A Garganta da Serpente
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Origens

(Fernanda Lizardo)

Eu, Cooper, retorno às origens.

E eu estava naquela situação tão usual, mas que não vivia há algum tempo: ele à minha frente, conversando, mas deixando a tensão sexual gritar por todos os poros. Falando amenidades e pensando em todos os toques do mundo. Permaneci solícita, conversando sutilmente, mas sabia que era a situação mais adequada para manipular os brinquedos com os quais tanto me diverti. Ele era perfeito. Certo. Bem encaixado. Continuamos trocando palavras até o momento em que sua consciência finalmente desfaleceu e cedeu a tudo que eu sabia que aconteceria.

Ele se aproximou sutilmente, tremeu os lábios diante dos meus e ensaiou o beijo mais sôfrego que poderia dar em uma mulher. Eu continuei estática, aguardando sua ação. Ele o fez, decidido, aproximando-se mais e mais. Aquele foi o momento em que toda a fúria sádica da sedução que empreguei durante cada segundo de meus dias retornou, impetuosa e única! Afastei-me antes que ele pudesse esboçar um mínimo toque. Tudo que podia ouvir era minha respiração, que soava conscientemente ofegante para mim e excitantemente provocativa para ele.

Prosseguimos a conversa, mas com todas as insinuações do mundo, todas as excentricidades que uma conversa sobre sexo pode permitir... Ele esticou os dedos pelos caminhos de minhas coxas, desvencilhando a ponta do vestido e repetindo o quanto minha pele era macia, delicada... E, na ausência de carícias físicas ele buscava um modo de confortar a mente, beijando filosofias, lambendo o sistema límbico, estimulando o hipocampo... Uma masturbação puramente cerebral, uma compensação que ele mesmo não cansava de repetir, dizendo que o simples fato de estar ao meu lado justificava tudo, mesmo sem poder encostar qualquer ponto de seu corpo no meu.

Ele frisou minha sensualidade, ignorando até mesmo os dotes daquela que o esperava em casa, fazendo comparações quase injustas (quase) não fosse o fato de qualquer criatura ficar sob meu hour-concour. Constatação do óbvio.

Falamos, falamos, falamos, insistindo até que sua mente gozasse e seu corpo implorasse por algo, como a abdicação do amor platônico pelo sexo real e afetivo.

Ele se aproximou, tentou beijar-me, insinuou-se; e senti o espírito alvorecer numa risada mais do que satisfatória, forte, cheia da confiança sacana que há tanto eu não exercia. E então decidi que nunca o tocaria porque, aquilo sim - como ele mesmo fez questão de afirmar -, me fazia Cooper!

Não aguentou... Esqueceu a ética, a classe; a cessão ao prazer unicamente mental deu lugar ao deleite mais primário de todos! Aproximou-se de meu ouvido esquerdo e expeliu (num gozo oral) a frase que eu mais queria ouvir: "Posso me masturbar para você? Não preciso te tocar, não preciso de nada. Quero apenas me masturbar te olhando, mesmo sabendo que você não arredará uma única peça de roupa!"

Não disse nada. Nem uma única palavra. Seu sofrimento manipulava meu clitóris. Torcia apenas para que meu silêncio soasse como um consentimento.

Ele era inteligente, apesar de contido, e entendeu perfeitamente que não me excitava por causa de seus lábios carnudos, mas por seu desejo reprimido. Erguendo um pênis (dolorido por aquela curta abstinência) tocou-se como nunca e eu sabia que era algo totalmente sincero, podia sentir, aspirar cada feromônio que flutuava no ambiente.

Antes que ele pudesse gozar, achei que era o suficiente e aleguei ser tarde. Ele não se incomodou. Considerava-se um privilegiado que taxaria aquela situação como pouquíssimo caso ocorresse na presença de qualquer mulher, mas sempre muito diante de mim.

É bom voltar às origens.

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