A Garganta da Serpente
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Devaneios Noturnos

(Luciana Fátima)

Era uma noite fria de inverno. A lua brilhava intensamente, refletindo as estátuas nas lápides brilhantes de mármore. De vez em quando o vento soprava as folhas secas do chão e esse era o único ruído que se ouvia naquele silêncio sepulcral...

Não havia barulho e apenas o silêncio era testemunha daquele pranto mudo que inundava o rosto da criatura ali sentada sobre um dos túmulos...

Chorava, pois não podia acreditar no que estava acontecendo. Vagava em sua mente as cenas do que lhe tinha acontecido ainda há pouco.

Tudo começara na danceteria, o efeito da música, a bebida, a escuridão e, de repente, aqueles olhos, brilhantes como fogo, a fitá-la. Sem saber o porquê, ficou constrangida com aquele olhar insistente, parecendo devorá-la. Decidiu sair dali, mas ao chegar ao andar superior, lá estava ele, com aquele mesmo olhar penetrante. Como poderia ser? Só havia uma escada, que ela utilizara para subir e ele havia ficado no andar inferior.

Deve ter se enganado, pois ali estava ele, maravilhosamente vestido de preto, vindo em sua direção. Não havia para onde fugir, mas também não queria, pois estava hipnotizada por aqueles olhos negros. Esqueceu-se do mistério da escada. Envolveu-se pela voz metálica que perguntava seu nome. Respondeu, sem pensar, mas não lembrou de lhe perguntar o nome.

Conversaram a maior parte da noite sobre coisas banais, mas ela estava completamente embriagada pela inteligência e simplicidade daquele ser, que não parecia humano. E quando no meio de uma conversa boba ele convidou-a para sair dali, ela simplesmente aceitou, como se o conhecesse há séculos, e isso fosse inteiramente normal.

A partir daí, as lembranças ficavam confusas e só conseguia ver cenas rápidas de lugares desconhecidos, luzes, escuridão, sons, coisas desconexas... e o rosto, sobretudo os olhos, que não saíam de sua mente.

Não conseguia se lembrar, por mais que tentasse, como tinha vindo parar ali, naquele cemitério, sobre aquele túmulo, mas chorava desesperadamente, pois sentia um imenso vazio e sua vida jamais seria a mesma depois de tudo, a solidão tinha um motivo: os olhos fulgurantes ainda a fitavam, mas de uma forma diferente, na fotografia do dono do túmulo, onde estava agora sentada.

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