A Garganta da Serpente
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A Louca da boneca

(Juraci Rocha Silva)

Ela é conhecida da população da cidade, quem a vê sensibiliza-se com seus trajes que indicam pobreza. O rosto inchado leva à conclusão de que é alcoólatra. Um misto de nojo e pena passa pelos pensamentos de quem a contempla.

Nos braços leva uma criança, firmemente agarrada e embrulhada em encardidos e fétidos panos. Quando alguém se aproxima e pergunta o nome da criança, ela responde laconicamente que se chama Sìlvia, em outras ocasiões afirma ser Nívia.

É comum encontrá-la nos coletivos da cidade ou nos pontos de espera, aguardando a saída dos ônibus. Ninguém sabe ao certo o seu nome, alguns dizem que seu nome é Cristina, outros afirmam ser Joana, e há os que discordam, assegurando ser Maria, mas todos a conhecem como "A Louca da boneca".

Em um supermercado da região, ela distraidamente colocou a criança num carrinho de supermercado, foi um escândalo. Pois se esquecendo de onde dei xara a pequena, chamava a atenção dos fregueses e funcionários, afirmando que os mesmos haviam raptado sua filha.

Chamado o gerente e acionada a polícia, estavam prestes a ir todos para a delegacia, prestar os devidos esclarecimentos, quando uma senhora de meia-idade trazia o carrinho, com a suposta criança raptada. Um dos policiais, ao pegar a criança desajeitadamente, deixa cair a manta que a cobria, deixando todos perceberem que não era uma criança, mas uma boneca, que a mulher afirmava ser sua filha.

Até os policiais ficaram constrangidos com a inusitada cena e propuseram levar a Louca da boneca a sua residência, o que os deixou muito contrariados, pois o endereço fornecido, rua dos Castelinhos, Bairro das Campinas, não era encontrado, o que os levou a deixá-la no ponto de ônibus mais próximo.

Havia ocasiões em que o motorista ou cobrador do ônibus conhecia a Louca da boneca, e impedia o seu embarque, o que gerava veeme ntes protestos dos demais passageiros. Mas, caso estes soubessem do fuzuê que ela arrumava assim que embarcava, não defenderiam sua permanência no ônibus.

Era hilário, para não dizer trágico. Pois a mulher, que antes parecia muda, tão logo adentrava o carro, dirigia-se ao motorista ou cobrador e reclamava a responsabilidade de pai, que não estava sendo cumprida. Eram ameaçados de serem submetidos a um teste de paternidade ou enfrentarem processo de pensão alimentar. Os pobres trabalhadores eram sobremaneira envergonhados; pois havia quem acreditasse na sandice da pobre mulher e agredia-os verbalmente.

Em certa ocasião, tanto perturbou o motorista, que este tendo sua atenção desviada, acabou por provocar um grave acidente, o que o deixou enfaixado e imobilizado durante muitos dias.

Não raro Maria ou Joana, conforme era chamada, implicava com os homens em suas viagens. O escolhido sempre era alvo de chacota para os demais passage iros, pois ela afirmava que o moço era bonitão e seria um bom marido.

As más línguas garantem que este comportamento assanhado se dá pela necessidade de Cristina arrumar companheiro que, coabitando com ela, a faça mulher e lhe dê um filho, cumprindo seu sonho de ser mãe.

Assim, qualquer dia a Louca da boneca arruma um casamento; pois acredito que as pessoas são como panelas, cada uma com sua tampa. Penso que, ocorrendo isto, os cobradores e motoristas terão um alívio muito grande e as mulheres casadas não correrão riscos de perderem seus responsáveis maridos, que no exercício de seu trabalho defendem o pão cotidiano.

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