A Garganta da Serpente
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A mesma merda

(Ivan Ferretti Machado)

Os dois compadres encontraram-se, naquela manhã de domingo, ali na vendinha do Seu Anacleto e, após os cumprimentos costumeiros, começaram a bebericar umas cangebrinas e a papear aquelas conversinhas corriqueiras de todos os dias. Prosa vai, prosa vem, e de repente, do nada, um dos compadres começa com uma conversa meio sem pé e sem cabeça.

- Sabe... cumpadre Bastião, eu tô aqui pensando cus meus botões um troço
meio engraçado!

- Uai cumpadre! Pensando o quê?

- Sabe o que é cumpadre... nóis tá qui cunversando numa boa, sem prercupação
nenhuma e... sei lá... de repente te dá um troço e vós mecê morre!

- Vichi cumpadre! Sê tá ficando doido? Vira essa boca prá lá sô!!!

- Não, cumpadre Bastião, é só de cumparação cunquê eu pensei!

- Uai! Mais num tem outra coisa mió pra se pensar não!

- É qui vós mecê num intendeu ainda... qui é só de brincadeirinha!

- Ah bom! Se é só brincadeir inha então continua a história!

- Sim... conforme eu tava dizendo... te deu um troço e vós mecê morreu. Ai, então, depois daquela choradeira toda, a gente vai e te enterra. Tá escutando compadre Bastião?

- É lógico que tô! Eu não sou surdo!

- Pois bem! Depois de enterrado, vós mecê, fica ali debaixo da terra apodrecendo
e acaba virando adubo pra terra. Certo!

- Certo!

- Ai, então, depois de um certo tempo nasce na sua cova uma grama bem verdinha. De repente vem uma vaca e come toda a grama da sua cova.Lógicamente como tudo que entra tem que sair, numa certa hora a vaca dá uma cagada e solta aquele baita monte no chão. Eu olho para aquilo espantado e comento: - Nossa cumpadre como o senhor mudou!

O compadre Bastião ouviu toda aquela história pacientemente e no final apenas olhou matreiro, com o canto dos olhos, para o outro compadre e não disse nada. Tirou do bolso o seu cigarro de palha, acendeu, deu uma tragada e uma guspida pro lado, correu os olhos mansamente pela serra verdejante que circundeva a cidade e, depois de manter-se pensativo por alguns segundos, arrematou:

- Sabe cumpadre Vitalino, dias desse eu pensei a mesma coisinha que o senhor!

- É mesmo cumpadre? Num brinca! E como foi?

- Eu pensei o seguinte: O senhor tá ai bonzinho cunversando e de repente te dá um troço e vós mecê morre. Ai, então, depois daquela choradeira toda, iguarzinho no meu velório, a gente vai e te enterra. Depois o senhor fica ali apodrecendo até virá adubo prá terra, e após algum tempo nasce, também, na sua cova uma grama bem verdinha. Certo?

- Certo!

- Pois bem, ai ,então, da mesma maneira, aparece uma vaca e come toda aquela grama que havia nascido na sua cova. E como vós mecê mesmo havia dito, tudo que entra tem que sair... de repente a vaca dá uma tremenda de uma cagada e solta aquele baita monte no chão. Eu olho prá aquilo sem nenhuma surpresa e comento em voz alta: - Nossa cumpadre... vós mecê num mudou nada... continua a mesma merda!!!

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