A Garganta da Serpente
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O Anjo

(Luciana Fátima)

As artes sempre foram sua paixão. Desde menina gostava de pintar, desenhar, modelar e quando teve que optar por uma profissão, não teve dúvidas em fazer algo ligado às artes plásticas. Depois de tanto tempo, porém, estava desanimada, não conseguia criar, não encontrava inspiração e sua vida estava um verdadeiro tédio.

Os dias passavam e via a rotina como algo insuportável. Não saía mais de casa, não falava com os amigos, enfim, não tinha vontade de fazer absolutamente nada.

Até que um dia, ao acordar, encontrara a inspiração, tivera um sonho revelador. Encontrava-se em um cemitério muito calmo, tranquilo e passeava pelos túmulos, apreciando as belas esculturas, quando, de repente, sentiu que era observada, mas não sabia exatamente por quem.

Ao virar-se, deparou com uma estátua que não tinha ainda observado, a representação de um lindo anjo másculo, com longos cabelos, enormes asas e um ar de melancolia. Surpresa maior teve, quando, ao fixar-se em seus olhos, eles se mexeram. E não só os olhos, a estátua estava viva e saíra de cima do túmulo, vindo, vagarosamente em sua direção. Quando estava bem próxima, ela acordou, mas a sensação permaneceu por muito tempo ainda. Não quis levantar, ficou na cama até tarde, e quando finalmente levantou-se, tinha uma ideia fixa: iria materializar a escultura daquele ser maravilhoso de seu sonho.

Pela primeira vez em meses, teve ânimo para fazer algo, mas era mais que isso, transformara-se em verdadeira obstinação. Passava dias e noites trabalhando na escultura enorme, que tomava forma muito rapidamente.

Não conseguia precisar quantos dias passara nesta febre, mas ao olhar sua obra concluída, teve um arrepio de prazer. A estátua estava linda, um anjo melancólico com asas enormes a olhar para o infinito. Ficou tão satisfeita que não conseguia parar de olhar para sua criação. Passava horas e horas a contemplar o anjo, sonhando com o impossível.

Um dia, ao chegar em casa, foi direto para seu lugar predileto, uma poltrona que colocara em frente à obra para melhor apreciá-la. Qual não foi, porém, a surpresa, quando não viu seu anjo no lugar de sempre. Teve uma vertigem e teria caído, se não fosse a poltrona.

Ainda sentada, meio tonta, teve um sobressalto ao perceber um movimento atrás das cortinas. Não pôde ver imediatamente quem era, devido à penumbra.

Somente viu um vulto masculino vindo lentamente em sua direção, cabelos longos, pele muito clara, mãos finas e pálidas, lábios indecifráveis e olhos negros como a noite. Dir-se-ia que era um ser perfeito, se não fosse por um detalhe peculiar, um enorme par de asas que lhe saía das costas.

(19/08/2001)

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