A Garganta da Serpente
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De novo ano novo

(Luiz Carlos Sá)

...sabe que você tem razão querida! Não, não, não me olhe deste jeitinho somente porque tu sabias que eu iria concordar no final; pare de fazer esta carinha de quem está querendo rir em voz alta. Não consigo parar de olhar para estes seus olhos negros feito noite sem luar. Realmente você me conhece tão bem!

Estou lembrando de quando te vi, ali sentada no banco do 17; até hoje me lembro daquele seu vestido todo branco, com aquelas flores grandes e vermelhas espalhadas por todo o seu corpo... Tá rindo! A senhora acha que eu não iria reparar nesta sua silhueta perfeita, nestas pernas grossas e bem torneadas. Ah! Agora a madame está com o rosto vermelho. Por que está com vergonha? Não se deve ter vergonha do que é bonito. Vem cá! Deixa eu te dar um abraço. Isso! Se aconchegue entre os meus braços, sinta como o meu coração diz que te ama.

"O senhor quer sentar? Eu tiro meus livros e vaga um lugar para o senhor?"

Está vendo como eu lembro de cada detalhe da primeira vez em que a vi? Até o que a senhorita falou no bonde 17, aquele que vinha da rua Larga em direção ao Catete. No entanto, preciso confessar que achei você um pouco atirada... Pára, não precisa me bater, estou brincando! Mas querida, sei que sou um homem bonito, bem apessoado, de boa família e as moças me achavam um partidão. Com certeza foi por pressentir que uma outra poderia me fisgar que a mocinha tomou logo a iniciativa. Como, bobo? Sou um apaixonado!

Foi após o nosso primeiro beijo, naquele passeio que fizemos ao Pão de Açúcar, dado por você dentro do bondinho que nos levava até o Morro da Urca, para de lá irmos em outro lance aéreo até o Pão de Açúcar, que me peguei pensando: nunca mais deixarei esta mulher. Passarei o resto da minha vida com você, não me importa se ela têm esses pensamentos meios loucos.

Eu sei que você sempre quis sua independência e nunca concordou com a forma com a qual as mulheres são tratadas, sempre falando que não nasceu para ficar cuidando da casa, que queria algo mais. No início eu me assustei. Achava que você tinha alguma espécie de doença e não podia ser normal por pensar daquela forma.

Como eu estava enganado a seu respeito, somente com o passar do tempo é que a ficha caiu, é como falam nossos netos. Meu amor, você é uma borboleta rara que através do brilho das cores de suas asas, aos poucos me trouxe para a verdadeira lucidez, viver livre, amar e ser livre. Viver, viver e viver a vida com você, eu Apolo e você Dionisio.

A festa de casamento foi contra a sua vontade. Só houve por causa de sua mãe. Alias foi uma das poucas coisas que ela fez de bom. Quando a vi entrando na igreja com aquele vestido levemente azulado, pois branco você recusara a usar.

"Não sou escrava, nem fui vencida pela vida para me entregar a dogmas".

Seu rosto brilhava como um sol. A luz que brotava de você iluminava cada pedaço daquele templo e envolvia cada um dos convidados; o altar era o lugar que seus pés tocavam.

"Por que as lágrimas... Você não gosta de recordar?"

"Foram momentos tão lindos, não vejo porque ficar triste... Desculpa, não quero te ver desta maneira... Ah! Bem, pensei que tivesse ficado triste."

Às vezes eu fico parado pensando em tudo isto! É como se eu assistisse a um lindo filme. Daqueles de romance, com final feliz. Acho que penso em filme porque você adora cinema. Como é aquela frase que você fala...é...

"É a arte de interpretar e a coisa a ser interpretada."

Isso mesmo! Só você para querer interpretar um filme. Filme é filme, é como aqueles livros sem pé nem cabeça que você lê. É uma mentirinha que contam pra gente rir, torcer pelo mocinho e pela mocinha e chorar. Os que fazem chorar eu não gosto. Você sabe disso! Só assisto por sua causa.

O que eu mais gosto é ficar olhando o jardim que você plantou, ver como as plantas e flores cresceram, as várias cores e perfumes que possuem, mesmo aquelas que não têm cheiro, mas são belas aos olhos. Passei até a gostar daquelas margaridas grandonas, que são de um amarelo forte.

"Os girassóis."

Essas mesmo! Elas eram suas preferidas. Você sempre conversava mais com elas do que com as outras. Eu ficava horas olhando você sussurrando e rindo com elas.

Até hoje não entendo por que você não ficava triste quando uma delas ficava doente. Eu te perguntava se a planta amarela estava doente? Você sempre dizia!

"Ela só mudou de grau."

Lembro até hoje como você não gostava de ver as crianças brincando com as sombras da vela que elas faziam com as mãos e projetavam na parede da sala quando faltava luz. Eu nunca vi mal naquelas brincadeiras...era somente uma brincadeira de criança, que mal havia? Bastava eles começarem a brincar que você os mandava para o quintal.

"Já pra fora, que lá as coisas tornam-se mais reais. Anda logo crianças..vão."

Chega de lembrança!

"Só queria te mostrar estes girassóis que trouxe do seu jardim. Passei a conversar com eles E te digo que não deixo os nossos netos brincarem com as sombras. Sempre os mando para o quintal..."

"Pai!"

"Paiiii..."

"Oh! Pai, o cemitério vai fechar! Estamos atrasados para a festa de fim de ano na casa da mana... Por que o senhor teima em vir aqui após a morte da mãe?"

"É a esperança meu filho...A esperança....A esperança é a maior mentira que há, e a mais gostosa de ter. Nada existe de absoluto!

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