A Garganta da Serpente
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Monumento de Pedras

(Lenin Bicudo Bárbara)

Catava pela rua as pedrinhas soltas, e guardava-as nos bolsos da saia. Era uma mulher, e picada na sua blusa uma rosa branca acenava para os olhos da cidadezinha, esses olhos curiosos.

Vagava como fosse pacata, e como o seu corpo não tivesse as graças de mulher vivida, ou como se os seus olhos não fossem tão azuis quanto deveriam ser as estrelas, no imaginário de um pobre poeta. E andava para encher os bolsos de pedrinhas, pedras cinzentas, pretas, sujas de terra, e até mesmo as mais branquelas, que, às vezes, davam de aparecer na cidade. Porque as catava do chão, suas mãos andavam sempre sujas, e os seus dedos, mesmo quando lavados, diziam alguns, tinham algo da cor de poeira.

Ela não era moça de lá, da cidadezinha. Vinha toda a semana colher as tais pedrinhas, e então voltava, não se sabia bem por onde. Vestia sempre aquela saia até os joelhos, cheio de bolsos remendados, e uma blusa fina por cima da camiseta branca, sem graça. E olhava nos olhos de todos, mas todos os olhos dela fugiam, avessos ao que ela poderia lhes dizer, ou imaginar, dentro daquela sua cabeça, donde os cabelos vazavam lisos até os seus ombros miúdos.

Chamavam-na de a Caminheira, menos os Sampaio - a família do prefeito, do vereador e dos empresários de nome da cidade -, que a preferiam chamar Srta. Margarida. Diziam os boatos, que a tal Caminheira havia se engraçado com um dos Sampaio - sabe-se lá qual deles -, daí a intimidade; mas, a verdade das coisas, ninguém conhecia. E, mesmo por isso, o nome Caminheira pegou, e Srta. Margarida continuou sendo só um nome de moça falecida na cidade, há uns quarenta anos, quando aquilo nem cidade era.

E toda a vez a Caminheira caminhava pelo mesmo caminho: chegava pela única saída da cidade, passava pela Rua dos Coquinhos até o seu cabo, quando pegava a direita numa ruazinha sem nome, pra desembocar na Rua do Comércio; virava bem na metade dessa rua, e seguia em zigue-zague até o posto, e de lá para a Rua da Ofélia, que seguia até dar numa viela que levava ao começo da Rua dos Coquinhos, donde se mandava da cidade - que, nessas visitas, visitava toda. Mas, e como ia com passadas bem pequenas, o trajeto, que compreenderia uns 20 minutos nos tempos da cidade, durava nos seus pés quase uma hora.

Desde quando ela visitava a cidade, ninguém sabia precisar, mas parecia há tanto tempo que espantava ela aparentar a mesma juventude em todas as memórias. O seu Nelson, velho cujos olhos viram se erguer as primeiras casinhas naquilo que, outrora, foram as suas terras, dizia que ela já passava por lá quando ele era ainda moço vistoso, e que tinha, naqueles tempos, espiado por debaixo da sua saia. Mas a esses contos, ninguém da cidade creditava a mínima fé. A dona Ofélia, por sua vez, contava que a primeira vez que a moça apareceu por lá, estava chovendo tanto que o mundo parecia prestes a desabar. Ela conta que levava um filhinho no colo, pretinho como carvão, até onde passava o rio, onde o largou, chorando muito tanto o filhinho quanto a moça. E o motivo porque ela catava as pedrinhas era porque ela achava que aqueles eram os pedacinhos do seu menino, que ela estava montando lá na cidade grande.

Mas também o que a dona Ofélia dizia não era lá muito confiável, porque ela muitas vezes confundia as histórias dos outros com as suas: para ela - sejamos sinceros -, metade das mulheres da cidade já havia deixado um seu filhinho, pretinho como carvão, no rio, pra morrer, chorando muito os dois, naquele dia chuvoso.

A única fonte de verdades da cidadezinha, os Sampaio, não relevava nada da intimidade dessa moça. Quero dizer, o prefeito, o vereador, e os empresários até que falavam dela, e o prefeito inclusive se gabava de ter conversado uma vez com a Srta. Margarida, que, daquela feita, havia-lhe rendido os mais rasgados elogios, mas pedira que não se falasse nada sobre ela, porque era moça tímida. O vereador, por sua vez, falava pra quem lhe perguntasse que já vira a Srta. Margarida perambulando pela cidade grande, e ela era moça de família, muito reservada, mas muito rica, também. Por conta desses comentários, a cidade toda preferia não chegar muito perto dela, e, até mesmo, desviar o olhar, quando pegos pelos olhos azuis da Caminheira. Tinham-na, quando a viam passar, por uma espécie de fantasma, que merecia ser temido. Só depois que ela saía voltavam a falar sobre ela, e toda a semana o seu Nelson lembrava de ter espiado, há tanto tempo, por debaixo da sua saia.

Quando passava a Caminheira - que seguia os ponteiros do sol, abandonando a cidade assim que eles apontavam o último raio pra debaixo da terra -, a janela do seu Nelson abria, e esperava até que ela chegasse na Rua da Ofélia, onde morava, pra lhe espiar. Arrepiavam-se-lhe os cabelos do braço quando, de vez em quando, ela olhava direto no buraquinho da cortina por onde ele espiava, e então ele, feito o moleque travesso de outros tempos, escondia a cabeça no chão e ficava ali até que o sol caísse, e ele tivesse a certeza de que ela já tinha partido. Uma vez, quando julgou vê-la sorrindo, ficou ali até dormir, e quando acordou não sabia se tinha sido sonho ou não. Se tinha, ou não, pouco se importou, e foi correndo pra dona Ofélia contar que tinha visto sorrindo a Caminheira. Ela recebeu com o carinho de costume o velho, que, naquele dia, tinha as suas faces variando do seu natural mais-preto-que-o-carvão, para um roxo afetado, injetado de sentimentos os mais encabulados. Contou pra dona Ofélia o caso, e ela espalhou pra cidade inteira: pela primeira vez a Caminheira tinha dado um sorriso, ela que era tão tímida!

Precisava haver uma explicação para aquilo, que havia chocado toda a cidade, e provocado as mais variadas reações. Os netinhos brancos da dona Ofélia diziam que ela se estava rindo porque tinha se enfurnado no mato com o tal Sampaio; a moça mais bonita da cidade dizia que ela tinha se apaixonado por um poeta da cidade grande; o esposo da dona Ofélia falou pra não darem atenção para essa vagabunda; o dono da mercearia disse que ela tinha comprado um doce caseiro dele, e por isso sorria tanto; e o próprio seu Nelson já contava que, depois que ela deu aquela risadinha, tinha puxado ela pra dentro de casa e espiado de novo - e com muito detalhe!, falava, a testa quase suando o seu roxo - o que ela tinha de escondido por debaixo da saia.

Até que o prefeito, justo naquele dia, que era de eleição resolveu explicar tudo: a Srta. Margarida estava rindo porque estava contente em saber que ele seria reeleito em breve. Jurou que a Srta. Margarida, se ele fosse mesmo reeleito, iria trazer um monte de rosas brancas feito aquela que levava no peito, e as distribuiria pra toda a cidade.

Mas na semana seguinte a Caminheira não trouxe as rosas, embora o Sampaio houvesse sido reeleito por maioria esmagadora. Naquela semana, ela passou pelo caminho que sempre passava, e o seu Nelson a espiou pelo buraquinho na cortina, mas ela, dessa vez, nem olhou para ele. O seu Nelson, então, resolveu-se de que já não sabia se tinha visto no rosto dela um sorriso ou não, mas depois de ponderar a noite inteira, decidiu que tinha visto, sim, e, na manhã que nascia, correu pra casa da dona Ofélia mostrar a rosa que tinha lhe dado a Caminheira, no dia anterior. Era uma rosa vermelha, do mesmo vermelho daquelas que uma das filhas brancas da dona Ofélia plantava no jardim, mas o seu Nelson explicou que aquela era vermelha assim porque as brancas a Caminheira guardava só para ela. E contou que ela era muito caprichosa, tinha ficado toda encabulada - mais vermelha até do que era aquela rosa - quando ele, mais uma vez, espiou tudo o que ela tinha debaixo da saia.

O esposo da dona Ofélia, ouvindo a conversa dos dois velhinhos, quis intrometer-se, ele que era o irmão do prefeito. Bem verdade que era o único Sampaio pobre da região, mas ele que escolhera assim, casando com aquela ruiva pobretona que, com os tantos anos, tornou-se a dona Ofélia. Estavam nos cinquenta, mas ela parecia bem mais velha, naquela manhã. O Sampaio pobre, metendo-se na conversa de acordo com o que lhe pedia a cachaça virada na garganta, meteu uma grana na mão poeirenta do seu Nelson, e mandou que fosse comer, para, em seguida, pedir que de uma vez por todas esquecesse o que havia visto por debaixo da saia da sua esposa, naqueles anos idos há tanto. A dona Ofélia e o seu Nelson nem tentaram entender, e, como estavam, voltaram, ela para o quarto, e ele, pra casa, e de casa pra mercearia, quando lembrou-se de que não comia havia dois dias quase inteiros. A rosa vermelha, deixou no chão de um caminho, quando escorreu pelas suas mãos distraídas, antes de sair da vista da dona Ofélia.

Na quarta visita da Caminheira pela cidade desde esses fatos, o seu Nelson já não vivia mais. Anunciaram a sua morte pelos megafones que a ditadura havia deixado de herança, nessas palavras:

"Morreu, ontem, o mais querido dos fundadores desta cidade, o senhor Nelson Junqueira dos Santos, pai e avó de todos nesta cidade. Morreu do coração, que nos guardava a todos. As despesas do enterro serão cobertas pela prefeitura", e depois disso uma marchinha triste começava, aquela que era a preferida do seu Nelson.

Todo o mundo comoveu-se, até os netinhos brancos da dona Ofélia, que só voltaram a rir quando pintaram de spray a palavra corno na parede da casa do pai, o Sampaio pobre, que nem respeito por si próprio tinha, de qualquer maneira. Mas, no meio de tanta comoção, só chorou a dona Ofélia; e mesmo ela, tão logo começou a chorar, já tinha se esquecido do porquê, caduca que estava, e nesse choro sem razão ficou até os olhos cansarem do exercício.

O corno, vendo a cena, comoveu-se no mais fundo do coração, e, ninguém entendeu seu gesto, levou a esposa para a casa do falecido, para morarem lá, sem os filhos - mesmo porque o mais velho, o deputado, era quem cuidava deles, e lhes ensinava as coisas da vida, de qualquer forma. Quando na rua do falecido, o casal se encontrou com a Caminheira, que largava a rosa branca na frente da porta, que nem mais tranca tinha, de tão acabada. A dona Ofélia quis lhe perguntar alguma coisa, saber, talvez, o que ela fazia com as pedrinhas, ou por que nunca parecia envelhecer, mas entendeu que essas eram perguntas tolas, e por isso deixou-as esvaecerem na lembrança. Já o corno, esse não precisava perguntar mais nada a ninguém, pelo pouco resto da sua vida. Tudo o que fez a dona Ofélia foi dar um beijo na testa da moça, que lhe respondeu com um sorriso de verdade, para, em seguida, tomar o seu rumo pela Rua Ofélia. O casal, depois de algum silêncio, entrou pela porta e habitou a casa - aquele que era o único lugar decente na cidade, teve que admitir o esposo da dona Ofélia.

E a Caminheira, ela nunca mais visitou a cidade, que o tempo foi preenchendo com pedrinhas de toda a sorte, até torná-la um imenso monumento de pedras.

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  • Publicado em: 27/01/2005
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