A Garganta da Serpente

Felipe Moreno

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Guerrilha de vontades

(Felipe Moreno)

EXTERIOR DE PÁTIO DE COLÉGIO. DIA.

Recreio. As brincadeiras correm a todo vapor.
Meninos e meninas brincando separadamente.
Era digamos uma separação involuntária. Na escola Sky Children, a norma principal era manter meninos de um lado e meninas de outro. Mais que prevenção, era uma maneira de detectar modelos de comportamento particulares a cada um, buscando com isso implantar métodos pedagógicos específicos e diretos.
David Macau era um garoto de uns oito anos de idade. Filho do diretor da escola, Alan Macau, usava de malícia para aprontar com o grupo das meninas, que, nesta manhã turquesa em cima e dourado em baixo, brincava de pular amarelinha num dos cantos do pátio.

- Parem aí de pular, suas tontas!
O silêncio. A alma do esperar subitamente ganha altura e de cima reflui sobre aquele pequeno universo de rostinhos espantados sua aura de suspense.
O colégio estava estabelecido em um campo belíssimo, amplamente arborizado com várias espécies de orquídeas e petúnias. Uma promoção gratuita da vida encantada da natureza.
Mais abaixo, sob as copas de barbatimões floridos decorando a passagem para o pátio da escola, estão vindo Alan Macau e a Inspetora Rose Tâmara.
A passos lentos sobre folhas secas, conversam. A voz do homem é a primeira a ser captada.

DIRETOR: -Tenho por mim que estamos no caminho certo, inspetora Rose. Prefiro ver esses meninos e meninas em harmonia desta forma, a recebê-los na minha sala para uma suspensão coletiva.
INSPETORA: -(Rindo contente) Motivo de grande satisfação, doutor Alan. É bom ver como eles têm reagido às novas normas da escola, posso dizer que superaram quaisquer prognósticos.
DIRETOR: - Melhor mesmo que saibam que estão vivendo sob o olhar de uma democracia desde muito cedo.
INSPETORA: -O senhor disse democracia, doutor Alan?! Palavra perigosa... A hegemonia, sabe, é a pior ditadura que existe.
DIRETOR: - (Divertido) Espera. Uma fuga em massa para a construção de um novo planeta ou um outro regime de influências, inspetora...?
INSPETORA: -Examine, doutor Alan, se realmente não estamos exigindo que haja uma via de mão única para o futuro dessas crianças. Se surgir o império da imposição da liberdade de ação como estado de direito, vamos estar impregnados de leis livres sob as quais poderemos agir livremente tudo em nome da liberdade de direito. Nada terá fim.
DIRETOR: -Mas não é isto que queremos? Ficar livres do fim?
INSPETORA: -Ninguém suportaria uma liberdade de conduta sem o mínimo de oposição. Que políticas poderão prosperar como sendo razoáveis sob a dependência do capital democrata que o próprio regime abocanha?
DIRETOR: -A democracia para existir necessita ser assistencialista.
INSPETORA: -Não subestime a hegemonia, doutor Alan. Forças idealistas monstruosas aparecerão em maior número e com muito maior propriedade. Podemos perecer sob uma disputa de super-homens livres cujo maior mérito será a vanguarda de suas ideias de liberdade e poder. E vale lembrar que, na verdade, a liberdade e o poder são os dois hemisférios de uma terra chamada sociedade.
DIRETOR: -Acho que uma sociedade livre para as nossas crianças, inspetora Rose, é indício de felicidade não acha?
INSPETORA: -Liberdade demais cega para novas descobertas, doutor Alan. É preciso saber ser livre de ser livre, para não enfurecermos os deuses com a nossa distopia de certezas, que muda a todo o momento entre a nossa vontade, emoção e razão.
DIRETOR: -A olhar deste modo, vejo que está a supor que devamos então interromper tudo isto de bom que estamos fazendo aqui nesta escola...?
INSPETORA: -Dicotomia pedagógica entre sexos? Não sei. Só sei que a maior bondade com os outros é reconhecer que não sabemos os cursos por onde passa o rio de todas as formas de conhecimento e solução de problemas.
DIRETOR: -Mas as nossas crianças saberão, inspetora. Elas seguirão para o futuro levando a carga de energia de sua própria conduta de ser, menino ou menina. Não lhe parece razoável formarmos Homens e Mulheres de verdade, inspetora Rose?
INSPETORA: -Razoável seria viver todas as liberdades possíveis, até mesmo as das crianças. Mas como vivemos de influências libertárias, isso não é possível porque queremos saber para que lado elas se inclinam. A sociedade humana ainda tem muita vergonha de que seus sentimentos fiquem a descoberto e ao sabor das qualificações alheias. A moral é a besta do Homem.

Há sentimentos que nos obrigam a calar e a pensar. E a sentir, claro. A ponta da faca da consciência que vem e faz com que o espírito pare e compreenda sob o látego da percepção maior que abre os olhos da verdade ao mesmo tempo em que empurra inúmeras outras janelas de luz para obscurecê-la em seguida com nuanças de mais entendimentos. Dor real, cerebral. Parte do cérebro que se acostuma com o afastamento, com o descostume de aparecer nos momentos que precisamos de compreensão maior para não cometer ato nenhum. Uma luz apenas. Maior, de cima para baixo.

-Olhe pro sol, bobão. Em vez de estragar o nosso jogo. Uma hora ou outra, paspalho, esqueço que você é filho do diretor e aí...
-Você vai parar lá na quadra de basquete, imbecil.

David Macau era maldoso. Maldoso no sentido de fazer sempre uma coisa que não era desejável pelo sofredor da ação. Nem por isto se furtava de o fazer.

Sua expressão de desentendido era tão ostensiva que as meninas ficaram ainda mais fulas.

A alma feminina era mesmo difícil de entender desde pequena, ele pensou. David viu as meninas se afastarem do seu foco de atenção ausente - porque só estava focando com os olhos e não pensando naquilo que via - e pousou sobre aquela. Aquela que era o anjo mais gracioso da escola. Ele a maltratava porque a amava. O horóscopo dela pedia.

-Gêmeos: dois lados da mesma pessoa. Gosta de amar e odiar. É doce e amarga. Gosta de ser amada de modo não convencional. Então, tô certo.

Ruído de folhas secas sendo esmagadas. Um canto caótico de crianças correndo em leque. O ar ficou rarefeito parece.

 

EXTERIOR DA ENTRADA DA ESCOLA. DIA.

Uma menina de 12 anos surge de forma apoteótica. No olhar, a sanha da estrela da maldade. No lado posterior de sua cabeça, uma voz conduzia a ação:
Era obstinação minha, Deusa, porque detestava que me chamasse de Neusa - meu nome e nome de família feia que não sabia escolher um nome decente pra mim - dar ouvidos àquela ideia de vingança que ia e vinha em minha cabeça.
-Vai Rita; se ajeite aí direito!
Minha amiga era maior que eu, apesar de termos a mesma idade. Eu tava impaciente pra burro porque a hora certa que combinamos eu e Rita tava quase na hora. A hora certa tava quase na hora. Isto mesmo. Para bom entendedor, não precisaria ficar explicando muito.
Rita tava agachada e encostada no pequeno vão de medidor de luz ou de gás, e lá sei eu, quando olhou preocupada para mim.

-Ce acha que eles vão vir até aqui, Deusa? Porque tem horas que fico pensando muito se...
- Pare de pensar, bobona! - cortei-a com raiva. -Qual é o teu problema, hein? Não sabe ficar quietinha aí concentrada em fazer alguma coisa de útil?
-De útil, Deusa? - espantou-se.
Rita era do tipo que pensava muito para fazer alguma coisa de útil. Vejam, ela não tinha nem certeza que era uma coisa útil o que ia fazer?
Fez-se silêncio. E já não era hora, viu? Pago para os momentos ficarem mais silenciosos, sem essa ranha de roedor para falar, como diz minha tia de Rondonópolis, que certas pessoas têm na língua para deixar a gente tonta, viu. Falam assim como se não tivessem nenhum simancol, nenhuma barreira na língua, na ideia, nas coisas da vida.
Era o caso da Ritinha. Fazia aquela cara de macaco idiota que, mesmo com ela na cara, estava sempre querendo gozar da nossa cara. Isto me deixa fula como diz minha mãe de Cerejeiras quando seu calo incha. Fica fula. Nunca vi isto: calo inchar. Mas, no caso dela, acho que inchava.
Recebi um beliscão no tornozelo por pensar tão alto assim. Ritinha olhou pra mim com a testa franzida e moveu o dedo em pézinho até a boca formando uma cruz: Schhh...
Os momentos que queríamos se aproximavam com aquela ranha da minha tia. Estava na hora de mostrar praquele fedelho que ele é um cocô de chiuaua.
Estávamos preparadas com a linha de empinar papagaio que peguei do meu irmão. Alfredo era doidão, coitado. Fazia tanta coisa que aposto que nem daria conta da falta do carretel de linha. Sei lá por quê me preocupo com essas coisas.
Estávamos prontas, enfim. Olhei pra Ritinha e ela fez um ruído com o canto da boca confirmando. Puxamos o fio até a outra calçada. Não dava para vê-lo, principalmente porque ali do lado da entrada do colégio tinha um bosque com folhas e plantas espalhadas. Era chegado o momento. Dei um último sorrisinho pra minha amiga. Ela retribuiu. Que graça!


Ruído de folhas secas sendo esmagadas. Um canto caótico de crianças correndo em leque. O ar ficou de novo rarefeito. A imagem da tropa infantil agarrando as pernas do diretor Alan Macau dava um colorido farsesco à situação. O susto que ele levara veio suspenso por um sorriso de carinho. Até beijou a criança que veio parar em seu colo.
O caminho estava livre agora. Alan segue em frente na direção da entrada da escola. No plano geral da cena, uma belíssima paisagem alviverde. O grupo de crianças recuou correndo para outro lugar.
O diretor queda-se de inesperado.

-Oh! Que desastre! Que desastre!

Risinhos femininos inocentes soam por ali.

No solo, estatelado, Alan Macau viu a armadilha que caíra. Nos rostos e nas mãos delas, a prova do crime.

DIRETOR: -(Assustado) Não posso crer que tiveram coragem de fazer isso comigo...?

Dois corpinhos correndo contra a objetiva aumentaram o susto do diretor, que se viu atacado no pescoço e na cintura. As meninas pesavam razoavelmente pouco, pensou ele depois do acontecido, mas, na hora, fora presa fácil da loucura daquelas duas meninas.

DIRETOR: -Me larguem, pestes! Me larguem!
DEUSA: -(Rindo) Boca de siri, seu Diretor.
DIRETOR: -Você, Neusa, vai ser a primeira a ir para a rua, menina dos demônios!
DEUSA: -(Brava) Não me chamo Neusa, seu Diretor! Meu nome é Deusa, ouviu bem? Deusa!
DIRETOR: -E você, Rita, se não me largar neste exato instante vou chamar o teu pai aqui ainda hoje. E você sabe que ele não suporta ouvir coisas suas aqui.
RITA: -Meu pai aqui?
DEUSA: -Larga de ser boba, Ritinha. Não entra na dele não...

Vozerio esganiçado aumenta de repente e...
O pelotão ainda com maior energia e sem aviso voa para cima do diretor Alan Macau, preso pelos fortes braços das duas meninas e com sua voz abafada pela algazarra generalizada.

 

EXTERIOR DO PARQUE DA ESCOLA. DIA.

David Macau vem caminhando, solitário por entre plantas e árvores.
Cabeça boa. Pra lógica. Sua lógica.
Ela sempre fica falando a mesma coisa. Não sabe que não gosto. Será que mãe é tudo igual? Acho que sim, porque tão sempre querendo coisas que não gostamos de fazer.
Fiquei meio triste, se quer saber. Essa coisa de cumprir as normas da escola. Coisas do meu pai, eu sei. Ele gosta; eu não. Faz com gosto: bota todo mundo na linha, como ele mesmo diz. Linha pra menino e costura pra menina. Elas que nos usam, entenderam? Não sei o porquê disso: botar todo mundo na linha. Vou dizer a meu pai que quero ser diferente. Que quero botá pra quebrá! Em vez de botar todo mundo na linha. Não tem graça nenhuma. Todo mundo fica de fazer a mesma coisa. Chato a pampa.
Tou meio arreado, como diz o meu amigo Fausto. Acho que é falta do que quebrar. Preciso falar com o meu pai sobre isso. Sei que vai dizer que eu só dou trabalho pra ele, faço tudo diferente, mas é melhor dizer que não quero fazer nada que seja nessa tal de linha que todos os meninos ficam depois que ele botou.
- Viborazinhas... Pegaram meu pai! Pegaram meu pai!
Que desgraça. Quando vi a cena, quase gritei para largarem o meu pai, mas senti medo de elas fazerem algo mais sério com ele. Meu medo me deixou com cara de choro, porque elas viram e se aproveitaram disso para zombar. Queria matar as duas torcendo o pescoço, que nem faz o seu Nobaru, o japonês dono da casa de frangos da minha rua com suas galinhas.
Mas foi outra ideia que desenhou uma mancha de sangue na minha frente, quando vi, na mão da Neusa, um estilete. O pescoço do meu pai aberto, sangue esguichando, eu me afogando, minha mãe chorando nós dois no cemitério. Um abutre pousa no meu caixão e fura ele querendo me acertar. Está muito escuro, e eu tô com medo, minha mãe chorando, meu pai sem cabeça. Um vento forte leva meu boné e eu corro atrás dele. Ouço as risadinhas delas, meu pai que nem um palhaço recebendo tapas pelo rosto, a cara de cacique abobalhado.
Sem perceber, tinha me aproximado deles, mas segurando uma vontade louca de correr, se fosse preciso. Olhei para elas e para o meu pai. Estava sentindo outra dor: na barriga, uma vontade de ir pro banheiro. Me segurava enquanto via aparecer um sorriso sacana nos lábios de Neusa. Até mesmo Ritinha se atreveu a dar uma piscada para mim. Vi um riso de palhaço na cara de meu pai e estranhei. Foi quando explodi. Explodi num choro rouco e queimador de orelhas. A raiva parecia subir da nuca para o cocuruto e eu parti para cima das duas meninas, como um touro louco. Nem percebi mais se meu pai estava ou não correndo perigo. Batia os braços em sincronia com a força que vinha do meu rosto vermelho. E chutava seguidamente tentando acertar o maior número de pontapés e socos. Sentia como uma avalanche de pontadas por todo o corpo, inclusive na cabeça.
De repente, uma outra avalanche me domina e me atira no gramado. Era o bando de crianças da escola que, numa espécie de revoada, vieram não sei de onde para cima de mim.
Fiquei sem me mexer por um tempo. Tudo conspirava contra mim. Tudo. Estava derrotado. Sem chance de lutar contra as normas da escola do meu pai. Sem conseguir matar aquelas titicas de galinha que estavam sempre a me derrubar. Sem nada a fazer, se não chorar.
O sinal tocou e toda a criançada saiu da escola. Meu pai ficou a ver navio. Foi a última imagem que vi. Acredita?



Fim

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