A Garganta da Serpente
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Flores Murchas

(Guilherme Henrique Miranda)

A vida na cidade existia como sempre...

De pétalas brancas, pintadas de pus, era uma rosa jogada na calçada, como qualquer pedaço de lixo, como qualquer resquício de vida. Deve ter caído do alto de algum apartamento ou de algum buquê levado por um boy desastrado, mas ela estava ali, sobre os paralelepípedos como um quebra-cabeça diferente. Pisada por qualquer um que passasse, a rosa se mantinha 'sobreviva' se alimentando apenas da garoa que caía levemente sobre a velha metrópole cinza. Seus espinhos estavam frágeis, ela estava sem defesa alguma e suas pétalas não estavam tão claras quanto foram um dia, havia certas manchas negras sobre as suaves pétalas daquela rosa que um dia foi símbolo de paixão e naquele momento era símbolo de descaso.

Há metros dali, uma menina branca, mas de cor de sujeira, magra como pau-d'água, com cara triste, estava com fome, libertou-se do papelão que a cobria para se livrar da garoa e do frio e saiu atrás de algo 'comível'. Andava como podia, de mãos e pernas atrofiadas, deficiente física, parecia ter saído de algum filme de terror, mas não era monstro, era real, era humano, ou quase isso. Já não ligava quando as pessoas à sua volta a olhavam estranha, às vezes chegava a achar divertido quando os outros se distanciavam dela como se ela fosse portadora de alguma doença altamente contagiosa. No fundo ela acreditava que tinha alguma doença assim que necessitasse da distância dos outros. Andando daquele jeito, ela acabou, inevitavelmente, por tropeçar num dos paralelepípedos mal postos da calçada e seu rosto ficou a um centímetro daquela rosa branca que tanto parecia com ela: se bem cuidadas, poderiam até ser bonitas...

E a vida na cidade continuou existindo... Isso lembra Fernando Pessoa:

"A flor caída no chão.
A flor murcha (rosa branca amarelecendo)
Caída no chão...
Qual é o sentido da vida?" - Fernando Pessoa

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