A Garganta da Serpente
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Vil metal

(José Rubens Jr.)

Todo dia, no chuveiro, era aquela lenta agonia, sufocada pelo chiar da água quente nas suas costas, pela vibração rítmica dos músculos. Suava bastante, até que, por fim, alcançava o planalto da satisfação, o clímax. Já estava inquieto, pois a puberdade já atingia o paroxismo e sua agonia diária no chuveiro não dava sinais de se arrefecer. Os amigos, que já tinham tido experiências reais, o espicaçavam: contavam-lhe detalhes, enriqueciam sua imaginação com a descrição de corpos nus na sofreguidão de lençóis imundos, de gemidos abafados, de líquido leitoso esparramado por entre coxas lisas e macias.

Não suportando mais este estado de coisas, armou-se de coragem e de um punhado de dinheiro: não seria mais o chuveiro - com os pingos quentes e irregulares - que lhe garantiria a paz de espírito de que necessitava. Tomou um longo e silencioso banho, procurando afastar de seus pensamentos quaisquer possibilidades de um regresso àquele suplício solitário no banheiro. Sim, doravante sentiria apenas o calor de um corpo feminino, o leve e suave roçar de pernas, a arquitetura aconchegante e macia de um seio; não apaziguaria mais seus nervos naquele frêmito solitário de vários anos.

Oitos horas da noite. É o primeiro cliente a chegar. O grande salão está quase deserto, iluminado apenas pelo pálido reflexo da luz vermelha que balança solitária no alpendre. No velho aparelho toca um bolero miserável. Seus lentos passos ressoam como se caminhasse num claustro. O olhar perpassa todo ambiente, indo encontrar, ao fundo da sala, recostada numa poltrona, uma jovem, cuja aparência esguia e delicada o fez se aproximar. Sua muda solicitude o inquieta, faz tremer seu coração, deixando-o em estado de grande excitação. Inicia-se um incipiente diálogo, intercalado por leve roçar de mãos: enfim, tudo acertado.

O subir das escadas parece interminável, infinito. A velha madeira suporta com lamúrias o lento caminhar. Ela vai à frente. Suas mãos, frias, denunciam amadorismo. O corpo - ainda rígido, cintura delgada, nádegas beligerantes, seios petulantes e rebeldes - parece improvável. Passam pela porta do banheiro. Está aberta. Ele não consegue desviar o olhar: o maldito chuveiro! Adentram ao quarto. A chave é jogada num canto. Seus corpos, trêmulos, nus, se aproximam; carícias são timidamente trocadas. Por um breve instante agonizam na solidão da troca de um olhar; olhar que termina com um longo e ardente beijo, prólogo do gozo daqueles corpos, que se fundem violentamente na pequena cama.

Ofegante, com a alma leve, treme de amor por aquela jovem que o iniciara, que o afastara momentaneamente daquele suplício diário no chuveiro. Ela não lhe cobrou nada, apenas a quantia da Gerente da casa. Ainda deu-lhe de recordação, como prova de seu afeto, para que voltasse mais vezes, um brinco, com uma longa e fina haste de metal. Não lhe deu o par - a outra peça seria dada quando retornasse.

Ao chegar em casa, sentiu a necessidade premente de tomar um banho. "Sim, só um banho, pra me vingar daquela maldita vida de antes!" Girou a torneira e sentiu na pele pingos quentes, irregulares, a lhe queimar as costas. O conformismo já dominava seu ânimo, mas logo se lembrou do presente que havia recebido. O brinco! Nu, com a água quente escorrendo pela mão, foi introduzindo nervosamente a haste do brinco nos orifícios entupidos. De repente, após forçar uma passagem, a haste encontrou um metal, fazendo-o sentir uma grande vibração. Um facho de luz percorreu sua visão, iluminando tudo, retesando seu corpo, triturando-lhe todos os músculos. Num segundo, a imagem do sorriso da jovem que acabara de amar percorreu mais de mil vezes sua mente. Depois, tudo foi se apagando, lentamente...

O corpo, rígido, contraído no pequeno banheiro, só foi encontrado horas depois, com o brinco entre os dedos esturricados - e com a água quente a lhe queimar a pele.

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  • Publicado em: 10/02/2006
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