A Garganta da Serpente

Jack London

John Griffith Chaney
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Natal na terra das neves

(Jack London)

Era noite de Natal, e por isso, fazendo questão de festejar a data sagrada, Mamelute Kid estava preparando um ponche forte, com uísque e gim. Jim Belden, que por causa dessa noite viera de seu clã, onde havia dois meses não comia senão carne de alce, acompanhava seus movimentos com olhar extático. Como bebida, só tivera durante esse tempo açúcar diluído e fermentado. Imagine-se então com que ansiedade esperava o ponche.

Os outros, em volta, falavam de viagens e aventuras naquela região, isto é, falavam de frio, fome, sofrimento, morte... E cada um, falando do que vira ou sofrera, dilatava as pupilas, sonhando com as terras do sul, onde havia sol, relva, flores, luz... Eram oito, todos de nacionalidades diferentes, exceto Mamelute e o padre Robeau, que eram canadenses. Mas a vida rude daquela região mineira eternamente gelada os irmanara.

Quando os efeitos do ponche começaram a se fazer sentir, cada qual fez um brinde diferente: à Sua Graciosa Majestade, ao Czar de todas as Rússias, à República... ao Pavilhão das Estrelas.

Então Mamelute se ergueu e disse gravemente:

- Feliz Natal ao homem que anda esta noite pela pista! Que seus cães conservem seu vigor, que os alimentos lhe sejam suficientes e que seus fósforos não falhem!

Como resposta a esse brinde, ouviu-se lá fora o estalar de um chicote, uivos de cães e o rangido de um trenó que se aproximava da cabana.

A conversa cessou, e todos esperaram em silêncio. Depois alguns murmuraram:

- É um dos antigos. Está tratando dos cães antes de cuidar de si mesmo.

Os ouvidos experientes dos que estavam ali distinguiam nitidamente os latidos de seus próprios cães, que o recém-chegado repelia para dar de comer somente aos seus.

Depois bateram à porta, e, quando o padre abriu, um vulto entrou e se deteve logo, deslumbrado pela lâmpada.

Era um belo tipo de homem, e, a despeito do gelo que havia em suas sobrancelhas, via-se bem que era moço e singularmente robusto.

Além de um facão e dois revólveres em seu cinto, usava uma carabina juntamente com o chicote, sob o braço esquerdo. Deu alguns passos, e todos notaram que sua fadiga era esmagadora e total. Indicaram-lhe um lugar à mesa e puseram um copo de ponche diante dele. Mas ninguém lhe indagou sequer o nome.

Foi o homem quem perguntou:

- Há quanto tempo passou por aqui um trenó em forma de cesta, com três homens e oito cães?

- Há dois dias. Está atrás deles?

- Sim. Aquela atrelagem me pertence. Mas já ganhei dois dias sobre ela, e espero apanhá-la na próxima etapa.

- Quando partiu de Dansou?

- Ao meio-dia.

- Ontem, naturalmente.

- Não, hoje.

Era meia-noite. Um murmúrio de admiração ergueu-se do grupo. Percorrer cento e vinte quilômetros pela pista áspera do rio em doze horas era espantoso!

Mas os vapores do ponche já iam se dissipando naquelas cabeças resistentes, e, enquanto o viajante devorava uma refeição rústica, a conversa continuou sobre os assuntos habituais.

Depois, desviou-se enternecida para coisas de família, e cada qual falou nos entes queridos, que tinha ou perdera.

- E você? ... Também é casado? - perguntou Belden ao desconhecido.

Como única resposta, o viajante separou seu relógio da corrente que o prendia ao cinto e, abrindo-o, passou-o a Belden.

Este aproximou-se da lâmpada e, examinando a tampa do relógio por dentro, deixou escapar uma praga de admiração.

E passou o relógio a Louis Savoy. Este, depois de admirá-lo também, com olhos extáticos, passou-o a Prince, cujo rosto tomou logo uma expressão de enternecimento.

0 que havia ali era o retrato de uma mulher, ainda moça e bonita, apertando contra o peito uma robusta criança, que devia ter seis meses e sorria.

Aqueles homens, que viviam isolados do mundo, suportando fome, frio, escorbuto e arriscados à morte súbita na terra ou na água, não podiam ver sem emoção a imagem de uma mulher e uma criança, porque essas duas figuras evocavam em seu espírito o lar, a felicidade de uma vida confortável.

O viajante explicou:

- O garoto deve estar com dois anos, e eu ainda não o vi.

Fitou por sua vez a fotografia, depois bateu bruscamente a tampa do relógio, mas não tão depressa que os outros não vissem lágrimas em seus olhos. Ergueu-se com um profundo suspiro, e Mamelute guiou-o para o mais próximo dos leitos presos à parede.

- Acorde-me às quatro horas em ponto. Não se esqueça. As quatro horas - pediu o homem.

Sua fadiga era tal que, apenas pronunciou essas palavras, adormeceu.

- Que camarada resistente! - exclamou Prince. Três horas de sono, depois de uma corrida de cento e vinte quilômetros com os cães, e logo retoma a pista... É um homem! Você o conhece? ...

- Sim. É Jack Westondale. Veio para esta região há uns três anos. É conhecido por trabalhar como um cavalo e não ter tido sorte, até hoje.

- É triste... um rapagão desses, com uma esposa tão bonita, ter de vir se meter por anos e anos neste deserto.

- E, coitado... por duas vezes já fez fortuna, mas perdeu-a - concluiu Mamelute.

A palestra desviou-se para outros casos de enriquecimento e miséria. Mamelute não tomou mais parte nela. Parecia inquieto. De instante a instante, lançava um olhar ao relógio.

De súbito, pôs na cabeça o barrete de castor, calçou as luvas e, saindo da cabana, foi rebuscar em seu depósito.

Quando voltou, ainda faltavam quinze minutos para as quatro; mas, não podendo conter a impaciência, foi sacudir Jack.

O rapaz despertou tão anquilosado que foi preciso friccionar-lhe vigorosamente todo o corpo para que pudesse ficar de pé e caminhar. Mas quando saiu da cabana, teve a boa surpresa de encontrar os cães atrelados e tudo pronto para a partida.

Todos lhe desejaram boa viagem; o padre abençoou-o, mas ninguém passou da porta, porque era perigoso afrontar uma temperatura daquelas com as mãos e as orelhas descobertas. Mamelute, porém, abrigou-se e acompanhou-o até a pista principal. Chegando ali, apertou vigorosamente a mão de Jack e lhe disse:

- Há quarenta e cinco quilos de ovas de salmão no trenó. Isso dará mais vigor aos, seus cães do que setenta quilos de peixe. Tomei essa providência porque provavelmente você não poderá renovar as provisões em Pelly.

Jack estremeceu, mas limitou-se a fitar atentamente o outro, sem uma palavra.

Mamelute continuou:

- Você não poderá obter nada antes de Five Fingers. Desconfie da água livre e vá pelo atalho que passa acima do lago Le Barge.

- Mas como você pôde adivinhar? - perguntou Jack. - É impossível que a notícia tenha chegado antes de mim.

- Eu não sei de nada... nem quero saber. Mas o trenó atrás do qual você anda nunca lhe pertenceu. Sitka Charley vendeu-o na primavera passada. Ele me falou de você como um homem leal, e estou certo de que de fato o é. Raramente me engano, e é bastante olhar para os seus olhos para saber que você é um homem de bem. Vá. Não perca tempo... vá se encontrar com sua mulher e seu filho. Não... não precisa me agradecer - concluiu Mamelute, vendo lágrimas se gelarem sobre as faces de Jack. - Não perca um minuto. Se algum cão cair, corte as correias e abandone-o. Poderá comprar outros em Five Fingers e Hostarhigua. Não hesite em pagar até dez dólares cada um.

Tinham-se passado apenas quinze minutos, quando o som de guizos anunciou um novo viajante. Dessa vez era um tenente da Polícia Montada, acompanhado por dois mestiços, encarregados dos cães. Como Jack vinham armados até os dentes, mas o tenente, ainda pouco habituado à pista, estava evidentemente extenuado. Somente o amor-próprio e a tenacidade peculiar à sua raça lhe permitiam manter-se de pé.

- Jack Westondale passou por aqui, não é verdade? - perguntou ele.

A indagação era inútil porque os vestígios de sua passagem ainda estavam muito visíveis na neve.

Mamelute piscou um olho para os companheiros, e Belden, a quem o tenente se dirigia, limitou-se a fazer um gesto evasivo.

- Responda - insistiu o tenente. - Ele roubou quarenta mil dólares de Henry MacFarland e trocou-os no P. B. Steel por um cheque contra Scottle. Preciso alcançá-lo para que não o receba.

Todos se mantiveram em silêncio. Mamelute era o chefe, todos confiavam em sua experiência, e seu sinal fora o bastante para ditar sua conduta.

O policial, impaciente, dirigiu-se ao padre, que, sendo sacerdote, não podia mentir.

- Há quanto tempo partiu?

- Há um quarto de hora, depois de ter dormido umas três horas.

O tenente desesperou-se:

- Um quarto de hora de avanço... e descansou! Maldição! Mas vou agarrá-lo. Podem me emprestar cinco cães?

Mamelute fez com a cabeça um movimento negativo.

- Compro-os. Dou-lhe um cheque contra o capitão Constantin.

A mesma recusa silenciosa.

- Nesse caso, requisito-os para o serviço do rei.

Mamelute, com um sorriso zombeteiro, pousou as mãos nos revólveres que tinha no cinto. O inglês, compreendendo que nada obteria pela violência, dispôs-se a sair, e como os mestiços protestaram, alegando fadiga, insultou-os, chamando-os de mulheres e cães.

- Pois vamos - disse um dos mestiços. - Quer continuar? Pois continuemos. Vamos fazê-lo caminhar até que lhe faltem as pernas. Quando não puder mais, teremos prazer em deixá-lo. na neve.

- Está bem - disse o jovem oficial. E, com uma energia que exigia toda a sua força de vontade, caminhou para a porta.

Todos apreciaram devidamente sua orgulhosa coragem e acompanharam com atenção os esforços dos mestiços para obrigar os cães extenuados a partirem de novo.

Mas quando o ruído do trenó se perdeu à distância, os companheiros de Mamelute não mais ocultaram sua indignação.

- Isso não se faz! Você nos fez prestar auxílio a um ladrão.

Estavam positivamente furiosos; não só porque Jack os iludira como porque ele violara a moral de Northland, onde a honestidade é exigida acima de tudo.

Mamelute pediu silêncio com um gesto largo e começou:

- Nunca um homem mais leal comeu em nossa mesa e partilhou nossas cobertas. No outono passado, ele entregou a Joe Castrell tudo quanto pudera arrancar da terra com trabalho infernal: quarenta mil dólares, encarregando-o de comprar terras do domínio. Se Castrell o tivesse feito, hoje Jack estaria milionário.

"Mas, enquanto Jack ficava em Cald City para não abandonar seu sócio atacado de escorbuto, que fez Castrell? Foi ao bar de MacFarland, jogou todo o dinheiro de Jack e perdeu-o. É verdade que estava bêbado. MacFarland tivera o cuidado de começar por embriagá-lo. Quando recobrou o juízo, Castrell estourou a cabeça com um tiro. Agora Jack não fez mais do que se vingar e vingar o amigo leviano. E notem que tirou da gaveta do barman somente a quantia que lhe foi roubada."

O narrador se calou. Todos os olhos cintilaram em torno dele; todas as cabeças acenaram sua aprovação.

Mamelute ergueu o copo e disse gravemente:

- Feliz Natal ao homem que vai esta noite pela pista! Que seus cães conservem seu vigor e que seus fósforos não falhem!

Todos ergueram o copo, e Belden acrescentou:

- E demônios levem a Polícia Montada, que não sabe compreender as coisas.

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  • Publicado em: 16/12/2002
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