A Garganta da Serpente
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Aula de robótica

(Prof. Jonatas Turcato Syrayama)

O relógio holográfico marcou sete horas da manhã. Uma suave música eletrônica começou a tocar preenchendo todo o ambiente. No quarto o som também pode ser ouvido. A câmara de repouso abriu-se lentamente e um magro rapaz colocou os pés descalços no chão. Seus olhos piscavam lentamente e sua cara estava amarrotada. Uma tela holográfica surgiu flutuando a um metro e meio do chão como se fosse uma janela em pleno ar. Uma mulher apareceu na tela:

- Zhed? Você já acordou meu filho? Não vá perder mais uma vez a hora de ir para a escola. Você já perdeu a hora três vezes só esse mês. Eu tenho que te acordar todo dia e te lembrar? Depois dizem que eu sou uma mãe ausente...

- Tá bom, tá bom. Já to indo escaneando o esquema... Já iniciei...

- E pare de falar nessas gírias idiotas. Lembre-se: eu estarei no fim de semana. O resto está tudo em ordem, então não há necessidade de se preocupar. Mas, qualquer problema liga conecta aqui na empresa, tudo bem querido?

- Ok, ok mãe. Bye.

A projeção fechou-se e o rapaz levantou. Foi até o banheiro, depois foi à cozinha e ingeriu duas cápsulas de "café da manhã", bebeu suco e foi até a sala de estar. Já era quase oito horas. E a aula iria começar. Sentou-se na poltrona principal da sala e iniciou o comando de voz:

- Oito horas da manhã, sala virtual do Colégio Iron Heart. Aula de robótica.

Quando deu o horário marcado, um sinal eletrônico e uma voz sintética avisaram:

- Oito horas da manhã. Iniciando sala de Holo-conferência virtual. Programação padrão. - Em apenas cinco segundos a sala de estar havia se transformado em uma sala de aula virtual. Vinte alunos holo-projetados de suas casas interagiam em holo-ambientes virtuais. A frente um robô de aparência humanóide iria iniciar a aula.

- Bom dia alunos de Iron Heart. Hoje é quarta-feira, 02 de maio do ano de 2229. Sede da Organização Escolar, Steel Coast City. Iniciemos a aula de hoje.

O professor era um robô Orion série 2230. O mais sofisticado do mercado. Seu designe era de traços leves e arrojados. Todo sua estrutura metálica era coberta de uma branca película de plástico metálico. Poucas partes como os braços e as pernas eram cromados, com ditava a nova moda. Um saudosismo aos modelos do século passado. Mas muito mais elegante. Seu rosto era sério e suave. Brancos como todo o resto do corpo. Esse modelo de lecionar era denominado Melquizedeque.

Melquizedeque apontou para uma tela de cristal que mais parecia uma janela e em letras azuis as seguintes palavras surgiram:

"AS TRÊS LEIS DA ROBÓTICA
1 - Um robô não pode ferir um ser humano ou, por omissão,
permitir que um ser humano sofra algum mal.
2 - Um robô deve obedecer às ordens que lhe sejam dadas por
seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens contrariem a
Primeira Lei.
3 - Um Robô deve proteger sua própria existência, desde que tal
proteção não entre em conflito com a Primeira e a Segunda Leis.
MANUAL DE ROBOTICA 56ª Edição,2058 A.D."

Melquizedeque começou em voz suave e firme:

- Essas são as três leis da robótica. Alguém sabe o que significa? Para que servem?

Zhed bocejou. Outros alunos seguiram o exemplo, outros apenas olhavam vidrados... Enfim um rapaz respondeu:

- Meu pai disse que é como se fosse um freio para as ações dos robôs. Como uma coleira.

- Correto. Caro senhor Myers. Talvez eu não tivesse usado as sábias palavras de seu pai com tanta eloquência, porém, se quisermos poupar tempo e irmos direto ao assunto... Podemos colocar dessa forma.

O robô tutor continuou:

No começo do século vinte e três houve o que chamaram de o nascimento da robótica suprema. Cientistas conseguiram elaborar organismos robóticos associados a sofisticados cérebros de inteligência artificial. Todas as nações debruçaram-se sobre tal projeto. Isso resultou num grande avanço no campo da robótica. Porém, com é inerente da sociedade humana, tais projetos foram utilizados pra todos os fins, desde aos mais nobres até os mais baixos e vis: como roubos de corporações e assassinatos de presidentes. É sabido que então houve a guerra Robótica que durou quase 25 nos. Terminou com um grande tratado de paz entre as maiores nações e a criação das três supremas leis da robótica que guiariam os passos robóticos até os dias atuais.

De repente a sala de holo-projeção transformou-se em outros ambientes e os alunos puderam ver as guerras ao vivo como se estivessem dentro delas, depois viram o tratado sendo assinado e por fim viram robô sendo usados para todos os fins em todas as partes do mundo.

- Bom, senhores. Por hoje basta. Espero revê-los em uma semana.

A holo-sala com Melquizedeque e todos os alunos desapareceu. Mais uma vez a sala de estar de Zhed surgiu sóbria e sombria como antes. O rapaz saiu da sala sentindo-se entediado. Foi até a janela da sala e olhou a cidade do alto do 230º andar de seu edifício. Olhou todos os automóveis planando no céu e robô por toda parte trabalhando no trânsito, em obras de construção, em plataformas, aéreas, por toda a cidade. Olhou e viu que não havia pessoas em nenhumas das vias de pedestres que cruzavam os prédios... Também...Com tanta violência nas ruas e os demais riscos, quem sairia de casa? Com todo o conforto de aulas virtuais, trabalhos virtuais e até pais virtuais... Quem sairia de casa?

Zhed olhou para um pequeno e desajeitado robô que soldava uma ponte aérea. Sentiu muita inveja de sua liberdade, de seu andar pelas ruas... De sua falta de humanidade.

Naquele momento, Zhed sentiu-se triste porque queria ser robô.

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