A Garganta da Serpente
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Lucas

(Jocimar Alvares Bueno)

De há muito o sol afugentara a névoa úmida que na madrugada envolvera o bosque. Os pássaros na selvagem simplicidade da beleza, saltitavam e, com voos curtos, iam de uma margem para a outra do plácido córrego, sempre limpos, serenos e puros. O sol aumentando de intensidade na luz e calor, inventava reflexos nos pequenos e precários utensílios domésticos, que pendurados do lado de fora da casa, muito mais velha que eles, formavam um estranha exposição cômica, ou ridícula, ao contato com o intercalado vento, entrechocavam-se formando uma escala musical chocha e desinteressante.

Lá dentro, em profundo, mas quase acordante sono, sob as cobertas rotas e manchadas, sobre a cama de estrado de galhos e muito capim seco; deitado Lucas. Na redondeza era só ele, era só na redondeza. Pobre de conforto, vazio de voz humana diferente da sua, acompanhado de campos arborizados, rico de extensões, liberto de horários, despreocupado de pompas, viva vivida sem ambição, sem força, sem medo, sem recuo, sem resposta. Não enxergava beleza, nem aos pássaros compreendia e exaltava.

Abriu os olhos claros, dormira bem. Olhou as roupas de muda penduradas num toco espetado ao solo de pedras e terra batida. Descobriu-se, sentiu no corpo o ar fresco da manhã, em seguida pisou o solo com o pé direito, não sabia explicar, mas levantar com o pé direito era a única superstição que ainda conservava, vinha de longe, de muito longe no tempo.

Sentia-se bem, com disposição para efetuar o que de há muito vinha planejando. Não vestiu calça, saiu mesmo com o calção verde amarrotado da noite dormida, deu bom dia à ociosidade e à liberdade. Afugentando os últimos respingos de sono, bocejou igual a um animal felino, com os dedos arrumou os cabelos em desalinho, lavou o rosto com água do cantil militar, comeu algumas frutas que amontoavam-se num canto, apanhou o chapéu de palha já bastante desfiado e seguiu pelo lado direito da casa.

Teria de ir mais longe. Há tempos ali se encontrava, mas jamais passara daquela cratera, ponto de onde sempre voltava. Como se daquele limite fosse proibido avançar, uma área com magia ou feitiço indígena. Dali nunca passava. Agora teria de ir além, percorreria o desconhecido, tomaria a devida precaução para não se afastar em demasia do riacho Dom, nome que ele mesmo colocara por entender que o líquido que nele passeava com naturalidade, era o grande conservador da arte de viver. Tirara muitas lições daquele riacho, entre elas a de conseguir ser importante, apesar de pequeno, de correr na solidão à espera de poder ser útil para alguém, em algum lugar, durante seu percurso até desaguar num rio maior...

Caminhava lentamente, os olhos sugando as paisagens que pouco diferenciavam entre si, mas também nunca eram iguais; sempre os bosques de mil tons de verde e relvados semelhantes.

O riacho ficara longe, descuidara-se, horas depois alcançou a cratera negra, resultado de um grande incêndio, imenso, tão imenso que seus olhos não alcançavam o final. Devassidão negra.

Prepara-se para ir até o fim e iria. Atravessaria, custasse o que custasse. Depois de muito caminhar e ter os pés negros de cinzas, machucados por tocos invisíveis, inevitáveis de pisar, ainda assim não avistava o final das marcas deixadas pelo monstruoso sinistro. Ameaçou um recuo imediato, uma descontinuidade no caminhar. Para que o sacrifício?. Sentou-se para meditar, o sol deixara o meio do céu, iniciava-se a tarde, era ainda abrasador. Curiosidade banal. Não chegou a arrepender-se, apenas tentava ser sensato às dores que lhe infringiam constantes agulhadas nos tornozelos.

Voltaria, antes que o prateado da lua surgisse estaria de volta ao seu lar. Lar? A volta foi dor. Longa. A distância parecia multiplicada. Enfim chegou.

Chegou calmo, bebeu um pouco de água, com o restante lavou os pés feridos, sentado descansou, comeu algumas bananas e por estar muito cansado, não fez a habitual fogueira. Já a sentia nas pernas e nos pés. Deitou e dormiu. Sonhou com o mar que só tinha visto em calendários baratos de armazéns. No sonho o mar fervia.

Na manhã seguinte despertou tarde, o sol brilhava calor, sentia-se bem melhor, não faria nada, absolutamente nada. Água havia, frutas também, não sairia de casa. Descansaria somente.

Deitado, com os pés apoiados numa viga saliente da parede, meditava sobre a inutilidade de sua curiosidade em querer saber além da cratera negra. Não pensara que fosse tão grande, seria preciso, talvez, o gasto de muitos dias para atravessá-la. Curiosidade. Ah! Aquilo era coisa de mulher. Mulher!

Descansara ainda mais alguns dias e agora encontrava-se bem novamente; sempre que isto se dava, vinha uma vontade, quase incontida, de sair em novas andanças, conhecer lugares que o cercavam. Relutou. Não cairia duas vezes no mesmo erro, passearia nas imediações, nada de excursões. Nada de outras tolas curiosidades.

Ali mesmo é que ficaria, sossegado. Estava bom, banhando-se frescamente no límpido Dom, alimentando-se frugalmente. Andanças só curtas, somente para procurar alimento e lenha seca para a fogueirinha noturna.

* * *

Certa tarde, Lucas estava roendo distraidamente as unhas, quando ouviu passos e viu o mato balançar. Seria algum animal de maior porte? Levantou e escondeu-se atrás de uma grande árvore. Não por medo, que Lucas nem sabia mais o que era medo, mas por precaução, que é instintivo até em animal selvagem. Sabe lá o que seria? Se fosse homem, até melhor..., Lucas o mataria, não queria companhia humana, ali vivia por querer ter-se sempre só. Não admitiria outro dividindo com ele a calma daquelas paragens. No entanto, o que viu não o assustou, porque também nada mais o assustava, mas admirou-se e pensou ser visão; um velhinho carcomido pela idade, apoiado numa mulher. Caminhavam tropegamente, inteiramente negros de cinzas, vestes esfarrapadas, magros, débeis. Lucas não se moveu, ficou estudando o quadro inesperado. A ira e a sede de morte que seu pensamento há pouco removia, desvaneceram-se e renasceu, de uma partícula do seu interior adormecido, uma grande necessidade de ajudar. Caminhou para eles.

O velhinho não percebeu a aproximação, com a cabeça tombada, era puxado e seus pés não mais sabiam passos, somente arrastos. A mulher fitou-o, assustada, com imóveis e arregalados olhos, balbuciou qualquer coisa ininteligível, as forças abandonaram-lhe, o corpo afrouxou. Lucas não teve tempo de ampará-los, ambas figuras tiveram tombados seus corpos leves, formaram um amontoado disforme, onde a riqueza da mata contrastava com a matéria miserável da humanidade.

Tudo era agitação. Após um breve instante de indecisão, Lucas recolheu o velho nos braços e carregou-o para a casa, deitou-o na cama. Voltou e repetiu o gesto com a mulher. Ao adentrar a casa, pela segunda vez, com a estranha e leve carga nos braços, hesitou, não sabia onde colocá-la, o velhinho ocupava o centro da cama, abaixou-se e depositou-a, com cuidado, no chão.

Mirou-os com novos olhos, apanhou o cantil e deu de beber aos dois a água fresca. Lavou o rosto de ambos e pode notar que o da mulher era notadamente belo. Lucas queria ser médico naquele instante, ou curandeiro, dono de forças sobrenaturais, para poder salvá-los. Resignou-se com a inusitada boa vontade de ser útil.

Depois de alguns dias, nos quais dispensou todo cuidado e carinho àqueles seres estranhos, pode assistir à notável recuperação da jovem, que deitada na nova cama improvisada, já aceitava os frutos e até pedia por eles. Grande melhora: sentia fome, sentia sede. Nos olhos um brilho de aceitação e gratidão.

Por outro lado, sem que Lucas conhecesse sua voz, o velho não resistiu à brutalidade da longa caminhada, com expressão de agradecimento, sem qualquer estremecimento, faleceu. Sem ferramentas para enterrá-lo, Lucas levou o corpo para bem longe da moradia, deitou-o numa vala natural e cobriu com alguns galhos e muitas folhas de bananeira. Na retirada não volveu os olhos uma única vez.

De volta, explicou para a moça que era impossível a sobrevivência do pai e que a vida dela já se constituía num milagre. Fê-la entender. Ela entendeu. Com um sorriso de quem está reaprendendo a sorrir, apanhou a moça nos braços e carregou-a para o Dom. Não ficou ressentido ao ver quebrado o lacre do segredo entre ele e o riacho. Despiu-a e não sentiu-se constrangido, nem ela nada sentiu por estar ante a nudez. "Perante a necessidade não há vergonha." Filosofou para si.

Com ela nos braços e muita cautela, foi vendo a água subir no corpo. Deixou somente o rosto dela fora da água, media os passos cuidadosamente, tateando a percepção do aumento gradativo da profundidade. Era novamente uma criança, sentia-se reaprendendo a brincar. Vários dias assim procedeu, até que ela totalmente reestabelecida, já podia ir sozinha, caminhando. Com os banhos e sol diários, adquiriu uma moreneza singular; cor estupenda!

* * *

Lucas construiu uma só cama e larga. Melhorou o aspecto interior e exterior da casa. Passava horas e horas tentando apedrejar alguma ave beira-riacho para variar um pouco a alimentação. Com o tempo foi adquirindo prática e o número de aves conseguidas aumentou bastante. Passou a sentir um indiscritível alegria, começou a notar o quão belo era o local que havia escolhido para refúgio. Refúgio ou túmulo? Não sabia, o que interessava, o que queria era agradar o ser que o fizera renascer para a vida. Milagrosamente.

Em suas noites de sono, agora havia sonhos lindos e pesadelos. Certa madrugada acordou assustadíssimo após o desenrolar do sonhado: estavam eles na parte mais funda do riacho, brincando de espirrar água um no outro, ela distanciou-se um pouco e começou a emitir gritos de socorro, afoito ele tentou nadar para lá, mas a correnteza tornara-se estranhamente forte e o distanciava mais e mais, Num desespero crescente apelou também para os gritos de socorro. Não sabia quem poderia vir socorrê-los, não sabia para quem pedia auxílio. Era um agonia desenfreada. Logo sentiu-se exaurido e desesperançado. Absorto assistiu uma nuvem estreita, comprida e colorida erguer-se do suposto local que ela afundara, ao mesmo tempo que acima de sua cabeça surgia outra idêntica. Viu o instante em que uniram-se formando uma grandiosa flecha multicor e em seu prolongamento espetava o céu distante.

Acordou agitado, com a testa porejante. Pousou suavemente a mão na companheira para certificar-se de tudo ter sido apenas sonho. Sorriu e respirou alívio, mas não conseguiu mais adormecer.

De olhos abertos para a escuridão começou a enxergar tudo claramente. Foi unindo os motivos de seu refúgio naquele longínquo lugar, foi percebendo a inutilidade de sua desmedida fuga, a inoperância de ver seu intento tornar-se solução. Iniciou o recuo no tempo da lembrança, fitou o vulto dormindo ao seu lado, atentou bem para o rosto iluminado pelo fogo brando da pequena fogueira e vislumbrou o semblante calmo de aceitação, o ser maravilhoso que conseguira romper o dique dos seus contidos carinhos fogosos.

Todo este tempo o amor o perseguira, jamais soube olhar para trás e aceitá-lo. O que fez foi acelerar o passo, iniciar a corrida da negação, negação do amor. Compreendeu que o animal racional precisa para evoluir, conhecer-se, resolver seus conflitos e traumas, também de solidão, mas não só dela. De que lhe valera toda aquela, quase desumana, transformação em bicho sem amor, se até os bichos se amam?

Para ser e sentir-se homem, só agora entendia, preciso era: divagar, aceitar, estudar, sonhar, acordar, assumir, recuar, responder, ameaçar, pensar, repensar, agir, escandalizar, arrepender, apaixonar, visar, se humilhar, reconhecer, crer em Deus, crer no amor. Pelo amor de Deus! Pelo amor, Deus! Clamar, clamar era preciso.

As lágrimas romperam o fracassado esforço de não chorar. Reconheceu; era preciso sentir medo, medo de perder e zelo para perdurar a união com o ser amado.

Lucas viu que a companheira acordava, quase explodiu quando percebeu os frágeis dedos dela, despojando de suas faces as lágrimas desusadas. Foi olhado e olhou com ternura. Seus carinhos desembalsamados eram palpáveis fluídos amorosos. Com toda alma abraçou a companheira, compreendeu muitas coisas, dentre elas, que havia fugido do que sempre procurara. Não havia encontrado o amor, havia sido encontrado por ele.

O amor foge quando procurado, depois deixa-se alcançar, ou então, persegue quem dele foge e o alcança no momento azado.

Impossível é negar o existente!

Lá fora, de há muito o sol afugentara a névoa úmida que envolvera o bosque na madrugada.

Lá dentro, Lucas dava corpo sólido às conclusões sofridas. Felizmente crescera e agora compreendia, ressaltava e sentia, profundamente emocionado, os pássaros na selvagem simplicidade da beleza...

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  • Publicado em: 27/05/2002
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