A Garganta da Serpente
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O Jogo da Verdade

(Josie Mendonça )

Eles vagavam pela madrugada, volta e meia olhavam o insípido céu da meia-noite, enquanto eram apaziguados pela escuridão da rua triste e vazia de gente. Ouviam o estranho gemidos de gatos no cio e por mais que procurassem os tais bichanos, não conseguiam encontrá-los, os bichos pareciam se esconder para terem mais privacidade. Alguns carros passavam raspando pelo astato. Os três ali na rua, a vagar, se sentiam livres e desimpedidos. Caio, Paulo e Isabel, andando por andar, para esfriar a cabeça, ver o tempo passar e nada fazer naquele momento, parecia algo banal, mas era tão relaxante, tão aprazível que a banalidade estava valendo a pena. Por que ser tão sério? Tão regrado? Tão rigoroso? Se isso era tão chato! Mais vale uma loucura feliz do que uma seriedade triste, pelo menos era assim que os três pensavam naquele momento. Pra que ter medo de ser ridículo? Às vezes é bom ser ridículo e para Caio, Paulo e Isabel aquele momento de loucura estava valendo a pena. Abraçados os três conversavam e riam, uma conversa fútil e banal, riam de tudo, riam de sua própria desgraça, riam de tudo que haviam feito, riam deles mesmo. Parecia tão algo tão insignificante! Mas era tão gostoso! Rir de qualquer coisa. Uma mulher abraçada a dois homens. As poucas pessoas que passavam e viam estranhavam, mas eles nem se importavam, já tinham bebido um pouco e a festa tinha sido boa. Caio, 24 anos de idade, era um cara durão, tinha pavio curto. No trabalho era contestador e crítico mas costumava ser amigável nos momentos lúdicos da vida com os amigos. Rapaz moreno, cabelos negros e lisos, estatura média e físico bem trabalhado, gostava de praticar esportes. Paulo, 29 anos, fumante inveterado, introvertido e intelectualizado, gost ava de ler enquanto fumava e bebia um conhaque, era de sorrir pouco, também de pouca conversa. Alto e magro, pele muito branca, não gostava de pegar Sol, seus cabelos eram ondulados e desalinhados, tinha olhos castanhos e usava óculos, era míope. Era também escritor e tinha cerca de oito livros já publicados. Isabel, 25 anos, era do tipo que falava pelos cotovelos, costumava rir alto e era extremamente vaidosa. Tinha cabelos lisos e loiros, na verdade castanhos, mas descoloridos por luzes. Tinha pele branca, mas levemente bronzeada, olhos verdes. Como Paulo, também era fumante inveterada. Usava esmaltes vermelhos nas unhas, muitos anéis e pulseiras, sandálias de salto. Costumava também usar vestidos e calças justas. Os três eram jornalistas e trabalhavam juntos.
Continuavam a caminhar pela escuridão da noite, mais carros passavam, já fazia frio, ventava, algumas pessoas cruzavam o caminho deles. Resolveram parar para acender um cigarro, menos Caio, que não fumava há um ano e meio, mas não se importavam que os amigos fumassem perto dele. Os três sentaram num quiosque de uma pracinha próxima dali, em outros quiosques haviam grupos de adolescentes e casais de namorados.
- Nossa!Preciso parar de fumar, mas quem disse que consigo! - Disse Isabel.
- Já tem um ano e meio que não fumo. - Disse Caio. - Foi difícil parar. Paulo, e seu livro?
- Já terminei de escrever e vou publicar.
- Eu já li "Um céu para todos", aquele seu livro de crônicas.
- Ah sim, esse livro estava na Bienal do ano passado.
- Eu li "Conflitos Urbanos e um Fulano" de contos que se passavam na cidade de São Paulo. - Comentou Isabel se referindo a outro livro escrito por Paulo.
- Esse livro não foi pra Bienal. - Lamentou-se Paulo.
- Tá aí, vou escrever um livro. - Disse Isabel.

Caio riu.
- E você lá tem ideias pra escrever alguma coisa! - Brincou Caio com certo sarcasmo.
- Esqueceu que sou redatora do jornal?
- Mas escrever uma matéria para um jornal é uma coisa, escrever um livro, são outros quinhentos.
- Não liga pra ele não, meu anjo, escreve seu livro! - Incentivou Paulo.
- Vou escrever contos eróticos. - Revelou Isabel.
- Hummmm! - Entusiasmaram-se Caio e Paulo.
- Puxa, vou gozar antes de terminar de ler. - Brincou Caio.

Os três riram.

- Ué, você vai querer leu meu livro? Não acabou de dizer que eu não tenho ideias? - Questionou Isabel.
- Mas se tratando de sexo, você tem ideias de sobra. - Revelou Caio.
- E você? Não pensa em sexo também?
- Claro que penso.
- Então? O que tem de errado eu pensar? No que somos diferentes afinal?
- Ah, você é mulher!
- Ah não! Machismo pra cima de mim não! Você é jornalista, um cara esclarecido, não deveria mais pensar assim.
- Concordo plenamente com a Isabel, sou homem mais sou contra o machismo e a misoginia. - Apoiou Paulo.
- Tudo bem, não está mais aqui quem falou. - Rendeu-se Caio.

Paulo e Isabel ainda fumavam bastante, o ar se impregnava com o cheiro de cigarro. Caio começou a se sentir incomodado.

- Pô! Vocês também! Por que não param de fumar!
- Ah Caio! Não vem com essa não, que você já foi fumante e nunca se preocupou se tava incomodando ou não, quem tava perto de você. - Disse Isabel.
- Agora ele é um ex-fumante. - Ironizou Paulo.
- De jeito nenhum! Sou um não fumante. - Respondeu Caio incomodado não só com a fumaça, mas também com os comentários.
- Ex-fumante ou não fumante você se tornou um tremendo de um chato! - Irritou-se Isabel.

Caio deu risada.

- Além de ex-fumante, sou ex-viciado também. - Revelou o rapaz.
- Ex-viciado? - Intrigou-se Paulo.
- Já fui dependente químico gente! Viciado em drogas.
- Não precisa de tantas explicações, nós já entendemos. - Disse Isabel.
- Não, continua! - Pediu Paulo. - Agora eu fiquei curioso.
- Comecei fumando maconha e bebendo muito na pré-adolescência. Depois passei a cheirar farinha.
- Farinha? - Intrigou-se Paulo.
- Pó, farinha, cocaína...
- Já entendemos. - Interrompeu Isabel. - Não precisa entrar em detalhes.
- Não, continua! - Insistiu Paulo.
- Fiz muita loucura, muita bobagem na vida por causa de droga.
- Que tipo de bobagem?
- Roubava meus pais, meus irmãos, já assaltei...
- Você já fez um assalto?- Assustou-se Isabel e interrompeu o colega.
- Ué, você disse que não queria saber de detalhes.
- Não pode falar! - Interessou-se a jovem.
- Um assalto não, vários. E o dinheiro dos roubos parecia sumir que nem vapor, não durava nada na minha mão.

Paulo e Isabel ficaram surpresos com a revelação do colega, jamais imaginaram que Caio tivesse passado por situações daquele tipo, eles mesmos jamais passaram e não faziam a menor ideia do que era viver daquela maneira. Caio agora estava sendo visto com outros olhos. As piadas cessaram, pois naquele momento o assunto era sério.

- Quase matei um policial e tive que fugir dele depois. - Continuou Caio.
- Você chegou a ser preso? - Perguntou Paulo.
- Não. Mas era como se eu estivesse, antes tivesse sido preso a ter que fugir de alguém que está te ameaçando de morte.

Um silêncio tomou conta daquele lugar. Caio, o típico rapaz de classe média, que teve de tudo e se meteu em encrencas. Os três se conheciam há pouco tempo e não sabiam muito da vida um do outro. Mas parecia que aquele era o momento de se quebrar o silêncio e falar de si mesmo.

- Foi a partir daí que decidi largar o vício, meus pais me internaram em uma clínica para dependentes químicos, frequentei grupos de autoajuda e hoje eu tô limpo, quero andar certo.

Enquanto Caio queria ser correto, Paulo já estava cansado de ser daquele jeito, tão politicamente correto. Chegou a sentir-se incomodado com a frase "Quero andar certo." Mas como dizer aquilo sem parecer antiético ou ser visto como um canalha?

- Eu também já fiz minhas loucuras. - Revelou Isabel. - Não fui de usar drogas pesadas, o máximo que fiz foi fumar maconha, mas sempre bebi demais, ia pra festas com amigos e voltava bêbada pra casa. Eu e minha mãe nunca nos demos bem. - A voz da moça embargou, ia chorar. - A gente sempre brigava, se desrespeitava. Eu via as mães carinhosas das minhas amigas e aquilo me machucava tanto! Depois que meu pai faleceu a gente teve uma briga feia por que eu tinha roubado uma grana dela, foi aí que ela me botou pra fora de casa, fui morar com meus avós lá no sul de Minas, foi nesse período que eu entrei pra faculdade.

- E a sua relação com a sua mãe? Como é hoje? - Interessou-se Paulo.
- A gente se fala pouco.

Os três entreolharam-se.

- Só falta você Paulo. - Disse Isabel.
- Só falta eu o que? - Paulo deu uma de João sem braço.
- Falar da sua vida.

Paulo acendeu mais um cigarro, tragou e soltou a fumaça.

- Deixa pra uma outra oportunidade! - Pediu ele constrangido.
- Nada disso, a gente quer que você fale agora! - Cobrou Isabel.
- Fala aí cara! Pra que esconder o jogo? Eu e a Isa já falamos só falta você! - Cobrou Paulo.
- É uma forma da gente se conhecer melhor.

Mais uma tragada, Paulo resolveu falar.

- Eu sempre fui caladão, na minha, era sempre o quieto do grupo, o certinho. Meus dois irmãos sempre falantes, pediam sempre as coisas pros meus pais e eu, como não sabia pedir, ganhava poucos presentes. Meus pais se separaram e como eu era o mais velho, minha mãe sempre me encarregava de tomar conta do meu irmão e da minha irmã. Quando eu e meu irmão ganhávamos carrinhos, ele sempre queria o mais bonito, e eu como era mais velho, tinha que ceder pra ele. Tinha que ser o filho responsável, que abria mão para o irmão menor, ser o bonzinho e o certinho, por que minha mãe me cobrava isso o tempo todo. Passei a vida toda carregando essa cruz! - Lamentou o rapaz. - Na minha adolescência comecei a me interessar por meninos. Tive uma namorada e com vinte e dois anos tive meu primeiro relacionamento com homem.

Caio e Isabel ficaram surpresos com a revelação de Paulo. Nunca desconfiaram de sua orientação sexual, já que Paulo era discreto e fugia totalmente aos estereótipos gays.

- E a sua família sabia? - Indagou Caio.
- Minha mãe sempre desconfiou. Meu namoro com mulher foi praticamente por conveniência, ficamos juntos quase um ano.
- Chegaram a transar?- Quis saber Isabel?
- Sim.
- E como você contou pra sua família?
- Meu namorado passou a frequentar a minha casa e minha mãe me encostou na parede, aí eu disse que era homossexual e que ele era meu namorado. No começo ela ficou chocada, mas depois ela foi aceitando. Meus irmãos sempre souberam e nunca me discriminaram, meu pai soube por último, não toca no assunto, mas me respeita.
- Eu já transei com uma mulher. - Revelou Isabel. - Uma vez só, não gostei muito, meu negócio é homem mesmo.
- Cara, depois dessa tô quase fumando um cigarro. - Brincou Caio passando a mão no rosto.

Os três riram.

- Você é tão discreto, foge dos estereótipos completamente. - Comentou Isabel.
- Você já foi naquela Parada Gay? - Quis saber Caio.
- Aquela da Paulista? Já sim, com meu ex-namorado e outras vezes com dois amigos meus. Vou a boates gls também.
- Nunca fui nesses lugares.
- Eu já. - Disse Isabel.

Já eram uma e quarenta da manhã, havia um pub bem frequentado, Caio, Isabel e Paulo resolveram tomar um táxi e ir até lá. No caminho, os três riam e falavam bobagens, até o taxista entrou na conversa e se divertiu também.
O pub estava lotado, os três jornalistas tiveram dificuldade de encontrar uma mesa vazia, mas para a surpresa deles encontraram Jorge, Raquel e Júlia, também do jornal, juntaram-se a eles. O ambiente era estilo pub britânico, tocava rock alternativo, uma banda nacional e pouco conhecida. Todos pediram bebida, bebiam, fumavam e riam. Á medida que o tempo ia passando, a turma ia ficando mais bêbada e mais sincera, Jorge começou a falar de suas aventuras sexuais no tempo em que era solteiro.
- Já vi esse filme. - Comentou Isabel.
- Eu é que não vou repetir tudo de novo. - Brincou Paulo.

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