A Garganta da Serpente
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As Sofias

(Lou Bertoni)

Sofia acordou cedo, rapidinha com o que já conhecia há anos: saltar da cama, fazer xixi, lavar o rosto, escovar os dentes e só aí, tomar banho. Dois banhos frios. Rapidinha talvez não fosse o termo, mas treinada. Ensinada pelo hábito e, claro, pelo prazer de fazer as mesmas coisas, do mesmo jeito, sempre. Nunca precisou de nada diferente, passou a vida como se o dia não mudasse de dia, 24 horas cíclicas, as mesmas 24 horas que viveu quando pequena, na adolescência, na lua cheia. Para garantir-se, fechava as janelas, não tinha telefone, não assistia televisão, não mantinha contato com seres vivos - nem de estimação.

Escolheu que tinha 30 anos - não lembra quando, mas parece que foi aos 10. E gostava de olhar no espelho e pensar: que idade tem meu corpo? E como a moça do espelho, cúmplice, não respondia, as duas faziam as contas e mais ou menos sabiam a idade que o corpo tinha. Adorava aquela brincadeira e a última vez tomou um susto: estava passando dos 60. De lá para cá, ficou mais naquela de contar só o tempo que fazia que não tentava descobrir o tempo do corpo. Quase dava na mesma, mas não dava - ela não somava as duas coisas, por via das dúvidas. Passou então a ter mais o que fazer: quanto tempo tem que contei quanto tempo tinha que eu não contava o tempo?

Falar com ela mesma era sua paixão. Começou devagar, numa coisa mansinha de gente que mora mais dentro da pele do que fora.

- Vamos brincar, Sofia? - perguntava o reflexo no espelho.

- Ah, não, agora quero sonhar.

- Me leva, Sofia?

- Só se essa Sofia que você é for mais forte que essa Sofia que nasceu hoje.

- Sou a Sofia que você gosta... - o rosto triste, preso dentro da moldura.

- Não, minhas outras Sofias podem se zangar ouvindo isso. Nunca mais diga que é a preferida!

- Mas você me vestiu de azul... Não veste de azul todas as Sofias do dia? Sou a Sofia de hoje.

- Sempre visto de azul a Sofia que mamãe gosta - a predileta. As outras, andam nuas pela casa... sem nenhuma fatia de amor.

- O que faz essa Sofia, de rosa, ao lado do pai?

- Chora, em meu lugar, a morte de sua mãe.

- Tem uma Sofia adulta, sozinha no quarto escuro.

- Ela enterrou hoje algumas Sofias, junto com seu pai. Só ficaram as grandes, de peito e menstruadas. Você também vai ter que ir embora.

Foi nesse dia que decidiu-se sobre a questão do relacionar-se. Elegeu os móveis preferidos e intensificou o elo que mantinha com eles. O sofá, gordo, paninho floral, nunca foi reformado, por exemplo. Não podia mudá-lo, sabia de suas dores íntimas, de seus furos e da história de cada um deles. A mancha maior e escura, no encosto, veio do chá do pai, num dia de tremores maiores - no fim de seus dias, o chá era tomado em colheres, por outras mãos. A mesa da sala de jantar fazia parte de seu passado curricular, riscada pela força dramática do lápis contra exercícios e mais exercícios de matemática. E era símbolo de algumas vitórias. Na mesa, a Sofia de azul com os pais.

- Posso levantar agora? - olhos redondos no redondo do prato.

- Come mais, você ainda não comeu nada...

- Posso? Quero ir no banheiro... - unhas miúdas fazendo coração no verniz do coração da mesa.

- A gente vai ao banheiro e não montada nele. Já falei que o seu português anda horrível?

- Meu intestino também... - ponta da faca desenhando um diabinho.

- Come. Senão não vai crescer, nem ficar bonita e nem vai ter perna grossa...

- Eu vou ficar anã, feia, magra e muito fedida, se não for ao banheiro.

Primeira surra, ainda na mesa. Todas as Sofias apanharam. Mesmo depois de adulta, quando pensava naquilo, partes do seu corpo ardiam como arderam na época. Mas teve tempo de arquitetar a sua vingança. Todo dia era a mesma coisa - estômago pequeno, torcido e medroso, comida gigante saindo das travessas aos gritos e avançando sobre elas com bafo de cebola. Na mesa, a Sofia de rosa com os pais.

- Come só mais um pouquinho...

- Tô sentindo mal.

- Eu vou acabar perdendo a paciência com você, Sofia.

- Meu estômago tá doendo...

- Mais coisas vão doer em você se não terminar de comer.

- Acho que estou doente...

- Come, agora!!

Enquanto engolia, sabia que tinha chegado o grande dia, principalmente com a importante visita de padre Quintino para o almoço. Empurrou tudo, bem empurrado. Sem mastigar, sem sentir o gosto de nada, garfada após garfada, num ritmo acelerado. Finalmente, terminou. E feliz, ainda na mesa, sentadinha, vomitou tudo de volta, dentro do prato.

- Preciso comer isso de novo, mamãe? - o anjo questiona o diabo.

Foi magra todos os dias, em nenhum deles tornou-se fiel depositária de um grama de gordura sequer. Com simpática cautela, afastou qualquer coisa doce de sua vida, nunca se permitiu chocolates ou beijos. Broas ou banhos quentes. Ambrosia ou roupas macias. Fazia enormes pudins de leite e os deixava na cristaleira. Lá eles ficavam até serem substituídos por outros e mais outros e mais outros. Gostava de fazer pudins. Gostava de deixá-los lá, como obras de arte, intactos. Gostava do cheiro dos pudins quando estragavam, cheiravam a vitória - dela contra o macio, o mole, o derretido, o frágil, o bonito mas perecível. Nunca cedia ao encanto trêmulo das carnes dos pudins, mas desconfiava que alguma Sofia se deliciava com eles, roubando na noite o que o dia proibia.

- Pudim, Sofia? - o espelho de novo.

- Não, obrigada, estou sem fome.

- Come... ou outras Sofias comerão.

- Nenhuma Sofia gosta de pudins, nem mesmo a Sofia de azul.

- A Sofia de azul morreu, você a matou.

- Ela matou minha mãe.

- Não foi a Sofia de rosa que matou mamãe?

- As justiceiras sempre se vestem de rosa. Mesmo que estejam de azul.

- Coma o pudim, Sofia.

- Com papai foi diferente. Coração fraco. Naquele dia, eu nem estava aqui.

- Mas a Sofia de azul estava...

- Não vou comer pudim. Ele está aí para estragar, para não ser comido.

- Como nós, Sofia? Somos como esses malditos pudins que estragam sem ninguém tocá-los, não é?

- Você não devia ter dito isto.

E mais uma Sofia morreu naquele dia.

- Quanto tempo tem que não conto o tempo?

A pergunta ficou sem resposta, não havia mais Sofias para responder.

Ela balançou os ombros, sabia que aquele era um dia especial. Finalmente estava livre do dúbio, do dueto desvantajoso, da eterna vigília de não deixar ninguém magoar nenhuma Sofia.

Acordou cedo, rapidinha com o que já conhecia há anos: saltar da cama, fazer xixi, lavar o rosto, escovar os dentes e só aí, tomar banho. Um banho frio.

Penteou os cabelos, vestiu a roupa rosa, fez as malas e desceu a escada.

Olhou os cômodos, despediu-se de todos da casa. No amigo antigo, gordo, de um só lugar, colocou as joias que tinha escolhido para que ele tivesse uma velhice boa, reformado. Comeu todo o pudim da cristaleira, o último dos caramelados. Na mesa, deixou o prato sujo de vômito, que guardou por mais de 60 anos.

Abriu a porta da rua e saiu levando a mala, cega pela claridade e com a boca doce.

Na casa, encontraram uma velha de 70 anos, Sofia Maria, morta, aparentemente envenenada. Ela vestia uma roupa azul, portava todos os documentos e tinha no bolso da saia um testamento onde deixava todos os seus bens para sua irmã gêmea, Maria Sofia.

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