Este mundo é, sim, muito cruel. Faz com que as pessoas descubram, da pior maneira possí-vel, o quão impiedoso ele pode ser.

Sinto tanta dor em meu peito... acho que toda a dor do mundo está dentro de mim. Meu coração sangra, dilacera-se, grita por socorro. E não há ninguém capaz de ouvi-lo. Ninguém capaz de curar suas chagas.

Olho para trás. Todos os momentos felizes, ou que, pelo menos, eu estava feliz a seu lado, e sinto tanto... Tínhamos tudo para sermos felizes. Lembro quando nos conhecemos, todas as coisas que tínha-mos em comum, como eu achava que você entendia minhas manias... Ai, que dor!

Sinto vontade de gritar, de chorar, de arrancar os cabelos, de tirar fora o coração, mas nada disso adiantaria agora... Agora que minha decisão está tomada.

Não aguentarei mais esta vida ingrata. Não quero mais viver neste mundo vazio. Este mundo que paga com dor a todos aqueles que ousam tentar serem felizes.

Chega! Já que para você eu não sou nada, não quero mais viver. Não quero mais fazer parte da sua vida indefinida.

Tenho em minhas mãos a peça que um dia eu sonhei que coroaria a nossa felicidade. Guardei esta camisola por tanto tempo... eu a usaria na nossa noite de núpcias. Sonhei tanto com isso... você não pode imaginar como desejei ser sua.

Sua, mas de verdade; possuir seu nome, sua vida, seu amor. Mas já que isso eu não pude ter, como a vida negou o meu mais íntimo desejo, desisto de tudo.

Deus é testemunha do quanto eu tentei ser feliz a seu lado, mesmo você fazendo amor comigo e pensando em outra pessoa.

Deixo você novamente sozinho, mas não se preocupe, a lembrança da outra você sempre levará. Já de mim, duvido que daqui a algum tempo ainda se lembre.

Adeus!



"Quando, desesperado, corri para pegar seu corpo exangue, era muito tarde. Ela havia acabado com todo o sofri-mento que eu, involuntariamente, causara-lhe. Havia acabado com toda a dor que sentia. Toda a sua dor se foi, esvaiu-se, junto com o sangue, pelos cortes de seus pulsos. Apenas um bilhete na mão fria restou...

Espero que Deus possa dar-lhe todo o conforto que ela tanto quis e eu não pude dar... E à minha alma, o perdão - por eu não ter enxergado seu amor e por não ter conseguido livrar-me desta sombra que cobre meu destino
."

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