A Garganta da Serpente
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Doença maldita

(JRM Torres)

Terça-feira.

Minha desgraça começou nesse dia, quando voltei da selva amazônica. Eu havia ido ao Pico da Neblina (mais um que escalava essa montanha imponente) e passei, depois, quatro dias na região de Maturacá, a alguns quilômetros de uma cidade chamada de São Gabriel da Cachoeira, no extremo norte do país.

Adorei estar naquela região inóspita, selvagem e lotada de animais exóticos.

Agora, eu estava em casa, onde moro sozinho, pronto para um merecido descanso, após quinze dias de aventura.

Oh, eu dormia!

No entanto...

Pensei que estava sonhando, ao sentir que alguma coisa passeava por cima do meu rosto. Pés diminutos, ásperos e incômodos. Um corpo sobre o meu!

Que nojo!

Não acordei. Tentei afastar aquela entidade com a mão direita.

Talvez eu tenha tocado em algo!

O certo é que os pés ásperos sumiram.

***

Quarta-feira.

Um dia cheio, em que dei entrevistas, malhei e voltei ao meu trabalho como publicitário.

Depois, eu dormia no meu quarto suntuoso.

E aí...

Novamente alguma coisa em meu rosto.

Os malditos e chatos pés! Seriam mesmo pés? Ou não?

Mas eu não conseguia acordar! Não conseguia abrir os olhos!

Com a mão direita afastei a criatura.

Voltei a dormir com tranquilidade.

***

Quinta-feira.

Um dia comum. Trabalhei, malhei, fui ao shopping e combinei de ir, com amigos, a um clube, sábado, para me divertir um pouco.

À noite, pensei naqueles malditos pés.

Antes de deitar, eu havia efetuado uma busca pelo quarto. Não sei o que esperava encontrar. Talvez um bicho esquisito e mongolóide? Com certeza não.

Nada encontrei e pude continuar com meu sono.

Duas horas depois, os pés diminutos apareceram.

Horríveis! Indecentes! Nauseabundos!

Passeavam maliciosamente por sobre meu rosto.

Tentei acordar... sem sucesso.

O que estava acontecendo?

Mais uma vez minha mão direita agiu, livrando-me da criatura.

Seria um animal?

***

Sexta-feira.

Fui picado no rosto!

Doeu, mas não pude acordar.

Os pés diminutos, um ferrão, o ardor antipático.

Minha mão direita afastou a criatura.

Dormi mal.

Tive pesadelos com baratas, besouros, ratos, escorpiões, centopeias e minhocas. Todos em cima do meu rosto, me devorando vivo! Eu gritava de dor!

Acordei, sobressaltado, pálido e em pânico.

Por quê? O estaria acontecendo comigo?

Terei que fazer alguma coisa.

***

Sábado.

Adoeci, logo pela manhã, antes de iniciar minha corrida.

Começou com uma febre, que foi aumentando... aumentando...

Eu tossia e cheguei a vomitar duas vezes.

Uma dor de cabeça enjoada!

Uma ferida no rosto! Uma horripilante ferida surgiu no meu rosto!

Desesperado, fraco e sem forças, fui parar no hospital.

A ferida tinha um centímetro de diâmetro.

E estava crescendo gradativamente.

***

Domingo.

Alguns amigos e colegas de trabalho me visitaram. Deram-me apoio e deixaram flores e livros. Gostei das visitas.

Febre... dor de cabeça... vômitos....

A ferida! A ferida! Dois centímetros! Ardia muito!

Estou delirando, preso na porra desse hospital!

Meu Deus!

***

Segunda-feira.

Ainda doente, tentei dormir.

A febre diminuiu, mas a ferida estava lá, cada vez maior.

Ferida asquerosa, com fluidos de pus...Ardia pra cacete! Merda!

Os médicos aplicavam injeções. Eu tomava comprimidos amarelos. Um líquido estranho (seria iodo? - não perguntei) foi passado sobre a ferida. Não contei pra eles sobre a criatura que passeava sobre meu rosto. Eles não iriam acreditar mesmo.

Os pés diminutos! No meu rosto!

Mesmo sem abrir os olhos, meti a mão e o peguei.

Havia alguma coisa na minha mão. Fazia movimentos frenéticos, como se quisesse fugir. Com ódio, esmaguei-a, ao fechar a mão.

- Morra, maldita! - lembro que gritei.

Abri a mão, em seguida, e a criatura caiu no chão, em fragmentos esbagaçados.

O que seria?

***

Terça-feira.

Dois amigos vieram me visitar, durante o dia, e ficaram horrorizados com meu estado. Mesmo assim, me deram força para lutar contra esse mal misterioso.

Aproveitei para fazer um pedido inusitado: caderno e caneta. Eles estranharam, mas prometeram trazer.

Agradeci.

Depois, à noite, mais sofrimento.

Febre! Minha cabeça latejava! Estou fraco... fraco...

Havia um curativo sobre meu rosto, em cima da ferida.

Tentei mostrar a criatura para os médicos.

Mas... não havia nada em lugar algum daquele quarto! Nada, nada. Merda! Como é possível? Como, meu Deus?

Teria eu imaginado aquilo?

Estaria ficando louco?!?

Minha respiração! Como está difícil respirar, falar, viver!

Não dormi, embora fechasse os olhos.

***

Quarta-feira.

Estou morrendo...

Tenho diarreia. Já vomitei sangue. Emagreci.

Meus amigos trouxeram o caderno e a caneta e agora estou escrevendo minhas angústias. Estou relatando tudo, para que sirva de alerta, caso novos casos ocorram. Algo de macabro está acontecendo na selva amazônica, principalmente na região de Maturacá. Aquela área deve ser investigada.

Escrevo... com dificuldades...

Não consegui esquecer a criatura se mexendo na minha mão, a forma como a matei. Mas... para onde foi? Não teria morrido?

Os médicos estão fazendo de tudo para salvar minha vida. De tudo!

Fui transferido para outro hospital, especializado em doenças tropicais.

Um deles disse que minha doença tem algo a ver com os dias em que passei na selva amazônica. Porém, não puderam diagnosticar precisamente de que mal fui vitimado.

Exames (de sangue, urina, fezes, etc) estão sendo realizados.

***

Quinta-feira.

Dor de cabeça!

Alguns amigos e colegas de trabalho tentaram me visitar, mas foram proibidos de entrar no meu quarto. Eu estava incomunicável.

Tentei lembrar de ter sido picado por algum inseto, enquanto estava na selva, mas nada me veio à memória.

A não ser aquele índio Yanomami, de quarenta e poucos anos, que havia contraído uma espécie rara e mortífera de malária, numa das aldeias de Maturacá.

O índio estava deitado na rede. Pálido, magro e soltava gritos de agonia.

Acompanhei o sofrimento dele por quatro dias, até vê-lo morrer.

Uma morte pavorosa!

Ele tinha visões de insetos, de monstros e apontava para o canto da casa.

Gritava muito, no seu dialeto. Os familiares, em desespero, lhe davam chás.

O médico de nossa equipe não soube o que fazer, pois não tinha remédio apropriado para aquela doença estranha.

O índio morreu magro, em convulsões terríveis!

Custei para tirar aquela imagem da cabeça.

E soube que outras mortes aconteceram, nos últimos meses. Seria um surto?

Nos perguntamos se aquela doença seria mesmo malária.

E agora... eu me pergunto: estarei desenvolvendo os mesmos sintomas? Será?

Tenho pesadelos!

Nessa noite, sonhei que uma horrenda barata gigante e negra me picava.

Aqueles olhos! Aqueles olhos sinistros!

Havia mosquitos por toda a parte. Mosquitos nojentos! Todos me devoravam!

Gritei de dor e medo.

***

Sexta-feira.

Atualizei o caderno. Os médicos o viram, mas não ousaram ler o que ali estava escrito. Ótimo.

Passo os dias sofrendo e escrevendo.

Minha ferida estava enorme! Seis centímetros de diâmetro! Meu Deus!

Uma ferida horrível! O pus era visível, quando os médicos trocaram o curativo.

Minha respiração! Febre! Dores pelo corpo! Diarreia!

Eu estava pesando cinquenta quilos. Magro! Excessivamente magro!

Rosto cadavérico, com sulcos profundos nos olhos! Eu estava me transformando numa espécie de zumbi. Entrei em pânico.

O quarto estava infestado de insetos!

Vários deles andavam por sobre meu rosto.

Besouros... moscas... mosquitos... baratas! Horripilantes... picando...

destruindo...

Nããããoooooo!!!!

Gritei.

***

Sábado.

Estou isolado dos demais pacientes. Os médicos ainda não descobriram que doença eu tenho. Eles se aproximam com máscaras, luvas e roupas especiais.

Minhas dores estão insuportáveis.

Eu passo os dias chorando... escrevendo... aguentando as dores...

Lembrei de minha mãe, já falecida. Sinto falta dela, que poderia estar aqui comigo, me dando forças. Onde estás, mamãe? Não tenho irmãos... não tenho esposa.... filhos... não tenho ninguém... uma ignóbil depressão sufoca meu peito...

Só. Absolutamente só!

Estou magro, parecendo um monstro...

A ferida já toma quase a metade do meu rosto...

Apenas a morfina ameniza meu sofrimento...

***

Domingo.

Não consigo respirar! Meu Deus! Estou morrendo!

As dores! Não consigo suportá-las!

Lembrei do índio agonizando. Pálido! Magro! Com visões! Os mesmos sintomas... doença rara... por quê?

Por que eu?

Detesto o cheiro do quarto desse hospital! Essas paredes... são cruéis...

A escuridão me cerca! Trevas! Caos! Desespero!

Não... consigo...

E continuo escrevendo... escrevendo... ou tentando... mesmo sem forças... até que...

Amo você, mamãe! Meu Deus! Meu Deus!

Não! Não tenho mais forças para escrever.

Vou deixar o caderno em cima da mesa.

***

Segunda-feira.

A enfermeira ouviu os gritos e chamou os médicos.

Ela e dois médicos entraram no quarto, às pressas.

E o que viram...

***

Nos jornais, a manchete:

"Publicitário e alpinista morre em São Paulo"

"Lucas Kriter Malcom, 32 anos, solteiro, morreu ontem, vitimado por uma doença misteriosa, uma mistura de malária (daí os vômitos) e leshimaniose (por causa da ferida no rosto). Os médicos acreditam que tenha sido picado por vários tipos de insetos, durante sua permanência na selva amazônica, onde escalou recentemente o Pico da Neblina. Os especialistas em doença tropicais farão mais exames no corpo, para definir a doença exata que o acometeu. E não podemos deixar de registrar um fato estranho, que ocorreu poucos minutos antes de sua morte. Os médicos entraram no quarto, após ouvirem gritos, e se depararam com uma cena bizarra. Lucas, trêmulo, os olhos arregalados, demonstrando terror extremo, sentado na cama, apontava para um dos cantos do quarto e gritava: "Ali! Ali! A barata! A barata que me picou! Ali! Ali!". Logo em seguida entrou em convulsão e morreu. Porém, não havia nenhuma barata no quarto. Os médicos acreditam que ele entrou em delírio, devido ao seu estado físico. O morto, que era órfão, não deixou filhos. Na verdade, deixou um caderno, onde relatou os seus momentos de sofrimento. Com base nas informações contidas no caderno, uma equipe médica irá percorrer a região de Maturacá, para verificar se há mesmo algo de errado acontecendo ali. Para finalizar, ficamos com a pergunta: que segredos se escondem na selva amazônica? Teria o Lucas morrido de uma doença nova, tão fatal quanto o Ebola? Esperamos que não. E rezaremos por sua alma."

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