A Garganta da Serpente
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Perla

(Giuseppe Butera)

Em Assunção, senti-me imediatamente em casa. Um jovem empresário italiano gerenciava com muita habilidade o hotel de sua propriedade, além de desenvolver um montão de outras atividades paralelas. Não sei como conseguia, mas devia com certeza se beneficiar dos melhores relacionamentos possíveis com todo tipo de classe social e com os diversos níveis do poder público.

Recebeu-me com uma cordialidade espontânea e calorosa, um pouco porque, do passaporte, reconheceu logo a nacionalidade em comum e, outro pouco, por ele ser espontâneo e amistoso com todo o mundo. Fiquei, entretanto, extremamente surpreso quando, após poucos dias de minha chegada, puxou a gaveta da escrivaninha e sacou de um fardo de formulários, propondo-me que solicitasse eu também a nacionalidade paraguaia.

- São todos meus amigos - explicou, com uma piscadela de cumplicidade, sua familiaridade com os homens da Inmigración -. Aliás, um destes dias, vou te apresentar ao presidente.

- Que presidente?

- Da república.

Guido estava casado com uma garota do lugar, que o ajudava nos negócios como teria feito um autêntico executivo, com uma sábia e silenciosa operosidade, fazendo, porém, de tudo para deixar sempre em destaque o marido. Perla era uma verdadeira pérola. A síntese de visibilidade e discrição, de vivacidade e de calma, de firmeza e de suavidade.

Era pleno verão e as ruas arborizadas da capital conseguiam às duras penas atenuar a canícula. À noite, entretanto, o ar abafado tirava a respiração, apesar do ventilador incansável se virar como podia para moer a massa de ar incandescente despejada sobre a cama pelas janelas inutilmente arregaladas. O hotel não possuía ar condicionado e todo o mundo estava acostumado àquele calor infernal. Os recém-chegados como eu, pelo contrário, passavam um mau pedaço.

É verdade que certo refrigério o encontrava em meu Landau, mas é claro que não podia ficar tampado o dia inteiro no carro, queimando gasolina.

Numa daquelas tardes, não resisti e decidi procurar uma sala de cinema que o ar condicionado o tivesse, não importava aquilo que estivessem passando.

Por sorte, o filme era "Os girassóis da Rússia", infelizmente com legendas em espanhol e dublado em um inglês simplesmente asqueroso.

Logo peguei no sono, acordando na hora em que Mastroianni, o veterano da campanha da Rússia, queria saber como se chamava o filho que la Loren tinha tido do segundo casamento. "Antônio", revelava a viúva branca. "Como eu?". "Não, como Santo Antônio".

E logo caia em um choro inconsolável, quando o ex-marido, ex-soldado, ex-italiano, desaparecia atrás da porta, voltando como um cachorro maltratado para suas longínquas plantações de girassóis. Fim.

Assim, tive que sair novamente ao ar livre (e irrespirável), com o acréscimo, por cima de mim, de um cinto de percevejos, de bom grado emigrados do frio e obscuro anonimato do cinema, para o tepor personalizado das dobras de minha pele forasteira. Não, não eram pulgas, logo o teria aprendido. Na hora teria podido me enganar, pois não tinha ainda a noções que sucessivamente teria adquirido, no convívio com o mundo científico paraguaio. Claro, dá vontade de rir, mas, quando lhes tiver narrado o resto da história, tenho certeza de que vocês não vão mais rir tanto assim.

- Prepare-se, vamos encontrar o presidente - falou-me Perla, um dia.

- Mas o que é que eu vou fazer ali? Sou um ilustre desconhecido e não sei em que eu poderia lhe ser útil.

- Você não se preocupe. Basta dizer sempre: "Sim, mi general". Não o chame nunca pelo nome e não o trate nunca de "você".

Aceitei apenas porque o tinha pedido ela. De resto, não havia necessidade de muitas palavras. Os olhos falavam tudo. Morena longilínea, ela havia sido esculpida e acabada por um artista ignoto em um material vibrátil que se adaptava aos poucos àquele halo de ar transparente e luminoso em que ela gostava de proceder rápida e segura. Os cabelos até a cintura, negros e brilhantes, gozavam de vida própria, sempre de pleno acordo com a flexuosidade do corpo. Pena que ela estivesse casada, mas devo admitir que fosse um verdadeiro pedaço de mau caminho.

***

Encontramos o general nos jardins da imensa estância presidencial, com gramados à moda inglesa e plantas ornamentais, canteiros de rosas e uma infinidade de orquídeas de formas e cores das mais fantásticas. Ele estava entretido em cortar hastes de tulipas com uma delicadeza inimaginável em mãos arrepolhadas como aquelas do gordo jardineiro que nos encontramos pela frente.

- Este é o amigo siciliano de que lhe falou Guido, mi general.

- Ah, sim, claro. O siciliano. E proprietário de um belo Landau.

Tinha uma amabilidade risonha que me deixava encabulado e, ao mesmo tempo, me irritava mais do que não teria feito a truculência de um sinistro tirano. Não fazia esforço nenhum para mostrar-se tranquilo e livre de preocupações, mas aqueles que entrassem em contato direto com ele percebiam logo que ele estava plenamente informado sobre tudo que acontecesse ao seu redor e sabia tirar proveito até dos dados mais insignificantes que lhe pudessem ser úteis.

- É uma cattleya - disse com aparente indiferença, indicando uma orquídea que tinha atraído a minha atenção. - Mimosa. Cattleya mimosa, originária do norte do Brasil. Existem algumas centenas de espécies delas e esta é uma das mais vistosas e apreciadas.

- Sim, mi general. - Teria gostado de perguntar um montão de coisas, mas tinha aprendido que o importante era não abrir a boca.

- Um caudilho é sempre um colecionador - continuou, lendo na minha testa. - E os objetos mais interessantes são com certeza os seres animados: plantas, animais, homens...

- Sim, mi general.

Seguiu-se uma longa disquisição filosófica, despretensiosa, pra dizer a verdade, sobre os deveres dum homem, principalmente quando se tem responsabilidades sobre uma inteira nação. Perla acompanhava-o no discurso e no laborioso borboleteio dos dedos bojudos, com os olhos fascinados e, ao mesmo tempo, sedutores de uma admiradora sem meios termos.

- O que interessa realmente é a figura, a gestalt tão querida aos meus patrícios teutônicos, a species, como dizia Aristóteles. A species impressa e la species expressa: o resto é secundário.

- (O ser é secundário? É talvez apenas aparência?) - perguntei-me em silêncio, os meus olhos nos dele.

- Claro - respondeu com escárnio, o comandante supremo. - O ser de uma flor é demasiado efêmero. Sua beleza, ao contrário, é eterna. E aquilo que deveras importa é que se perpetua em cada exemplar da mesma espécie. A mesma palavra, espécie, o diz: "specus", a espelunca, a caverna platônica onde Bacon põe os nossos estereótipos, os "idola", a aparência das coisas e, ao mesmo tempo é o "speculum", o espelho, em cujo fundo descobrimos e admiramos, ou detestamos, a imagem de nos mesmos.

- (Esta é demais) - pensei, desta vez com o olhar para o chão. - (E então porque faz tanta questão de perpetuar o cetro na mão do bestalhão que você é? Ou talvez já esqueceu de se olhar no espelho, toda manhã?).

- Você quer ver a minha estrebaria? - Surpreendeu-me de repente, repondo com todo cuidado os utensílios e o mastodôntico avental de couro.

Convidou-nos a subir num carrinho de golfe, Perla ao lado dele e eu atrás, como um baú. Agora o presidente era um motorista com a mesma tagarelice do jardineiro apenas despedido. "É a gloriosa humildade dos grandes homens", teria dito meu professor de filosofia do colegial, fazendo referencia, entretanto, a Sócrates.

- Sócrates era um grande homem -. Tudo inútil. Não podia nem pensar, que ele me lia na mente.

A meta era o imenso galpão no fundo de um campo de açaflores. Já tínhamos chegado e o serviçal fez correr o monumental portão em um cicio de sedas.

A cena que nos encontramos pela frente parecia pronta para a tomada cinematográfica de um colossal. Dezenas de Landaus pretos, lustrosos, estacionados em duas fileiras em espinha de peixe e, no interior de cada um, um motorista uniformizado. Sentado atrás, um fidalgo alourado e gorducho, com a faixa presidencial a bandoleira. Ambos empertigados e impassíveis. Passamo-los em revista e, pelos pequenos movimentos do rosto ou pelo improviso tremor das pálpebras, constatei que não se tratava de manequins, como tinha suspeitado inicialmente, mas de seres vivos. Será que o eram de verdade?

***

Perla tinha sumido junto com um grupo de assistentes do general e eu fiquei sozinho a escutá-lo.

Sempre alegre e comunicativo, o presidente começou a narrar histórias do século anterior, quando o Paraguai era governado por um ditador civil, o Supremo Ditador ou simplesmente El Supremo, como se fazia chamar o Doctor José Gaspar Rodríguez de Francia. Era um advogadinho de causas perdidas, de misteriosa estirpe brasileira, que soubera aproveitar do incerto cenário político da era napoleônica, e obter carta branca das partes adversárias, para governar o País como um verdadeiro Cincinato, mas com o punho de ferro.

- E um Cincinato também na austeridade pessoal mais pedante - aumentava a dose o general, - ao ponto de criar certas frases inesquecíveis como aquela: "Pelo que me diz respeito e para o bem geral da nação, eu não tenho parentes, nem enteados, nem amigos".

Mas o que disso tudo tinha importância para mim?

- "Os liberais me jogam na cara que eu sou mais rigoroso com meus parentes e com meus velhos amigos" - seguia impertérrito o general, como se estivesse novamente inventando as citações do digno predecessor. - "E não estão equivocados. Investido pelo Poder Absoluto, o Supremo Ditador não tem velhos amigos. Mas apenas novos inimigos".

Devia ser um admirador e não apenas um simples sucessor nem um historiador imparcial, aquele cicerone improvisado que, enquanto passávamos em revista todos aqueles Landaus, me enredava uma detalhada digressão da história do início do século dezenove, visto pelos olhos dos paraguaios.

- Napoleão tinha acabado de sofrer a derrota de Waterloo, quando o embaixador do império brasileiro, Correa da Câmara, veio pro Paraguai com a clara intenção de promover intrigas na política interna, às duras penas mantida sob controle pelo Supremo, e buscar alianças entre seus opositores, em vistas de um futuro novo arranjo do cone sul da América.

Pra mim tornava-se sempre mais inquietador aquele espetáculo de dezenas de sósias empertigados, debaixo da tempestade verbal do improvisado guia. Uma desembaraçada trilha sonora de filme de suspense (ou de terror?).

- O Supremo Ditador tinha deixado em quarentena o embaixador do Império Brasileiro, num palacete da periferia, para se conceder o tempo de sondar as verdadeiras razões da atual política do incômodo vizinho. Em suas pegadas, entretanto, tinha colocado Cantero, um astuto intermediário encarregado de manter constantemente informado o Señor Delegado José León Ramirez, por sua vez homem de confiança do Supremo.

Será que se convencera que eu tivesse alguma coisa em comum com o governo brasileiro?

- Um dia, o embaixador veio prestar as mais veementes queixas contra o tratamento cruel que lhe reservava o víscido Cantero, o qual empurrava às calendas gregas o anelado encontro com o Presidente da República, enquanto o Supremo fazia ouvidos moucos e continuava mantendo-o em banho-maria.

Ou talvez fosse apenas uma maneira de compensar o complexo de inferioridade que, fazia um século, oprimia aquela nação, humilhada por várias derrotas e perda de vastos territórios no decurso das homéricas guerras contra a Tríplice Aliança das nações limítrofes do século dezenove?

- A casa oferecida ao emissário do Império estava rodeada por casebres de índios urbanizados, que viviam em condições higiênicas muito precárias. Até a distribuição da água potável deixava a desejar em todo o bairro. Mas o embaixador reclamava principalmente de uma verdadeira invasão de pulgas.

Eis onde entram as pulgas nesta história.

- Cantero, em toda resposta, fez instalar uma grande cesta no topo de uma árvore imensa que encobria a casa do embaixador, com a desculpa que o Senhor Delegado queria torná-la um centro de observação do comportamento das pulgas, a fim de descobrir uma maneira de podê-las exterminar.

O espertalhão encontrara uma maneira brilhante de acontentar, ao mesmo tempo, o Supremo, o Delegado e o povão miserável, que se divertia nas costas do infeliz do embaixador, intuindo os dissimulados objetivos daquela cesta-subida-aos-céus.

- Finalmente, um Ramirez triunfante veio explicar ao Supremo, nos mínimos detalhes e em escala milimétrica, as importantes descobertas realizadas naquele extemporâneo laboratório. Principalmente a relação existente entre o salto da pulga e o comprimento de suas pernas, como também a grande diferença entre a pulga macha e a pulga fêmea, seja antes como após ter sugado o sangue das vítimas. "E, com vênia de Sua Excelência, também antes e depois da cópula", ilustrando com originalíssimos rabiscos todas as posições dum procaz kamasutra de pulguedo.

Porque será que o general me contava aquelas coisas? E com que prazer se rachava de rir pelo seu próprio sentido de humor.

- Na gávea em que tinha subido, acreditando no relatório confidencial de don José León Ramirez, Cantero não providenciava apenas o abastecimento de água e alimentos, mas também o acesso de uma das jovens empregadas do plenipotenciário brasileiro.

Talvez para vangloriar-se diante de um estrangeiro pela astúcia dos paraguaios, tão decantada nos livros de história e nos cantos populares, bem conhecidos em todas as Américas, tanto quanto a harpa e a polca paraguaia.

- Empoleirado no topo das árvores, o Senhor Delegado comportava-se tão discretamente que ninguém sequer via ou suspeitava que os inquilinos da gávea estivessem fazendo a "besta-de-duas-costas" por cima dos telhados da embaixada.

Provocava-me até asco escutar aquelas histórias de quartel de tempos antigos, reavivadas por um personagem tão importante e tão perigoso, em pleno exercício de seus dotes histriônicos.

- A bela escrava mulata, entretanto, irradiava felicidade de todos seus poros, desde que ficava encafurnada junto com o Senhor Delegado. Era ela quem surrupiava o correio diplomático do dono estrangeiro e o levava ao Delegado encanastrado, para deixar que rapidamente o copiara, enviando as preciosas informações ao Supremo Ditador.

- (Porque você não me explica o sentido daquilo que está me deixando ver e escutar?) - joguei-lhe direto na cara com um simples olhar ambíguo.

- Narravam os antigos gregos que o tirano Dionísio, sim, aquele mesmo de Siracusa, tivesse obrigado um de seus mais ferozes críticos, de nome Dâmocles, a ocupar o lugar dele durante uma festa, para deixá-lo experimentar um pouco das delícias do soberano. Mas logo o coitado teve que perceber que não era coisa tão agradável assim a vida do rei. Viu, de fato, que sobre sua cabeça pendia uma grande espada pendurada no teto por uma única crina de cavalo.

Olhei-o desnorteado. Notava-se claramente que naquele papel de soberano ele nadava a vontade. Mas o que será que queria dizer com aquela história?

- Se existe um que eu teria um imenso prazer de fazer passar por uma experiência dessas, é aquele sujeitinho de Roa Bastos.

- (E quem seria mais esse cara?) - perguntava pra mim mesmo, acabrunhado.

- É um intelectualóide que se diverte a parodiar-me. Mas eu deixo, tanto, quem lê aquele demente? E, no Paraguai, ele nem sonha de pôr o pé. Pode ficar se divertindo quanto quiser em Buenos Aires ou em Paris, pois, com suas histórias sobre meus predecessores, serve apenas a fazer propaganda da inteligência e da capacidade dos paraguaios. Mas é muito bom que ele fique longe, pois logo que voltar pra casa, alguém acabará com ele, com certeza.

Naquele momento vi o forro literalmente arregalado encima de nós. Era feito de gigantescos painéis que corriam sobre trilhos silenciosos e deixavam o espaço a longas espadas suspensas por fios de nylon de alguns metros, uma sobre cada Landau da estrebaria. Eram com certeza simples metáforas nascidas da anedota de Dionísio. A advertência que surgia dela, entretanto, era muito mais terrificante.

Meus olhos voltaram a se fincar um metro abaixo do piso. (Ô, louco!), pensei.

***

- E então, o que você achou? Não é supimpa o nosso presidente? - Perla voltara e, após algumas palavras afetuosas, quase filiais, de despedida do general, dispôs-se a me levar de volta para casa.

O carrinho de golfe, então, passou a dirigi-lo ela, mas um indescritível sentimento de perda abateu-se sobre mim quando, fora da porteira daquela plantação de açaflores, vi meu Landau nos esperando, com um motorista dentro. Idêntico àqueles apenas deixados no galpão.

- Antes de voltar pra seu hotel, quero que conheça uma pessoa.

- Mas no Paraguai não se come? - Achei ainda a coragem de perguntar, em tom de brincadeira.

- Não se preocupe, logo vou lhe deixar degustar os pratos mais deliciosos que tenha experimentado até agora.

A estrada não era mais asfaltada, mas o piso era compactado e quase não deixava poeira atrás do carro.

Paramos no meio de uma esplanada, diante de uma grande casa imersa em um bosque de plantas nativas, na beira de um rio.

Veio ao nosso encontro um homem de idade, com um sorriso bonachão, onde se destacava imediatamente o espaço entre os dentes incisivos superiores. Lembrou-me um rosto conhecido. Quem? Ah, sim, Omar Sharif em "Lawrence de Arábia" no papel do Sherif Ali ibn el-Kharish, o qual explicava o pequeno defeito como sendo o sinal do Profeta. Ou, não seria talvez? Não, não vinha mesmo à minha memória a quem se parecesse aquele sujeito lá.

O jeito de andar era tipicamente militar, mas a atitude receptiva nos fez sentir logo à vontade.

O motorista-robô ficou impassível no seu posto de direção.

- Qué tal, don José? - saudou Perla.

- Favor esteja à vontade.

Isso, um estralo em minha memória. Eis a quem se parecia o velho: Gregory Peck no filme "Os meninos do Brasil". Porém, sem a fenda entre os dentes.

- Don José, lhe apresento o meu amigo italiano.

- Mucho gusto -, apertou a minha mão com a respeitosa distância e o inconfundível sotaque dos alemães.

A enorme sala era qualquer coisa entre uma cozinha, uma biblioteca e um laboratório de química. Um grupo de encarregados que podiam ser uns ajudantes de cozinheiro, uns bibliotecários ou uns auxiliares de laboratório quaisquer, vagueavam aqui e acolá com jalecos brancos abotoados até o pescoço, máscaras e tocas também rigorosamente alvas.

- A honra é toda minha -, respondi em espanhol, com o sotaque mais guturalmente siciliano de que era capaz, imitando-o, entretanto na decidida maneira de distanciar o mais possível a cabeça, ao mesmo tempo em que, com igual vigor e convicção, lhe esmagava a mão.

- Agora você vai finalmente experimentar aqueles deliciosos pratos da cozinha paraguaia que te prometera - exclamou jubilosa Perla.

O almoço estava servido. Logo que sentamos, dois atendentes desenfornaram uma série de comidas fumantes e inúmeros molhos, verduras, frutas, doces, que transformaram a mesa espartana do centro do salão, em um verdadeiro estande de culinária guarani.

- As saladas são servidas como aperitivo. Esta daqui contém a palta junto com a alface, fragmentos de bacalhau, uva passa, locoto doce e ovos cozidos. Esta outra é a famosa ensalata de zapallos, feita com pedacinhos de abobrinhas, cebolas cozidas, tomate, pimentinhas...

Perla divertia-se à vontade em descrever cada detalhe de toda aquela fartura a um convidado definitivamente submerso numa verdadeira onda de água na boca, quando aconteceu a entrada triunfal da bandeja maior que eu tivesse visto antes durante toda a minha vida. Precisou a força de dois homens musculosos para levantar aquele imenso pedaço de carne apenas retirado do forno e depô-lo no centro da mesa. Cenouras, verduras cozidas e cruas, ramalhetes de alecrim e de louro ornavam graciosamente aquela massa informe.

Perla apressou-se a aplaudir a grandiosidade da obra.

- É o resultado mais brilhante da ciência paraguaia.

- Talvez da arte culinária, estás querendo dizer - a corrigi condescendentemente, animado pelo ambiente festivo criado por mérito do vinho dignitoso e do apetite aguçado.

- Não, é mesmo o fruto de anos de pesquisa científica, seguidamente a uma fortuita descoberta paleontológica da maior importância. Ainda o projeto, guiado pelo doutor Merengue, é secreto, mas logo irá constituir o cerne do desenvolvimento desta nação.

Como pode ser que um segredo tão importante e tantas informações não solicitadas estavam sendo tão generosamente impartidas a um completo desconhecido que nem eu?

- E quem seria o doutor Merengue? - perguntei inocentemente.

- É don José, o cientista que você acabou de conhecer.

A comida era verdadeiramente deliciosa. Sabores inéditos inundavam meu cérebro, excitados pela bebidas desconhecidas e pelo picante universal. Mas a surpresa progressiva não conseguia calar a dúvida persistente: porque eu? Porque tanta importância atribuída a um insignificante estrangeiro?

- Este é um cardápio pré-histórico. Você sabe que nos climas temperados e tropicais também existiu o mamute. Em nossa região viveu a espécie "columbi" dito também mamute americano.

- Não vai me dizer que estamos comendo carne de mamute - brinquei olhando direto no rosto da esplêndida morena de olhos risonhos.

- Em certa maneira, sim.

- Como seria isso? - Perla tornou-se séria de repente.

Em maneira persuasiva, como se estivesse dando uma aula, começou a falar de mamutes. Aquele columbino tinha-se ambientado por aquelas partes, desaparecendo inexplicavelmente onze mil anos antes. Era uma espécie de mamute sem os longos pelos próprios de seus parentes das regiões geladas. Era um herbívoro que pesava dez toneladas e alcançava mais de quatro metros de altura, e podia viver até os oitenta anos. Era um parente dos atuais elefantes, mas não era um verdadeiro ancestral deles e devia ter sido caçado pelo homem das cavernas, no pleistoceno.

- Mas o que tem a ver isso com o que estamos comendo? - Interrompi-a, ainda estarrecido, com o bocado na bochecha e os talheres suspensos no ar.

- Don José! - O doutor Merengue apressou-se a nos alcançar, após ter dado as últimas instruções aos funcionários. - Faria a gentileza de explicar ao nosso convidado as pesquisas de sua equipe de cientistas sobre os mamutes?

- Con placerrr, doña Perrrlita - sorriu o alemão, com aquele seu jeito de multiplicar ao infinito os erres espirrados pela fenda entre os dentes.

Por determinação pessoal do Presidente, tinha recrutado entre o jovens pesquisadores paraguaios, um grupo de primeira ordem para desenvolver a massa muscular do gado nacional, mediante a manipulação de sua estrutura celular. Tinha enviado muitos jovens crânios para estudar nos Estados Unidos, nos centros mais renomados da pesquisa científica e alguns deles haviam-se estabelecido acolá permanentemente, mantendo-se, porém, em estreito e secreto contato com seus patrícios.

- Mas o que isso tem a ver com os mamutes? - Sabia que não podia procurar atalhos, mas a curiosidade me devorava.

- Já existe um know-how nosso, desenvolvido desde os tempos do Supremo Dictador, inicialmente elaborado sobre as pulgas, mas hoje em dia preferimos trabalhar com os percevejos, insetos muito mais resistentes e bem aquinhoados por uma estrutura motora ainda mais ágil.

Deu-me vontade de vomitar o bocado apenas engolido e todas as comidas já em laboriosa digestão. (Mas que maneiras. Falar de certas coisas na mesa!).

- O momento culminante foi a descoberta dum mamute colombino numa caverna próxima das cataratas do Iguaçu - interveio Perla. - Deve ter ficado encalhado em um solo aluviano arenoso, posteriormente dessecado pelo clima progressivamente mais árido, que permitiu preservá-lo mumificado, após milhares de anos.

- Através de uma série de modificações no interior das células de inúmeros percevejos, conseguimos transportar a nova tecnologia genética nas células de mamute e produzimos uma substância que multiplica consideravelmente as células musculares dos bovinos - exultava don José.

- Após a sesta, vou te levar para ver o sito arqueológico onde se encontra intacto o extraordinário achado, ainda com suas presas íntegras e um abundante material biológico à disposição para futuras pesquisas - acrescentou Perla.

Por mim, teria dispensado com prazer ulteriores descobertas e informações. Já estava farto de tudo isso. Perguntava a mim mesmo, aliás, onde terminasse o delírio e começasse a alucinação. Na realidade, teria preferido retomar meu Landau e ir embora daquele paraíso de anjos exaltados. Assim mesmo, não renunciei em perguntar:

- Mas, com tantos bois que vocês possuem, o que é que vão fazer com tanta carne?

- Vamos invadir o mercado americano - veio ao concreto o cientista. - Aos americanos fizemos um grande favor, pondo ordem no inteiro continente, com nossos governos contrários à maré vermelha incentivada por Moscou. Você sabe que temos um pacto entre os governos militares da América do Sul. O plano Condor não é apenas um acordo político, mas um verdadeiro mercado comum. Nosso poderio militar será restaurado mediante o poder econômico que a carne nos proporcionaria.

- O que é o plano Condor? - Admitia minha cândida ignorância.

- As polícias políticas dos vários estados estão interligadas por um sistema único de informações que permite prender qualquer suspeito, praticamente em toda a América Latina - explicou Perla. - O próximo passo do Paraguai será o de reconquistar o poder que possuía antes da guerra contra a Tríplice Aliança dos vizinhos, no século passado.

Começava a entender alguma coisa dos acontecimentos e das intenções incubadas durante séculos por parte de um povo obrigado, em uma humilhante derrota militar, a viver em um interior ainda paradisíaco, mas geograficamente restrito demais, em comparação com o território original, e reduzido a um perpétuo atraso em seu desenvolvimento econômico e cultural.

Após a sesta, então, teríamos ido ver o mamute. Tive dificuldade para adormecer, apesar ou talvez exatamente por causa da digestão difícil. Mas nem percebi quando acabei caindo no sono na rede colocada à minha disposição, ao lado daquela onde estava acomodada Perla. Um ventinho propício temperava o calor da tarde, aliado à sombra pacificadora de uma palmeira de coco verde.

Logo me encontrei imerso em um mar de girassóis e de orquídeas e Perla tinha-se levantado para vir cantar uma nênia e consolar-me com o calor de seu alento.

- Não se preocupe, o presidente sabe o que faz - procurava me tranquilizar. - Todas as repúblicas debaixo de regimes militares estão conosco e muitos ditadores expulsados de seus respectivos governos são nossos hóspedes.

Uma estrada perfeitamente asfaltada abria-se entre flores e mil Landaus pretos deslizavam encima dela em um desfile silencioso, com seus respectivos motoristas imóveis e empertigados como os havia visto no galpão.

- Olha, aquele é o terrível ditador da Nicarágua, Anastásio Somoza em pessoa e atrás dele vem um sósia do pai dele, também Anastásio Somoza, assassinado há mais de vinte anos. Depois vem Jean-Claude Duvalier, o Baby Doc haitiano, ele também com um sósia do pai, Papa Doc, atrás. E em seguida, Torres, o ditador boliviano Jota-Jota, destronado pelo discreto e educadíssimo Banzer. Este não vai se deixar esperar por muito tempo, como também o atual narcoditador que lhe sucedeu, García Meza, junto com sua longa manus, o sanguinário Arce Gómez. Os ditadores militares argentinos também possuem seus lugares reservados num Landau, quando serão obrigados a se refugiar em nosso hospitaleiro país. El señor Presidente os receberá com benevolência, junto com os diferentes verdugos de sua confiança, até quando não consiga dar a cada um deles o que merecem. O poderio econômico paraguaio vai enfrentar até a arrogância americana e impor um novo arranjo geopolítico do cone sul.

Atrás da teoria de Landaus, vinha vindo uma fileira interminável de sombras. Eram desaparecidos segurados em pé por um verdadeiro exército de torturadores armados até os dentes. O Requiem de Giuseppe Verdi era a trilha sonora daquela sequência surrealista que transformava em um vento gélido o zéfiro que me havia conciliado a soneca pomeridiana.

- Acorda, acorda - repetia agora, com uma sacudida, Perla -. Temos que ir embora.

- Aonde? Onde estou? - tinha acordado de verdade. E era justamente Perla quem me sacudia as pernas. - Aonde vamos?

- Vamos embora. Deixamos o Paraguai.

A surpresa maior foi a de me ver diante o marido dela, que me arrastava, com ela, em direção ao meu Landau.

- Agora você vai dirigir - impôs-me Guido que parecia mesmo ter tomado as rédeas de uma situação de emergência. - Vamos levar o Presidente para o Brasil.

Abriu a porta do motorista e me empurrou pro volante. Finalmente, eu era de novo o dono do meu carro. Mas com uma carga algo incômoda. Sentado atrás, estava de fato o General. Sereno, com um sorriso distraído, ainda com o uniforme de jardineiro.

Perla sentou ao seu lado com aquela afabilidade filial de sempre. Guido veio ocupar o assento do passageiro e logo dei a partida rumo à fronteira. Sempre em direção ao leste. E não paramos mais até chegar no Brasil.

San Lorenzo, Capiatá, Itauguá, Ypacaraí. O maravilhoso lago nos acompanhou por poucos minutos ao norte da nossa rota.

- Passei a juventude com o terror da morte. Agora sei que não vou mais morrer jovem. Mas já não me agrada muito a ideia de ter que morrer de velho - O velho presidente continuava a tirar pra fora, a esmo, seus aforismos.

- Sim, mi general - respondíamos ao uníssono.

- Como pode ver, ele está com algum parafuso de menos - Guido me sussurrava no ouvido. - Por isso, o estamos levando a salvo com os amigos do governo brasileiro.

E eu, com o pé fincado no acelerador. Caacupé, Eusebio Ayala...

- O homem é o único animal que sofre de verdade, pois, desde o nascimento, sente-se condenado a buscar a felicidade.

- Sim, mi general.

- Convencemos seu genro a comandar um falso golpe de estado, para poder continuar segurando as rédeas do governo, sem derramamento de sangue. Assim, será assegurado o leme nas mãos do grupo familiar e de nosso partido colorado.

San José, Coronel Oviedo. Estávamos na metade do caminho.

- As verdadeiras revoluções, ao contrário são aquela feitas pelas direitas, guiadas por ditadores iluminados.

- Sim, mi general - repetia o coro.

Suscitava até piedade, o velho, em que com muita dificuldade se poderia reconhecer agora o tirano cruel de sempre.

- Teu Landau chegou na hora certa. É perfeito para despistar curiosos e rebeldes. Na alfândega paraguaia, ninguém vai dar importância à família de um estrangeiro que volta para sua terra em carro particular - explicava-me ainda Guido.

- As reformas as realizam os de esquerda, quando se dão conta de que é impossível a revolução que eles pleiteavam - continuava a declamar por conta própria o general, perdido em seu labirinto.

- Sim, mi general -. Perla tentava com jeito acalmar a sua logorreia, também para me permitir de entender as instruções de Guido.

- Os liberais são uns candidatos à ditadura. Mas poucos são os ditadores, pois, de outra forma, não existiriam nem eles.

- Sim, mi general.

Na fronteira, estariam nos esperando os representantes do serviço secreto brasileiro, para levar o ilustre amigo a Brasília. Então, eu ficaria finalmente livre de ir aonde eu quisesse.

Caaguazú, Juan O'leary, Doctor Mallorquín e, finalmente, a atual Ciudad del Este, naquele tempo, uma pequena vila de nada, com o nome do Presidente.

Adeus, Paraguai.

Apenas atravessei a Ponte da Amizade, sobre o Rio Paraná, fomos rodeados por um esquadrão de agentes à paisana. Sem uma só palavra, escoltaram os três passageiros rumo a um barulhento helicóptero estacionado a uma dezena de metros, o qual levantou imediatamente voo, em um turbilhão de poeira.

Até que enfim, a sós. O Landau e eu. Livres. De verdade? "A liberdade individual não é um fator de autodeterminação, como pensavam os filósofos medievais - teria podido dizer, com razão, o General - mas de dispersão e de confusão. Quem reúne um povo é um homem forte que decide sozinho, não uma horda de democratas que estão a se dilacerar reciprocamente em uma mixórdia de ideias conflitantes".

Eu não sabia, de fato, se tinha que ir ou ficar, se rumar pro norte ou ainda pro leste. Na realidade teria preferido não decidir nada, aproveitar desse estado de beatitude inconsciente que permite não opinar, não fazer, não julgar, não pensar, até. Tinha tido uma sorte descarada do meu lado, ainda uma vez, saindo sem dano de uma imponderável situação de perigo e quem sabe quantas outras situações como essa teria que enfrentar, sem qualquer certeza de poder escapar delas.

Afinal, quem era Perla? A jovem esposa, doce e fiel, que ostentava ser? Ou a pérfida musa de um plano diabólico? Era a filha inocente de um sanguinário tirano? Ou uma sua amante e cúmplice?

E o Guido? Qual seu verdadeiro papel no xadrez do poder? Onde estava o mamute do Presidente? Existia de verdade ou era apenas uma metáfora da megalomania de um autocrata?

Tudo aquilo que tinha acabado de ver, as pessoas que tinha conhecido, os lugares que havia sido obrigado a conhecer, levavam-me de volta sobre meus passos, mas não respondiam a todas as minhas perguntas.

E don José? José Merengue... Um calafrio invadiu-me, quando, em um relâmpago, veio à minha mente a foto do procurado, vista nos jornais de anos atrás, do sorridente jovem de tempos idos, com uma fenda entre os dentes incisivos. Sobre a cabeça dele incumbia a recompensa mais elevada da história, oferecida pelo caçador de nazista, Simon Wiesenthal: Josef Mengele, ou doutor Todesengel, o Anjo da Morte.

Arranquei o motor do meu Landau, nem que fosse apenas para ficar escutando seu zumbido em ponto morto. O carro pareceu se mexer espontaneamente e, em lugar de me levar direto em direção do óbvio retorno ao leste, induziu-me a decidir pelo sul, rumo à outra fronteira, que divide o Brasil da Argentina, onde as águas do Iguaçu desbordam no báratro das gigantescas cataratas.

Tive que deixar, contrariado, meu Landau no estacionamento obrigatório e descer as apropriadas escadarias e varandas de madeira, junto com poucos desnorteados turistas. Um zumbido, sufocado pelo ar irrespirável do verão sul-americano, pouco a pouco se transformava em um boato que retumbava sempre mais violentamente a cada passo, em direção do fundo da imensa garganta. Até que, somente lá no fundo, finalmente as vi.

Mil tubos de um órgão telúrico proclamavam ao céu o poder das águas, que se despedaçavam em um pulvísculo de cristais variegados, criando arcos iridescentes entre os véus de noiva de centenas de pequenos jatos e mergulhando-me na brisa aveludada de espirros residuais. A "garganta do diabo" fechava um lado daquela bolja dantesca, multiplicando o eco da sarabanda de inúmeros estampidos. Quis sentir aquela sinfonia na ponta da passarela que levava dentro da subsultante cavidade.

Admito-o. Comecei a cantar, ou melhor, a gritar. Sem qualquer reserva, com a certeza de que ninguém teria prestado atenção em mim e talvez nem ouvido meus desafinamentos. Uma alegria explosiva me jorrava do coração como as águas que brotavam pelas rachaduras das rochas. Eu estava sozinho diante daquele mundo primordial, sem escopos nem sonhos.

Voltei reconfortado ao meu Landau. Agora eu era outro homem. Começava o resto de minha vida.

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