A Garganta da Serpente
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Tiros em Manrratam

(Janaína Behling)

Se Nova York fosse aqui, ninguém saberia o que fazer, porque são menos os tiros nas ruas pouco explícitas de São Paulo. Eles, os que atiram, pedalam no metrô da mudez indesejada dos maus tratos. Toda aquela baixaria de professores e alunos reféns uns dos outros, na periferia, era muito folclore pro meu gosto, na verdade, grande falta de consideração. Cada um apela pela Educação, até os que só queriam estudar direito, com letra minúscula mesmo, nada de questões coimbrãs.

Eles mesmos, os três, viveram muito longe do grande e velho ventre do Centro. Horrível a dessemelhança entre os padrões de vida, as casas, os condomínios deles e os que eu via todos os dias. Nenhum deles, dos três rapazes, queria vir só. Ou os três ou ninguém. Esperaram cinco anos para a mudança, que não teve festa, todos sabiam muito bem porque motivos estavam saindo dos seus bairros os ônibus de nunca mais.

Os tiros são outros, cada um sabia. Churrasco, maionese e chatily, era do que sabiam falar sobre a vida. Algumas vezes o Sem Nome, apelido que eu dei pro cara levemente maquiado, 'tirava um cigarro de dentro do bolso com o maço escondido. Marca ruim escondida para que os novos amigos não os vissem, nem a ele próprio, para dar destaque a mais fumaça que ele soltava rápido depois. Nem sabia fumar coitado. Começaram a contar histórias com tiros. Diziam que gostavam de jogar gaimes que tivessem mais de uma máquina envolvida nas lans do Centro, na periferia também tinha, já vieram atirando de lá as histórias sobre tiros. Diziam que com os jogos tinham aprendido a andar na cidade. Que na primeira oportunidade, entrariam para uma dessas escolas de tiros que tem em Santa Catarina. Certamente, encontrariam uma escola daquelas aqui no Centro, mas sabiam que eram caras as prioridades da vida, agora, voltada pros estudos.

Eu fiquei admirada por saberem que existe Santa Catarina. Por quererem estudar a própria língua, por saberem o que está acontecendo com suas vidas, pelo menos tentando descobrir, era o jeito, estavam no ensino superior fazendo uma história diferente daquelas que sabiam de cór. Algo que se referia a um Estado brasileiro, eles sabiam. A essa altura do campeonato, abri mão de perguntar se conheciam Santa Catarina. Sotaques nordestinos me obrigavam a julgar que não. Talvez sim, talvez não. Por onde esses moleques já passaram? Como chegaram a conseguir o meu cartão?

Eles tinham empregos ruins, desses que a gente do norte não consegue mais sonhar em ter. Eram pobres e, no entanto, estavam dispostos a pagar pelas minhas aulas. A gente do norte está com gerações maduras, prestes a anunciar, todos os dias, seus gritos finais em peixeiras do acaso. Eles, os do norte, eram vizinhos dos três moleques que eram paulistanos sem razão, entre uma cultura e outra, a do Norte do país e a do Sul, na periferia mais cara da América Latina, onde viviam atirando por aí nas pessoas virtuais que eles criavam constantemente, seja por sucesso ou por resignação.

Na curva da banca de jornal o outro, o que falou comigo de fato, virou pra mim e perguntou se eu era a mulher que fazia os trabalhos. Eu fiz que sim com a cabeça, simpática como fosse possível, primeiro porque eu sou simpática mesmo, segundo porque pareciam confusos, olhando o meu cartão na mão deles e eu, a dona do nome no cartão.

Achei meigo o rapaz, não devia achar nada audacioso, audaciosa era eu, a 'dona'. Se eu estivesse em Campinas, eles me chamariam de 'dona'. Mas, gostei dele ter prestado atenção em mim sem que eu percebesse para perguntar aquilo que, afinal de contas, eles realmente queriam saber.

O outro começou a querer estender a mão pra mim, sem saber se podia, com a sacola pesada entre as pernas, ele queria me dar. Só o Polaco não falava nada, absolutamente nada, olhando pra parede parado e ouvindo o ar entrando no meu útero se ele quisesse.

O caso é que me ligaram durante a semana, o Osterno havia ligado, perguntando se eu era a professora que ensina a escrever as ciências. Marquei o encontro pra sábado, na Major Quedinho, onze da manhã, porque todos trabalhavam e queriam constituir um grupo de estudo, todos queriam escrever os tececês.

Acontece que eu não tinha pedido nada daquelas porcarias que eles trouxeram dentro da tal sacola que o outro segurava apertado entre as pernas jeans. Nunca mandei ninguém comprar galinha preta pra me visitar, onde já se viu, tanto faz a cor das galinhas, oras, vamos cozinhá-las e pronto não é verdade; nem pedi cachaça, não bebo. Nunca coloquei um charuto na boca.

Que porra é essa? O Polaco fala, que ótimo. É garoto, estou perguntando que porra é essa sim senhor e não preciso de eco.

Se você quiser a gente vai embora. Claro que não, eu só estou fazendo uma pergunta!

O problema é que eu não queria assustar ninguém, nunca queria, só precisava de uma explicação, sempre fui ávida por explicações.

O negóssio é o seguinte profa. A gente leu no seu anúncio que era pra fazê trabalho acadêmicos. A gente tamo fazeno facudadi e tamo tentano passa. Viémo mora aqui no Centro, o Polaco aqui ta fazeno Educação Física e eu e o Osterno tamo fazeno... Como que chama o curso Osterno?

De fato, o tal do Osterno não sabia o nome do curso que estavam frequentando. Sei. E essas coisas aí eu perguntei. A gente levava pra D. Fhidia disse o Osterno.

Era sábado né. Levei os três pra tomar refrigerante e comer umas coxinhas murchas no Arouche. Começaram a contar dos planos, das economias, das privadas lavadas, das namoradas e dos namorados que nunca tiveram em Ganso Aceso. Foi lá que encontraram a tal da Fhidia, uma espécie de guia espiritual, mentora, mãe de santo, dona deles parecia, devia ser preta, enorme e estranha.

O Polaco, depois de tudo esclarecido, entendeu que o tipo de trabalho que eu fazia era um pouco diferente dos trabalhos de D. Fhidia, eu não precisava daqueles presentes enviados por ela, muito obrigada, que gentileza, podem fazer um bom almoço, obrigada. Eu precisava de um outro presente, mas sim de um outro, bem diferente, chamado 'texto'.

Como eu os consegui seduzir não sei bem. Mas, lá estavam mais três arrastados comigo pelas entranhas mais e mais profundas das promessas jamais cumpridas pelas palavras querendo escrever, sorvidos por uma coisa chamada escrita científica. Teriam que fazer aulas particulares de Língua Portuguesa comigo. Fariam, aliviados, no Centro, uma espécie de Manrratam deles.

Uma das mochilas, a do que não sabe o seu curso, assim como Osterno, era carregada nas costas como a uma manjedoura de livros.

Sem entender quais tocava, o rapaz procurou um verde, especificamente verde, surrado de uma vez por todas e me ofereceu.

Disse 'pra sinhora'. É o livro que D. Fhidia escreveu. Aqui tem tudu qui ela pensa. Uma grande vidente qui tudo sabe qui tudo vê qui tudo senti. Ela mandô nóis dá na mãos de uma pessoa assim queném a sinhora qui intendis as palavras. E nóis num intende nada que ela escreve né Polaco? Polaco parado, dessa vez prestando atenção na minha cara também parada.

O que eu devo fazer com isso sem piadas por favor? Riram.

E se foram a queima roupa, deixando na República um cheiro de depenação, com as aulas marcadas e o livro na minha mão.

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