A Garganta da Serpente
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Picachu

(Isac Dias)

De certo que tinha um nome. Mas que se perdeu na infância. Desde menor sempre foi chamado de moleque. Ficou Moleque. Uns ainda o chamavam de Picachu. Pelo cabelo amarelado e porque era ligeiro. Como era ligeiro. Na brincadeira de polícia e ladrão todos o queriam jogar ao seu lado. Era vitória garantida. Mas aqueles que ficavam do lado da polícia passaram a ser uns palhaços. Ele não era um palhaço. Ele era o Moleque, o Picachu. Passou para o lado dos ladrões. Não deixava um polícia de pé. Morava na zona sul. No pé de um morro no Grajaú. Lugar privilegiado. Do alto do morro se via tudo lá embaixo e mais pra frente. Mas do pé do morro é que se via mesmo a cara de quem entrava e quem saía. Todos. Quem subia e quem descia não fugia da ponta do olho do Moleque. Sabia de tudo que acontecia por ali. E sabia também não falar demais. Ficava na sua. Andava na boa pela rua. Chinelo, bermuda, bombeta, gingando pra cima e pra baixo. Ô moleque! cê que é o Picachu? O cara estava sentado na mesa do boteco, disse que viu ele jogando bola um dia e ofereceu um guaraná. Calor pra caramba, um guaraná era uma boa. Mas de graça, sem nada em troca. Preferiu mentir dizendo que estava atrasado pra escola. Puts! quanto tempo nem passa por aquela porta, não senta na cadeira pra ficar ouvindo aquela chata, magrela e com voz de gralha. Falando falando falava demais a professora. Não ia mais pra escola porque foi expulso. Me fala merda agora com a boca estourada felá-da-puta. Agora fica andando por aí. Sem nada pra fazer uma vez foi pra bem longe. Umas casas grandes, muito bonitas. Um moleque branquelo chutando uma bola, com uma chuteira igual aquela da tevê. Ficou olhando um pouco distante. O último tênis que teve foi a mãe que ganhou da patroa. Usado, velho. Nunca ganhou um novo. O do branquelo era novinho. Saiu gingando arrastando o chinelo. Tênis da hora, hem, o branquelo ficou assustado e correu. O Moleque não entendeu muito bem e saiu. Foi andar mais até que bateu a fome e nem um centavo no bolso da bermuda. Foi pro farol e conseguiu uns trocados. Beleza Moleque! Comprou umas besteiras e foi pra casa. Cê tá roubando moleque? Que oh, fui pro farol. Menos mal, sobrou algum? Entregou alguns trocados pra mãe, mas não tudo. Compra uma cerveja lá no bar e volta logo. O Moleque saiu do barraco pensando já vai encher a cara e depois vem me falar merda. Chegando no bar, ô Picachu! fala moleque. Era o Sebá. O nome dele era Sebastião. Mas pro morro e pra boca era Sebá. Era quem tomava conta da parte debaixo do morro. Vai me dizer que cê tá atrasado de novo, senta aí. Tenho que levar um negócio pra minha mãe. Que nada, aí, senta aí e toma o seu guaraná, na boa, qualquer coisa depois eu falo com a sua mãe. Mas me fala aí qual é a sua, Picachu? Quando Picachu chegou no barraco deparou-se com uma cena que há muito não era estranha. O homem que cobria a mãe na cama o viu, fala Picachu? Sai fora moleque, disse a sua mãe. Deixa a cerveja aí e sai fora, cê só atrapalha. Eu demorei porque tava falando com o Sebá. E daí? sai fora. Ele saiu do barraco. Ouvia os gemidos da mãe. Arrastando o chinelo, vagabunda, vai se ferrar.

Um dia Picachu entrou em casa. Sua mãe logo reparou nele. O farol tá dando dinheiro assim, Picachu? Ele ficou calado. Ela não questionou mais nada. O moleque pegou um pedaço de pão que estava na mesa e saiu. Bombeta, bermuda. O Zóinho, ô pisante de estilo, da hora, reluzente. Queria preto, mas só tinha essa. Da hora. Beleza. Continuou andando. Gingava sem nada pra fazer. Passou na porta do boteco, beleza moleque? Tou ligado, tá beleza. Um ano inteiro soltando pipa ganhando o dobro da mãe como faxineira. Picachu já pensava talvez uma promoção. Talvez. Talvez ano que vem um soldado, mais mulheres, muita farinha da boa, uma Taurus nova. Tinha um vinte e dois que escondia embaixo do colchão, mas era velho, era de um padeiro no Cocaia que roubara há dois meses atrás com seu parceiro. O Zóinho tornara-se seu parceiro porque queria um tênis igual. Então vamos, Zóinho. E o dinheiro foi bom. Zóinho comprou o tênis que queria, ainda deu pra maconha, gastou uma cara no fliperama e ainda deu pra levar a Julianinha no parque. E olha a ironia. O mesmo parque onde o Edílson - agora sei que o nome do Zóinho era Edílson - foi pego tentando roubar a bilheteria. Ele não sabia do segurança que apareceu de repente. E o Edílson rodou, deu de cara no chão. Pivete mané só se ferra, cê não começa fazer merda assim não em Picachu, falava o Sebá pro moleque. Tou ligado Sebá, Zóinho vacilou, mó burro - pegou o baseado que o Sebá ofereceu - ô valeu! - tragou - num esquenta ou não me chamo Picachu. Sebá deu-lhe um tapa na nuca, mas seu nome nem é Picachu mesmo moleque. Sorriu com a boca faltando dente, coronhada dum gambé, disse uma vez pro Moleque. Se eu vê que cê tá fazendo merda também, quem te mata sou eu. Não, na boa Sebá. Então, cê entrega essa parada pra mim. O moleque pôs o pacote na mochila e saiu. De vez em quando aviãozinho, um pouco mais arriscado que soltar pipa, mas a grana é maior. Parte agora parte quando voltar. Os homens do Bocão às vezes fazem ronda lá embaixo. Se liga hem Picachu. Bocão é doído pra tomar o ponto do Sebá. Mas, bobagem moleque, segue sossegado. Vai pensando no futuro. Até os vinte anos talvez já esteja dono de algum ponto, melhor que ser soldado. Daí pra frente sem problema. Beleza moleque! O dia inteiro contando dinheiro. E à noite uma fila de vagabunda na porta do barraco querendo dar pro Picachu. Beleza moleque! Talvez tudo de certo e eu chegue aos vinte e cinco pensava o moleque descendo o morro, gingando a bermuda. Chegando em casa, fala mãe. Ô moleque tive um sonho mó estranho contigo, que cê tava dormindo na laje, mó chuva. Xi, cê tá fumando demais. Brincou o Picachu. Tomou um copo d'água e saiu. Mal deu a cara fora percebeu o alvoroço no pé do morro. Deu meia volta no quintal e jogou a mochila pela janela do quarto. Transpôs um muro com a lata de linha na mão e a pipa e foi cair no quintal vizinho. Dali pra laje da casa de baixo era um pulo. Beleza moleque! Picachu ia colocar sua pipa no ar. Na sua, tranquilo. O vento tava a favor e a pipa subiu rápido. Picachu olhou pro alto do morro para saber se via algum movimento. Picachu não viu nada. A pipa parou de rebolar no céu. E o morro todo sofreu com o reboliço. Mais ainda uma mãe que mostrava sua face negra conformada, eu sabia que um dia... comentava aos soluços, e se chovesse seria tão igual. E de repente ela lembrou, ô Vagner, o nome há tanto perdido surgia pra todo mundo saber quem era, ô Vagner.

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