A Garganta da Serpente
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Réquiem

(Eduardo Selga)

Desce. Descendo...

A caixa metálica estaciona sem ranger, ao contrário das suas ancestrais movidas a cabos de aço e roldanas mal lubrificadas. Milagres da Santa Tecnologia. Entretanto, quando precisa parar um ligeiro solavanco ainda continua. Nada que anarquize suas mechas resplandecentemente negras tão bem produzidas durante as horas e horas de vaidade. Espelho, sei que a inveja de mim um dia ainda lhe mata, mas confessa: existe alguém mais do que eu? Uma voz digital, amabilidade irritante, perfeita imitação de mulher, ousa anunciar-lhe o completamente desnecessário: em qual dos centos mil pavimentos ela estacionada. Pois se o painel eletrônico da caixa já executara a tarefa, ao piscar luzes e acender setas, antes mesmo que a porta silenciosa se destrancasse em duas partes ou a voz falsamente feminina abrisse a boca!...

- Sei em qual das muitas antessalas do Inferno Center Residence eu estou, boçalidade! Economiza placa de áudio comigo. Esta voz de mocinha bem educada que lhe instalaram me mastiga os neurônios, se ainda não possui sensibilidade feminina bastante para perceber.

Nariz empinado, postura característica de quem se coloca acima e além dos outros, os alheios, pisa no corredor. Os pés elegantemente calçados. Estreita passagem revestida com as preciosas e raras areia branca e conchinhas, durante séculos, dizem pesquisadores, muito comuns na Superfície em acidentes geográficos batizados "praias". Como teriam sido? Enquanto permite-se imaginar, a alma ganha algum calor. Por vezes, dias em que menos algoz consigo mesma e com outros em sua órbita, flagra-se. Interrogações densas, filosofias... É quando a anêmica fagulha do humano que ainda lhe habita ameaça enfogueirar labaredas altas como penhascos, o que significaria seu exílio profissional, caso não as apagasse. Mas, sempre ótima aluna das técnicas utilizadas na degola dos Sentimentos-Retrocesso, ilegais na Sociedade Pós-Sobrevivente. Portanto, sufocar-se para continuar sufocada no Ofício pelo qual nutre especial nojo: Mãe-Aluguel de pirralhos que nunca foram filhos seus. O que se há de fazer? O ordenado ao fim de cada trinta Dias Laborais justifica tudo.

Onde a necessária disposição para caminhar corredor afora até o apartamento? Nenhuma. Bem ao contrário. Aquela reta quase infinda, arenosa, trinta e oito graus, desiluminada... Enche os pulmões. Infla as bochechas, expulsa o ar. Caras e bocas. Profundo tédio, por rediviver as cenas de todos os dias daquela vidinha pardacenta, insípida. E ainda a obrigação de marchar léguas naquele beco até o cubículo, três cômodos cedidos pelo Estado enquanto me mantiver cem por cento produtiva no Ofício?! Necessário apaziguar a negra e umbilical revolta, nunca se habituara ao feroz calor do subsolo. Algum bicho, para viver entocada? No entanto, fazer o quê? Se inconfidência é pena capital!... Melhor abrir e revirar sua bolsa à procura da tranquilidade perdida durante um dia qualquer no passado, na amaldiçoada floresta do cotidiano. Batom, não; preservativos... como é mesmo sentir desejo ?; absorvente... mas o sangue do mês já escorreu, estou seca; fragrâncias para o corpo... presentear-me deliciosa para Seu Ninguém, raros homens se conservam viris num mundo cuja tísica taxa de natalidade é dogma divino, salvo-conduto para o Nirvana, e relações sexuais apenas se o Estado expedir a Autorização Para Um Orgasmo De Casal Estável Por Quinzena? Aqui está! Desliza suave a escova, ondulado e brilho. Movimento brusco, todo o cabelo para a direita, o mesmo ódio de sempre se faz imortal. Lombriga famélica. Por entre as pernas, embrenha-se. Devora-lhe as entranhas e encontra guarida no coração, muito além de simples músculo estriado que pulsa e pulsa e pulsa e pulsa e pulsa. É um verme, tanto ódio. Desde quase sempre parasita sua alma. Mas até que ela gosta. Às vezes é doce o fel que, volta e meia, volteia-lhe no céu da boca.

- É vida de gente tamanha fadiga, todo o dia?! Ainda preciso vencer quilômetros e areias, corredor do Cão, antes de chegar ao compartimentozinho mil setecentos e dezessete... Subdividido em cômodos, até parece uma residência.

No fundo da sala, cortina veludo se abre. Recolhe-se aos bastidores. Ele surge do quarto e espera os aplausos, que não se fazem presentes. Inexiste plateia. Antes de executar ao piano a eterna música, antigo réquiem grotescamente composto por seu pai até certo dia vivo, veste farrapos sebentos em torno do pescoço, arremedo de cachecol para protegê-lo contra os suores frios. Supostos ou reais? Irrelevante. Perseguidores inflexíveis, eles. Iguais a praga de mãe quando mortalmente ferida em seu amor por um filho ingrato. É tanta a febre... Tanta!... Os quarenta graus, pouco mais ou menos, nunca abandonaram por completo seu corpo irresistente, seu corpo-graveto, cupinzeiro de moléstias. E alucinações todo o santo dia. E ainda piores nos dias consagrados (embora o Código tenha varrido as sacralidades do Calendário Oficial): manifestam-se em horários regulares. Às seis, doze, dezoito e vinte e quatro horas. Pontualmente. Sem atrasos, nenhum segundo. Muito mais intensas quando os festejos de São Lázaro, ocultos porque proibidíssimos, se aproximam. Hoje é um dia assim. É quando ele enxerga num dos vértices da sala, o velho nigérrimo. Banquinho de madeira, cachimbando, sorriso sem dentes, o vira-lata sempre à direita, deitado, esquálida companhia. A projeção de papai no futuro, se no futuro ele houvesse? Acaso vivo, humor e inteligência ainda seriam o mais belo desenho de sua personalidade? Não merecia ter sido suicidado, mas... apenas os covardes, como aquela mulher, se qualificam para a sobrevida nesta galeria de esgotos que é a Sociedade Pós-Sobrevivente. Justiça! Estivesse a um preço razoável eu a compraria às dúzias, para guardar no bolso em caso de uso imediato! Papai... estradas ainda a me ensinar... Persigna-se durante o lamento surdo, os olhos para cima como quem procura estrelas, planetas (não necessariamente habitados, porém mais humanos), respostas. Mas o teto do apartamento, eis tudo o que há. E nele o pai. Suspenso por uma corda no pescoço quebrado, nó carrasco, o chorume pingando do corpo ao soalho, fetidez. Papai! Gostaria ele respondesse, embora saiba há muito: o cadáver insepulto compõe a decoração, móveis e utensílios, ativo imobilizado. Excentricidades da mulher.

Antes de maltratar o piano, o mesmo rame-rame que o instrumento não aguenta mais ouvir, antigo réquiem grotescamente composto por seu pai até certo dia vivo, acomoda-se na banqueta, fixa o interminável olhar arregalado no preto e branco das teclas, algumas em silêncio, implorando conserto. Que jamais. Por longos minutos, a indecisão: destruir mesmo as várias teias que as minúsculas aranhas edificam entre o instrumento musical e as carnes necrosadas do pai? Melhor não, como se nem estivesse vendo. Meu tempo é substantivo, concreto demais para desperdiçá-lo: estes bichos cheios de pernas sempre reconstroem suas tapeçarias para enredar insetos, rigorosamente idênticas às anteriores, mesmo projeto arquitetônico, quando demolidas. A fumaça, nuvem fétida, cachimbo do velho, flutua e dança, bailarina no ar. Ocupa o território recanto da sala, fantasmando Ascende e faz acender os archotes fixos nas paredes vermelhas. Ainda mais quente o inferno doméstico, agora. Nem por isso seus calafrios ardem menos. Os delírios tampouco. Ouve comigo, preto! Mais uma das minhas certezas intuitivas, você as conhece bem. Distante ainda, mas com certeza um par de sandálias esmagando as areias do corredor; cabelos em ondas inquietas na percussão exausta dos passos; no íntimo... vê, preto... um sentimento, que é caverna e frio, rasgou trincheiras dentro dela. É ódio. Coisa antiga, raízes profundas... É ela! Só pode ser! Você está rindo do quê? Não é o desvario das dezoito horas, estou realmente ouvindo a mulher. Cale este riso banguela! Apenas mantenha a fumaceira, as tochas acesas... Nós sabemos que estamos os dois aqui para preservar o corpo da necrose. No entanto, ele continua a se decompor, e a cada dia mais!

Polegar esquerdo, dispositivo ótico. A porta corrediça se abre, velocidade quase nenhuma. À sua fisionomia de mulher linda e sequestrada pelo ódio, que é enormidade e sem disfarces eficientes, parasita-lhe as entranhas, junta-se a pressa: acaba de brotar, onde o corredor é início, lá atrás, mais um dos inúmeros ciclones subterrâneos. E ele grita e corre, e ele voa, ferocidade. Movido pela mais negra fome: engolir domicílios já agonizantes. Para depois regurgitá-los.

- Quer outra vez tumultuar-me o cabelo tão bem desenhado, ordinário? Pois hoje você vai saborear um fracasso. A porta já abriu, até outro dia. E é inútil permanecer aqui fora, assoviando feito assombração. Tenta novamente amanhã, quem sabe melhor sucesso?

O mesmo cenário incômodo, há meses repetindo-se, como um videoteipe cansativo. Fecha apertado os olhos para desenxergar, ambas as mãos pressionam o rosto (talvez, assim, a cabeça exploda para sempre), os dedos escorregam, esticando a pele, danificando horas de maquiagem. Tons suaves num esforço inútil em mascarar o espírito medonho. Fazê-lo parecer agradável. Existe um desânimo, um cansaço sem trégua, arremessa longe a bolsa. Coragem bastante para tal, arremessaria também a vida e suas intoleráveis responsabilidades. Estivesse no quarto, oceano de boas solidões, renunciaria. Sua carcaça ao colchão e chega! Agora só amanhã! Inteligentíssima saída, aplausos para mim! Se no dia seguinte vou protagonizar o mesmo circo mambembe de hoje, de ontem, de anteontem... Solução pra mim, cadê? Pressiona-se contra uma das paredes vermelhas, deixa-se escorrer lentamente, alguém me autorize a morte! Quer o corpo o chão adentro, semeadura, para, quem sabe, broto, renascer. Impossível: o piso é a mesma areia abrasadora e não movediça do corredor. Mas calma... segura o leme das emoções, eu. Amassar o vestido por uma fraqueza humana qualquer? Em tempo nenhum! Antes fingir a agonia está desacontecendo, o prejuízo é menor. Recompõe-se às pressas (nem por isso o ânimo lhe diz palavras de coragem), embora o grito (é choro, é infelicidade, é miséria) sempre amordaçado, continue a rasgar-lhe a dentadas o peito. Acalme-se... Que mulher de fibra sou eu? A posse total do menino pelo Governo, a Libertação, está praticamente. Faltam poucos dias. Uma vez entregue ao Birô de Labores e Ofícios da Sociedade Pós-Sobrevivente, e após o Rito de Passagem Para o Mercado... regressa duma longa ausência a alegria de ninguém morando comigo, tal qual sempre quis depois que ele nasceu! Ou foi expelido de mim, melhor dizendo.

O filho, mesa da sala, numa cadeira tão fatigada que ranzinza (murmura rabugices ininteligíveis quando alguém descansa o corpo sobre ela), próximo à parede do fundo, tão vermelha quanto as outras três. O filho. Vagueia o olhar pela casa, perdido, sem definir órbita, até estacioná-lo na capital do seu planeta particular, o teto. Num caquético candelabro que, osteoporose e cego, não cumpre suas funções. Seu filho. Em tempos idos enlouquecia-lhe os nervos aquele garoto liquefazendo-se em lágrimas, um tal de enxergar e sentir a ausência do pai. Hoje ainda a irritação, porém menos.

- Muito interessante o teto, filho?

- À vontade, Nascimento. Afinal, esta casa lhe pertence. Minha existência aqui, sou um fardo desagradável para você.

- Curioso como lhe é difícil...

- Tratar-lhe pelo título "mãe".

- É. Sabe perfeitamente acabei de chegar do Ofício, mas finge indiferença, sequer me cumprimenta, olhando para esse teto como se eu nunca em sua vida.

- Verdade. Sobretudo com os calafrios que sinto, apesar do cachecol.

- Enriqueceria o diálogo se falasse coisa com coisa. Que calafrios? Que cachecol? Delirando outra vez, igual todos os dias... E tira os olhos desse candelabro inútil. Precisamos...

- Conversar? Mas não é um amontoado de lâmpadas, ainda que lhe desgoste, já disse. Estou observando o corpo enforcado de papai, morto por você.

- Não há ninguém suspenso no teto, filhinho ridículo da mamãe... Além do mais, foi suicídio, conforme a perícia...

- Induzido pelas mágoas que você lhe impôs, nós bem o sabemos. E chega de palavrório estéril, pedradas que não atingem janela. Vê os archotes acessos? É o sinal. Preciso tocar no piano o réquiem escrito por papai.

- Archotes? São arandelas nas paredes! Piano? Nunca tivemos nenhum! Por isso, às vezes, me pergunto o motivo pelo qual não lhe abortei quando tive a chance. Mesa! Mesa é o que existe em sua frente! Entendeu, maluco insuportável?

- Esquece a tentativa de me enlouquecer... Aí ao lado... O preto está rindo de tanta insistência.

- Isto aqui?! Ora, não passa duma velha escultura... Horrorosa, inclusive. Representa um homem sentado, nada além! Definitivamente você não está no seu juízo. De amanhã em diante sua loucura terá nova morada: o Instituto Oficial de Desajustados Sociais, lá em cima, na Superfície.

- Imagino terei assegurado meu direito ao corpo de papai e ao piano, Nascimento.

Só então resolve desviar os olhos, fixos todo o diálogo no cadáver putrefato, para conceder migalhas de atenção àquela mulher distante, cuja importância em sua vida, se um dia a teve, evaporou-se. Sentada quase próxima à porta, areias e conchas da sala, senhora de palavrório oco. E vê, nitidez inconteste, o velho levantar-se. Penosamente, arqueado, o cachorro por companhia, cachimbo e fumaças, arrastando-se em sua direção. Soslaio seca-pimenteira. No canto da boca um sorriso leve. Levemente malicioso. Mas ela, o alvo, nem percebe. Gesto súbito, o homem desamarra o pescoço da corda, pula, firme no chão. Cadáver e filho se abraçam, enquanto o preto faz um sinal-da-cruz. Os anjos abençoem um carinho tão fraterno.

- Nascimento?

- Sim, filho.

- Aconselho levantar-se. O ciclone vai engolir sua casa. Está aí atrás da porta, faminto, só esperando. Pela fresta, por baixo, ele entra. Abre caminho pela areia.

Destruição em segundos. A ventania impiedosa. Morre a guerra mascarada, não totalmente confessa entre os dois. E nem foi preciso executar o réquiem. Morre a convivência feita de palavras ásperas, que nasceu no dia em que o pai dele morreu. Ou suicidou-se?

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