A Garganta da Serpente
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A ladra

(Lou Bertoni)

Matilde ajeitou de novo o cabelo. Olhou a penteadeira e conferiu com a ponta dos dedos se tudo estava no lugar. Precisava daquilo - colocar a mão nos objetos cheirosos de sua vida - porque sua memória falava em Braille, embora enxergasse tudo e muito bem com os olhos redondos. Sorriu bochechuda para o espelho, passou o batom rosa na boca miúda e espremeu os olhos contra as olheiras. Tomada do orgulho domingueiro, colocou o relógio delicado, todo de ouro e de lembranças. Ah, meu pai, quisera fazer 15 anos de novo!

Com a bolsa e a Bíblia embaixo do braço, foi para a cozinha, na hora exata de evitar o próximo pingo da torneira da pia. Homens fazem falta, às vezes. Muito às vezes, pensou desmentindo as noites enormes e lembrando-se dos sermões de padre Quintino. Já na porta, pronta para sair, viu a xícara suja de café sobre a mesa. Metódica, preparou-se para lavá-la e ali, na espuma asséptica do seu sabão em barra, ficou apenas aquele corpo de senhora, enquanto lá longe, o pensamento corria ligeiro com os sonhos de moça recatada. Nem viu quando terminou, pegou novamente suas coisas e saiu.

Acordou na rua, o dia amanhecendo e ela caminhando para o ponto de ônibus, preocupada se tinha trancado a porta direito. Domingo, missa. Seu dia de festa e abandono aos prazeres da alma, cantarolando baixinho louvores ao Senhor. Ela amanhecendo e muitos ainda por dormir.

Chegou ao ponto de ônibus ainda dentro daquela hora que parece que está anoitecendo. Bando de perdidos, esses aí, jogados nos bares, nas casas noturnas canibais, nos copos cheios de dúvidas e tristezas. Pediu em voz alta por aqueles insanos arremedos de gente, insegura quanto ao destino da reza e sem certeza se clamava por quem precisava. Não, esse aí deve estar indo trabalhar... Aquele lá, com certeza, está bêbado... Essa aí dormiu na rua... não, tá com o filho no colo, deve ter saído de casa agora... Ah, três Ave Marias, para evitar injustiça! Foi nessa escolha, nessa apuração de carências, que ela viu aquela mulher. Era a visão de um mosaico, um vitral colorido - que Deus perdoe a comparação - um punhado de cacos, pedaços de mulheres costurados numa só. A visão de algo sujo, transfigurado, um monstro das noites vendidas. Ficou arrepiada, sem lugar, torcendo pela chegada do seu ônibus, enquanto a prostituta encostava do seu lado, rebolando curvas no vestido colado e transpirando suor etílico. Olhou de novo, sem querer olhar, mas, teimosa, a menina dos seus olhos queria conhecer a mulher dos olhos da outra. Com a maquiagem já fora de foco, o rosto da moça permitia uma imagem dupla de olhos e boca, como uma máscara um pouco deslocada para baixo, rímel amanhecido carimbando tristezas.

Mangabeiras, Santo Antonio, Pampulha. Vinte ônibus fazendo um longo risco na avenida e nenhum que servisse para ela ou para aquela mulher.

A Bíblia apertada no peito, a bolsa no braço, o ponto de ônibus praticamente vazio. A vida fácil ali, agora andando de lá para cá, com aquele jeito agressivo, sandálias nas mãos, fumando antes das 6 horas da manhã. Olhou de novo e a outra, talvez percebendo o interesse apavorado da mulher de vestidinho floral, riu debochada, desfilando toda a imoralidade que só um corpo jovem tem.

Finalmente o ônibus de Matilde chegou. Ela correu para ele, correu para a porta que se abria prometendo um abraço, correu para o calor do coletivo, do comunitário, do apinhado de iguais. Foi quando, já se preparando para passar na roleta, foi brutalmente empurrada, abatida por cotovelos fortes e pouco gentis. Era a tal mulher, a vagabunda insone que abria caminho com o corpo. Matilde sentiu nojo daqueles pedaços de carne forçando passagem contra seu corpo, a vulgaridade fazendo-a cambalear. Seus olhos se encontraram. Foi um duelo de cartas marcadas - ponto para a falta de nobreza de olhar fixo, enquanto Matilde desviava os olhos para o piso.

Na roleta, na hora de pagar, Matilde sentiu falta do seu relógio de pulso. O relógio-presente, o relógio-herança, o come-gerações de ouro e delicadeza. Olhou para a ordinária com seu caminhar gelatinoso rumo a um banco vazio e flashes do esbarrão pipocaram à sua frente, ainda sentindo o solavanco no braço. Como ela podia ter ousado roubar um pedaço da sua vida, levar num safanão mais de 50 anos de sua família e sua memória e os beijos paternos e as festas com licor e mamãe doente e Tia Alzira embrulhando as louças e a casa com cheiro de forno quente? Foi como se tivesse sido picada por uma cobra venenosa, fulminante, o tampo da cabeça sendo arrancado do lugar pela falta de medo. Pela primeira vez na vida, era falta de medo aquilo. O relógio, não! De Matilde generosa a Matilde agredida, de curativo a flecha, de bombeira a incendiária. Perdera o liso do rosto guardando aquele relógio, contando minutos através de meio século naquela parceria tiquetaqueante. Ele era seu diário cíclico, seu atlas, mapa de navegação onde deixou marcado tudo o que o tempo pudesse cronometrar. Não tinha festa sem hora, velório sem fim, quarto sem parede. Não tinha Matilde sem relógio. Não tinha irmão sem briga, vizinho sem amoreira, namoro sem namorado. Não tinha relógio sem Matilde.

Uma bola de fogo queimava seu peito e ela abriu a bolsa. Tirou a escova de cabelo, empunhou firme o cabo de madeira escondido debaixo do braço e caminhou pelo corredor do ônibus, olhar fixo na nuca da maldita cretina/desalmada/sequestradora de almas inocentes. Sentou com força ao seu lado, enquanto a outra, escondida na impunidade do sono acumulado, olhava pela janela. Com uma disposição que seu corpo frágil nunca teve, cutucou-a decidida, usando o cabo da escova contra suas costelas, protegendo o ato com a bolsa, sempre olhando para frente, falando entre os dentes:

- Fica quietinha, sua vagabunda ordinária. Não fala nada e passa o relógio, passa o relógio! E não olha para cá, senão eu acabo com você, vigarista safada. Põe o relógio dentro da bolsa, agora! Anda depressa, anda! Me dá o relógio!!

Foi tudo muito rápido. Quem olhasse, não veria... ou no máximo, veria uma senhora virginal e uma mulher tonta, uma senhora de olhar reto e uma mulher perdida, uma senhora frágil e uma mulher da rua. O quindim e a sobra do almoço.

Matilde não acreditou quando sentiu o peso do relógio sendo jogado dentro da sua bolsa, a respiração ofegante da outra, o desconforto do medo. Aquela coisa estava com medo e Matilde tinha prazer nisso. O ódio se alimenta mesmo de pequenas vinganças.

- E agora, desce, sem olhar para trás, desce e some, senão eu te estouro!

Matilde ainda a viu olhando da calçada, enigmática, o ônibus passando e ela ficando parada, com uma sombra nos olhos, cansaço nos olhos, borrões nos olhos.

O chão abriu-se numa fenda cheia de farpas, pernas bambas, de valente a ameba, de ferro a algodão. Colocou a escova de volta na bolsa, dura, sem olhar para o que estava fazendo, com coisas latejantes tentando sair de dentro dela, ataque movimentoso de tremedeira e muito barulho do sangue bombeando coragem, Matilde, coragem. Não tinha mais corpo, toda ela era de espuma e fel, raiva derretida em suores internos. Não sabia como tivera aquele surto, tomar o seu relógio de volta, não acreditava, aquilo era loucura, oh, Deus... Podia ter levado um tiro, uma surra, imagina se a outra reagisse? E se ela sabia onde era sua casa? "Não sentir medo era mais suicídico do que valentesco", vivia dizendo seu humilde e sábio primo Gotardo.

Deixou o ônibus dar uma volta completa e desceu no mesmo ponto em que havia subido, ainda com medo de ter sido seguida. Corria, rezava, pedia calma para enfrentar o pavor de estar sozinha naquelas ruas, queria chegar logo em casa, fechar a porta, trancar tudo. E principalmente, tomar um banho, arrancar aquele cheiro de perfume barato do nariz.

Entrou em casa ainda de veias expostas, coração aos pulos e pensando na mãe, no pai, na saudade que sentia deles nessas horas. Respirou fundo, lutou contra a vontade de vomitar e guardou a Bíblia na mesinha do telefone - lá não era o lugar dela, mas naquele dia podia se dar ao luxo de fazer qualquer coisa. Só aí se sentiu segura. Foi para a cozinha tentar beber um pouco d'água com açúcar e colocou a bolsa sobre a mesa de jantar. Quando se virou para pegar a água no filtro, foi como se alguma coisa estilhaçasse dentro da sua cabeça, um raio percorrendo sua espinha e Matilde lá, interrompida. Na beirada da pia, perto do escorredor de louças, inocentemente descansava o seu relógio. Tudo voltou à sua memória, como se acendesse a luz: na hora de lavar a xícara, a retirada rápida do relógio, sabão, espuma, pensamento longe, bolsa, Bíblia, rua!

Em câmara lenta, como num mergulho noturno em águas profundas, desligada dos sons externos e só um corpo com pancadas cardíacas, Matilde flutuou rumo à sua bolsa. A bolsa na mesa. A mesa na sala. A sala na penumbra.

Suas mãos queimavam.

Da bolsa, retirou um enorme relógio de pulso, metálico, com pulseira de um couro gasto e fedido. Suor etílico.

(A LADRA faz parte do livro CONTOS DO VIGÁRIO)

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