A Garganta da Serpente
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Homo Répteis

(Leila Aquino)

Tragédia ou Comédia, só o caráter dos personagens poderá definir. Embaixo de uma árvore de metal, quatro homens discutiam sobre como obter água para manter suas famílias.

Um deles teve sua voz lastimosa sufocada pela vibração grave do outro interlocutor.

- Vamos deixar as lamentações correr como as crianças nuas em quintal sem árvores?

- Ouvi notícias sobre homo répteis que retiram água das camadas profundas da terra. Dizem ter reservatórios inseridos em seus corpos, são voluntários e costumam ajudar os necessitados...

"Mas não temos nenhum por aqui".

- Sem água não iremos muito longe. Vamos todos morrer fritados no deserto.

- Olha aqui cabra, se falar besteira de novo, vou abrir tua cabeça e fritar os miolos pros cachorros comerem. Entendido?

"Na seca a comunhão amputa as mãos".

- Agora, não bastasse um, tem dois! Essa reunião é pra tentar um recurso, uma saída, não me disponho a ouvir um chorão e um dissimulado.

- Dissimulado! Escala o monte sagrado e vê se aparece algum anjo em chama de fogo. Pede pra ele plantar nuvens no céu pra terra colher chuva. Eu também tenho bom timbre na minha voz. Sei usar a força do meu corpo numa boa briga. Entendido?

De imediato, um deles, ficou com a cabeça latejando, parecia uma geleia sob a ação do vento forte, logo seu corpo afina e estica alguns metros, então rasteja numa velocidade indescritível. Em segundos, os três homens o perderam de vista.

- Vocês viram o que eu vi?!

- Ele virou homo réptil!

- Isso pode acontecer com qualquer um de nós. Não há notícia desta mutação no sexo feminino, até o momento, mas há uma hipótese que afirma a possibilidade para algumas mulheres.

- Ele sumiu!

- Deve voltar. Tem uma mulher jovem e um filho de dois anos, os homo répteis sobrevivem em lugares áridos, conseguem entrar nas camadas da terra para extrair água, e não perdem a consciência de que são seres humanos com vasta experiência no campo da vida. É provável que no futuro só existam eles como os herdeiros mais próximos da natureza humana.

- O que fazemos agora?

- Não há nada a fazer.

- Não sou homem de ficar parado.

"Só nos resta esperar."

- Esperar o legado da seca?

- Legado das guerras por água.

"É melhor galopar sobre as pedras quentes do que carregá-las sobre os ombros".

Em seguida, os três homens começaram a mutação, espantosa sensação de cozimento, a cabeça borbulha, a percepção apreende ausência de dor e o desdobrar da forma corpórea: como se algo no centro do corpo se estendesse. Agora com todos os poros da pele em respiração ofegante, cada um deles, sente a peculiaridade do sangue frio e o resfriamento solidificar a experiência do homo réptil, precipitado no deslocamento que o lança como um projétil perfurante no sal da terra.

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