A Garganta da Serpente
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Do nascimento à fábrica

(Fabiana Miraz)

(Ao Maurício,
Dos olhos de anis e pistache,
Que desafiou-me a escrever um Memorial!)

Nasceu do sangue, placenta, gordura com muitos cabelos, testa estreita e um "bom pulmão". A mãe que tremia no leito hospitalar, líquidos e químicas, lhe dava pena e receio. Medo, por ter feito sofrer a sua outra parte, aquela que permanecia viva apesar de descolada, falava e se mexia e não pertencia mais a ela.

Fome dolorida. No berço era só silêncio e complacência. Silêncio e obediência. Depois que os olhos puxados e miúdos da índia mexicana se abriram para a casa e o carinho seguro da mãe, foi feita a metamorfose, quase calada, de sua aparência. Os olhos enormes como de corujas agourentas seguiam a mãe enquanto sugava o leite melado, doce aconchego que merecia o desdobrar dos nós dos dedinhos. Meses se passaram em meio às mudanças lastimosas dum crescer dolorido e choroso, desses que se perdem nos remotos movimentos nublados das articulações, nas angustiadas assaduras, no latente inchaço das carnes. A memória dos primeiros descobrimentos de dor e alívio, prazer e irritação ficaram encubados nas células para poderem se libertar no momento da sua morte.

O sabor insosso da pasta de batatas, cenouras, chuchus, abobrinhas e o doce suave das maças, peras e bananas amassadinhas com açúcar lhe deixavam ansiosa ou fatigada. Os joelhos dobravam por cima das pernas, a barriga estufava, as bochechas tornaram-se duas almofadas de seda bege-rosado cravadas por dois botões, dividindo-as no encanto da robustez. Fazia com os números dos dedos as idades, concordando com o aprendizado de inutilidades que satisfazem os pais e arrancam ais e suspiros de estranhos. Poderia sentir-se bem com os aplausos ou banalizava-os com a perspicácia daquele saber abandonado por todos, na pele morta da infância-prima. Febres, vômitos, incômodos-cômodos, desejos nunca mais possíveis de se desejar. Os primeiros passos, quanto desespero e insegurança sorridente, agitação muda e choro profundamente contido. Emoção. Emoção-comoção e medo do desconhecido e do conhecido, assim como o mar a primeira vista, o molho vermelho do macarrão, o azedo da limonada, a gulodice dos lanches à beira da piscina redonda e o girar segurado no braço da mãe ao redor das circulares janelas do submarino azul de lona plástica, o aperto dos cães e gatos junto ao peito, o primeiro contato com as brigas dos homens. O medo das pessoas conhecidas. Do gigante que mudava de cara pelada para cara peluda e a assustava: pai.

As pernas compridas e magras, joelhos exagerados e ossudos. A escola e as letras de forma. As massas de modelar e as calças jeans justas, os óculos vergonhosos. Dias de sol na rampa da casa daquela mulher misteriosa. Respeito e admiração. Do trabalho com os panos, a senhora dos óculos gigantescos e cabelos desmaiados, fazia a fantasia. O cheiro das fitas quando se abria a pequena caixinha de costuras, na tampa de trançados de palha de milho umas flores cor-de-rosa e amarelas, talvez um vermelho fraco e azul pálido. Inúmeras miudezas delicadas existiam naquela caixa. Observava. A máquina de costuras que se pedalava como bicicleta, o dia todo enquanto a menina dos únicos cabelos pretos brincava com as duas outras e uma sua companheira de quarto, mais velha.

A expectativa maior era quando a mesma mãe, das mãos estendidas, permitia o sono na casa dos cheiros e sabores penetrantes, dos olhos raros, de olhar demorado da altiva e ocupada senhora das fitas. Chegava às seis horas a outra mulher, das brincadeiras, e punha as quatro meninas num colchão enorme e ensinava os agradecimentos pr'um Deus que tinha uma Fábrica mais difícil, de bonecos menos perplexos do que ela. Ligava depois o rádio, quantas vezes aquele menino da porteira participou dos sonhos, tamanha repetição. O amanhecer era mais bonito do que olhar a noite através do vidro da porta, a sensação de imensidão do mundo e a quentura do cobertor da casa mágica. Na manhã tudo voltava ao comum senso de realidade infantil: rápida, ligeira. O leite e o pão. O melhor era a forma como era cortado o pão. A avó das costuras o cortava em tiras, das tiras aos cubos, nos cubos o requeijão cremoso que prazerosamente nos dirigia à boca. O cheiro do fumo de corda que o avô cortava á tarde, com paciência anciã. O dia das máscaras de carnaval! A tia das músicas e das brincadeiras, com papéis brilhantes de textura enrugada, ondulada, plissada, papelão e perfeição. Chuva e samba na varanda de piso vermelho e portão baixo e branco. Roupa cor de rosa suave como cortina de vual.

Certa vez, o cara das barbas mutáveis plantava no jardim, e uma gôndola amarela de franjas esvoaçantes parou sobre o chão da varanda e convidou a menina pr'um passeio. O balanço enjoativo permaneceu por alguns minutos até que a menina percebesse o seu intento. Depois não sentiu mais desconforto. Avistou um castelinho de espumas. Apesar da porta pesada e fofa, entrou e nunca mais de lá se esqueceu. Tomava a gôndola quase todos os dias, para trabalhar numa Fábrica de Bonecos.

A miúda vitrola portátil e discos pequenos, grandes e coloridos preenchia as tardes enfadonhas das irmãs inseparáveis. Caça às borboletas com rede de peixe de aquário. Na hora de dormir a medrosa corujinha pedia para ser posto entre a porta um chinelo pr'uma fresta de luz espantar os demônios todos do quarto.

Ninguém jamais soube que existia tal Fábrica, onde a menina trabalhava dia após dia numa incessante construção de inúmeras cores, músicas e sensibilidade escondida.

(30 de março de 2005)

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