A Garganta da Serpente
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A vidraça

(Geraldo Ramiere)

No primeiro dia, apenas observava-o, tranquilamente, parado em pé, de frente ao restaurante, por detrás do vidro. Naquela ocasião, o nobre senhor até que estranhara aquele menino de rua sujo e maltrapilho vendo-o almoçar. Ele sempre comia naquele mesmo lugar, todos os dias, depois que aposentou sua farda de major. Porém, não se importou muito com o súbito aparecimento daquele garoto, continuando sossegadamente sua refeição. No segundo dia, o menino havia retornado, dessa vez encarando-o diretamente nos olhos, seminu, sem se importar com o frio que fazia lá fora. O velho major, indiferente, apenas desviava o olhar, voltando a degustar sua tradicional sopa de carne. No terceiro dia, incomodado por se sentir sob vigia, especialmente no exato momento em que ia morder um pedaço de pão molhado, o major reclamou com o garçom do constrangimento que passava. O outro apenas respondeu-lhe que não podia fazer nada, pois a rua era lugar de todos. No quarto dia, o moleque novamente estava lá, no mesmo lugar, do mesmo jeito, sempre a olhá-lo, fixamente, profundamente, sem dizer sequer uma palavra, apenas examinando-o. Dessa vez o velho começava a achar engraçada aquela situação, a de ser admirado como um animal enjaulado, igual a um circo, sentindo-se detentor de um inexplicável poder. Saboreando sua sopa, esboçando várias exageradas expressões faciais, ele tentava tudo para provocá-lo, até esticar um pedaço de pão ensopado em sua direção, oferecendo-o ironicamente. Porém nada adiantara, o garoto permanecia lá, em pé, equilibrado, estático, no mesmíssimo lugar, em constante vigília, sempre a perscrutá-lo. O major começou a sentir-se infantil, percebendo o quanto estava sendo ridículo, coçando os brancos cabelos, que denunciavam a velhice. No quinto dia, arrependido do seu comportamento anterior, começava a sentir pena daquele pequeno descamisado, sozinho ao relento. Decidido então em fazer um ato de caridade, mandou que o garçom levasse-lhe um prato de sopa, igual ao seu, tanto para aliviar sua consciência como também por crer que com isso mandaria-o embora, acreditando que era a cobiça por sua comida que o mantinha ali. Mas assustou-se quando percebeu que o prato permanecia no chão, intocado, com ele ainda a olhá-lo, inalterado, cada vez mais profundamente, cada vez com mais fortaleza, indo embora apenas, como havia sido até aquele momento, quando o velho também fosse, sempre o espreitando. Deixara o alimento totalmente intacto. No sexto dia, notando outra vez sua presença, sentiu impaciência, depois raiva, por fim ódio. Dessa vez não se rebaixara: encarou-lhe olho no olho, aceitando o desafio. Mas o combate durou pouco. Não conseguiu defrontar o olhar por muito tempo com aquele pivete, que incrivelmente intimidava-o, vendo em seus olhos uma melancolia imensurável, que era ao mesmo tempo tristeza e acusação. E o que era odiosidade transformou-se em pavor. No sétimo dia, o velho major entrou no mesmo restaurante, na mesma hora, ocupou a mesma mesa, sentou na mesma cadeira e pediu a mesma sopa, repetindo minuciosamente o antigo ritual, que sempre seguia. Mas dessa vez viera preparado: trouxe um velho chicote, escondido dentro da japona militar. Prometeu a si mesmo que esperaria aquele negrinho chegar, como de costume, e que correria atrás dele até alcança-lo, e que o espancaria, até não poder mais, para ensiná-lo a respeitar a paz dos outros. E se acaso isso não adiantasse, se ele ainda insistisse em molestá-lo, jurou que o mataria, com suas próprias mãos. Contudo o maltrapilho ainda não chegara, já estava passando da hora, mas não chegava. O nobre senhor olhava o relógio a todo instante, neuroticamente, mas dele não havia sinal algum. Finalmente desistiu de esperá-lo, olhando a sopa que já tinha esfriado; sentiu-se decepcionado, mas também livre de um enorme peso. Enfim novamente tomava a sua refeição com tranquilidade, alegremente, calmamente, picando pequenos pedaços de pão, molhado-os antes de levá-los à boca, como sempre fazia, de volta à sua querida rotina. Absorto em seu regozijo, mal conseguiu ouvir os estalos que zuniram sucessivamente: do tiro, da vidraça espatifada, do seu crânio perfurado, produzidos pelo projétil disparado pelo pivete que fugiu num piscar de olhos. A vidraça quebrara-se. Tudo aquilo que separava um do outro se estilhaçou numa questão de segundos. E entre gritos dos passantes, entre o pavor dos demais fregueses, entre o vômito do garçom e o corpo com a cabeça estourada que insistentemente ainda segurava a colher, havia a sopa, com carne, com miolos, com sangue.

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