A Garganta da Serpente

Felipe Moreno

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O último tiro

(Felipe Moreno)

Havia pouca luz na ilha de vídeo. Embora fosse um dia bem claro, ali, naquele cubículo forrado por material acrílico uns poucos monitores compunham o cenário, a maioria deles apagados, uns três acesos, com as imagens trocando de posições como se ali estivéssemos na reta final de um grande prêmio de milha.

Um rapaz meio calvo e de barba rala está sentado numa cadeira giratória e operando sobre os aparelhos de vídeo as chaves que fazem dançar aquele show de imagens em troca-troca. Num monitor, um velho com pinta de playboy fala para uma câmera; em outro, um vulto surge estranhamente e retira de seu casaco um 38; e no outro mais central, outra vez o velho playboy, só que agora de pé olhando à sua frente, quase que congelado. Um estampido vibra ali, e o velho vai caindo como se fosse um muro sendo implodido.

O rapaz está ali de frente para os monitores, e então pega o aparelho telefônico e começa a digitar um número. Os monitores começam a se apagar, e a escuridão agora prima ali no ambiente, rainha da situação.

O tom rouco e caucasiano de uma voz irrompe através da linha telefônica:

"Sim".

Silêncio. As imagens voltam a surgir no vídeo: o velho playboy erguendo-se de uma cadeira em um estúdio de gravação, e no outro monitor, o mesmo vulto surgindo e tirando uma arma de um casaco.

"Alô"!

"Doutor Alvarenga Murtinho"?

"Sim"?...

'Queríamos lhe agradecer, doutor... A sua entrevista foi um tremendo sucesso"!

"Ah! Vitor Cruz da TV Satélite? Muito obrigado. Eu que tenho de agradecer pela oportunidade. Quando vai pro ar? Olha, pra mim foi um tremendo prazer mesmo. Pode acreditar".

"O senhor está no ar agora".

"Agora"?...

"Certamente o senhor tem uma tevê na sua sala né, doutor"?

"Sim, sim, estou ligando. Que canal mesmo"...?

"Três. Foi um sucesso, doutor! Estamos recebendo muitos elogios aqui no estúdio".

"Obrigado, Vitor, obrigado".

"Não é o Vitor não, doutor. Conseguiu sintonizar"?

"Olha, não estou vendo nada... Quem é que está falando"?...

"E agora"?

"Ah sim... Sou eu me levantando no final da entrevista"...

Um silêncio momentâneo é interrompido por um estampido de tiro no vídeo, em que doutor Alvarenga é atingido e desmorona lentamente.

Na sala do doutor Alvarenga, ele parece estarrecido. Acabara de assistir a uma cena mórbida, o seu assassinato na tevê. O vulto assassino correu rapidamente através de uma porta e desapareceu. Alvarenga quase de instantâneo voltou ao telefone e perguntou o que estava acontecendo, o que era aquilo. O silêncio imiscuído a uma respiração pesada, mas agora com fundo sarcástico, o apavorou e ele reagiu:

"Quem é você? O que quer?"

"Fale baixo doutor".

"O que quer? Fale"!

"O senhor prestou bastante atenção nas imagens, doutor"?

"Você vai dormir! Eu não tenho medo de ameaças"!

"Escute bem, doutor".

"Como fez isso, pilantra? Por quê me matou?"

"Quero três milhões. Traga aqui, na emissora. Daí que o senhor só assiste à entrevista".

"Vigarista! Eu vou te matar, desgraçado"!

"Retire o dinheiro, doutor. E tudo morre aqui".

"Quem vai morrer é você! Espere-me!"

"Não venha pra cá sem o dinheiro, senão"...

Doutor Alvarenga pulou da cadeira. Seu joelho direito acertou a quina da mesa e ele gritou, penosamente. Uma maçaroca de emoções odiosas agora lhe oprimia a lucidez, a clarividência das coisas. Apenas um ponto de luz escurecido ele via fruto da pungente dor que se misturou à raiva que o dominava por inteiro. Sentiu o coração bater descompassadamente, e, num momento, quis até parar, mas articulou-se, algo rebelde, sem lei, corajoso.

Ele se levantou mancando, pegou uma chave de cima de sua mesa. E, antes de sair, parou à frente da tevê e ficou vendo a imagem de sua morte, em replay, como se fosse a pedidos.

Na ilha de vídeo, as mesmas imagens estavam sendo reprisadas no monitor central. Um risinho mordaz em meio a semipenumbra do ambiente dava um ar ainda mais estarrecedor à cena. A imagem do tiro acertando Alvarenga no estúdio passava em um, em dois, em três monitores, simultânea e seguidamente, quase que num caleidoscópio, como o era também agora o volume da risada ali dentro da ilha.

Quando o rapaz parou de rir, já havia se passado bem perto de três quartos de hora. Foi quando ele olhou para trás e viu a figura do velho Alvarenga ali parado, músculos contraídos, expressão de dor, com uma arma na mão direita e a esquerda sobre o coração. A comunicação entre eles acontecia de forma meteórica, eletrodótica. Uma palavra a mais seria luxo aquela altura. O movimento seguinte foi concomitante a um ruído de desabamento. E ossos aos estalos, ruindo, quebrando o gelo. O silêncio e a morte carnal. E uma mão de velho colada ao coração, que se antecipara a um último tiro.

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