A Garganta da Serpente
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Mulheres da vida... e Morte

(Georkaeff Wandega)

Havia do céu caído um anjo. Um anjo que tinha sido alijado das atuais linhas dos códices celestiais. Um anjo que bebia, fumava e morria de overdose: meu anjo da guarda; uma anjo descartável; anjo falível. Não podia eu carregar o fardo daquele que sentia no masoquismo a razão de sua trajetória. Segui. Trôpego, cansado, por terrenos frios e tempestuosos. E foi então que conheci minha primeira mulher. Veio uma moçoila ruiva, com um estilo emprestado de alguém, sentou-se ao meu lado e proferiu:

- É natural, o que sente nestas plagas... vim lhe fazer companhia. Chamo-me Solidão - disse-me com efusividade.

Um ar de pureza maliciosa lhe tomava o semblante. Caí em hemorragia verbal tartamudeando tudo que na mente surgia: chorei. Lembranças assaltaram-me de chofre, e meu pranto piegas fazia com que desabrochassem todas as pétalas do meu coração. Todas as flores do meu ser e do meu pequeno "eu". Mas não estava só.

Já havia anoitecido, a lua estava cheia, e de Solidão só se via silhueta. Ainda soluçava e ela me dizendo "calma, vou lhe fazer um cafuné". Não mais sabia onde começava a minha corporidade e terminava a dela. Nas veias pareciam correr um RH UNO, as pernas, confusas, umas entre a s outras, traziam-me o torpor do lídimo ato sexual - nada são flores.

Acordei e ela não estava lá. Todas as pétalas murcharam. Doravante seguia só o meu caminho, tão absorto a ânsia de encontrar coisa qualquer que não qualquer coisa que esquecia-me de alimentar-me, de descansar. Vivia no "piloto automático" quando adormeci alguns dias depois.

Ainda era um lindo mancebo quando minha segunda esposa conheci, cutucava-me as costelas com leveza, como se delas fosse um pedaço e disse:

- Acorda - levemente segurando minha cabeça. Chamo-me Tristeza.

Abri os embaçados olhos embasbacado, e em minha frente havia uma deusa de ébano, acariciava-me os cabelos como se soubesse que sofria com cefaleia. Tristeza foi buscar em algum lugar sacro santo de meu íntimo um cometa de alegria que rapidamente me levara ao ápice do firmamento. Havia Tristeza feito um buraco na tênue seda de minha sanidade. Eu já lhe gostava tanto que não sabia como desejar. Paixão fugaz; a concupiscência ainda residia em minha carne. E em segundos estendia meu peito nu sobre seus seios, mas a angústia do regresso fazia já morada em seus olhos. E correndo saiu até sumir no horizonte. E quando tentei correr, o horizonte nunca chegava. Sentei-me e lhe escrevia e entabulava poemas na esperança de que ela pudesse voltar para resgatar-me do limo da inércia ainda que por piedade - vãs tentativas.

Bradei impropérios, vocifero contra a caneta sem tinta, a qual tinha de escrever nas brancas páginas de meu destino em minha verve de indignado. Doravante seguia só e triste o meu caminho. Porfiei pelos caminhos da boemia, da liberdade travestida em lucidez, e fui escravizado pela lascívia; caía bêbado pelas calçadas, e virei homem de muitas mulheres, muitas foram as que convivi dos mais diversos nomes, Raiva, Melancolia, Aflição... muitas passaram pelo meu caminho. Tive uma amiga apaixonada por mim, - amor platônico - seu nome era Amargura, porém renegou minha amizade, dizia ter medo de minha doçura. Um lúgubre sentimento solava-me a impura carne nas madrugadas reclusas no mundanismo.

Precisava de glicose, estava quase em coma alcoólico quando uma seringa penetrou-me a veia, mais parecia haver ácido sulfúrico do que o antídoto de minha vertigem. Aquilo tolhia os meus movimentos. Vagarosamente levantava apoiado nos braços nos braços de uma garota, muito nova por sinal, com a idade escondida por traz da maquilagem e da deflorada beleza, devia ter uns dez anos a menos que eu. Eras "menina da vida" já que ainda não havia se tornado mulher. Sem dizer palavra alguma levou-me para dentro do prostíbulo e me cuidou.

Estava carente, sua silente doçura enternecia-me o espírito, porém havia já aprendido que a entrega era a falta de amor próprio em função do outro, e estava plenamente cônscio dos quadros mentais de minhas ignomínias.

Vivemos por seis anos juntos, e resolvemos nos casar no aniversário de sétimo ano. Era uma tarde chuvosa, tarde de 7 de julho. A igreja estava vazia, e padre não existia. Havia apenas um livro velho e grosso, que mais parecia uma bíblia, mas era a certidão de casamento, e tinha um escrito arcaico raspado que dizia "Os sete segredos do livro da vida"... havia também uma caneta tinteira dourada logo ao lado. Horas a fio esperei. Não poderia chamá-la, era uma mulher cujo nome eu não sabia. Desde que nos vimos pela primeira vez não trocamos uma palavra se quer. Resolvi então abri o livro, todas as páginas estavam em branco exceto a última, e lá estava escrito o nome da misteriosa menina: Depressão. Abaixo uma frase "a palavra é o melhor feitiço...", como quem diz que por traz de sua frieza havia me amado verdadeiramente e eu não tinha percebido. E ao lado meu nome para assinar. Caí de joelhos. Doravante seguiria só, amargo e depressivo o meu caminho.

Ouvi uma fúnebre ária soar, era um daqueles órgãos medievais, que espargiam tenuíssimas luminosidades enquanto adentrava a igreja a mais bela mulher que já vi. Na realidade já a conhecia de outras incursões em romagens terrenas mas nunca lhe havia prestado atenção. Entrava lentamente, passo à passo, nua, apenas com crisântemos murchos nas mãos. Nuvens plúmbeas faziam-se sobre sua face como um véu. Ela vinha trazendo em seu corpo a tinta indelével da experiência nas telas da vida, como se fosse em mim pintar a autorização para entrar em Shangri-lá, Canaã, Xanadú, Édem, ou qualquer das terras prometidas às pessoas de nobre espírito.

Eu, inerte no altar, apaixonado a primeira vista, com medo que minha alma estivesse eivada em pieguice, fascinado. Sua palidez ofuscava-me a vista, mas seu sorriso primaveril e seus rubicundos olhos seguravam-me as pálpebras e me tragavam para dentro dela, querendo me tornar uma testemunha do adeus. Não era ela o teratóide que muitas vezes ouvi descreverem em vida, era bela, simploriamente bela. Simbolicamente pluma.

No altar beijou-me como quem pede ao sono para bater a porta de minha lucidez, o sol abrira e invadira a igreja através dos vitrais dando um sentido de eternidade, e trazendo-me a clareza de que não existe amanhã para aqueles lhes dizem sim.

Sem que precisasse por o pescoço no patíbulo e acionar a guilhotina, seu beijo veio como chumbo ardente entranha-à-dentro corroendo-me toda a visceralidade do ato de viver.

Estava em algum lugar deitado sobre chumaços negros, e Morte me sorria.

E nas águas do nada Depressão fazia-se em um beijo, Solidão acariciava-me o falo, Tristeza cobria-me o corpo e Morte trazia-me um cálice de vinho para curar a lucidez e dizendo que a beleza é o último véu que nos esconde do que realmente somos. Mas era eu um homem feliz por descobrir que a minha "passagem" são moléculas de segundos para o átomo do infinito.

Até que caí do céu novamente.

(24/10/2003)

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