A Garganta da Serpente
  • aumentar a fonte
  • diminuir a fonte
  • versão para impressão
  • recomende esta página

Oferenda

(Eduardo Selga)

Uma miséria de sol recém-nascido invade o quarto como quem receoso. Ilumina, feixe de luz retilíneo e estreito, o colchão pelado e encardido de tanta sujeira, de tantos líquidos íntimos. Escorrega. Passeia alguns metros do piso em madeira vagabunda. Os olhos arregalados no rosto daquele cadáver a gritar socorro, velas vermelhas e muitas, e muitas de luminosidade tão rija que nem mesmo tremeluz. Porque o oxigênio, masoquista, parece amordaçar sua própria respiração, temeroso em se mover. Uma garrafa aguardente pela metade. Alpinista, escala a porta da geladeira mastigada pela ferrugem. Cumprimenta o infalível pinguim, cujo habitat natural são as casas sem posses. Mete os peitos num estilhaço do que certo dia, certamente longínquo, foi espelho nalguma parede. Resultado: seu reflexo, irmão gêmeo, navega o ar na velocidade da luz até atingir em cheio o penico ao pé da cômoda. A réstia é mínima, mas consegue iluminar algum amarelo da urina de anteontem. Há um silêncio tão túmulo que nem os ratos da casa, de ordinário barulhentos, felizes ao roerem a boca do ânus e o ferimento daquele corpo, ousam romper. Baratas passeiam, curiosas, por toda a extensão da imagem sem cabeça duma santa indefinível, em pé sobre o criado-mudo.

O sol é uma miséria tamanha que nem mesmo consegue deitar luzes em tanto sangue escorrendo pelo rasgo escancarado por obra da ferocidade da lâmina. Do pomo-de-adão ao pênis dele, falecido ele. Em decúbito ventral. Ignora, também, o pescoço da santa sem identidade, de onde ainda mais sangue brota. Contudo, são mares vermelhos que não se abraçam: cada qual desemboca em pontos diferentes do esgoto, que corre livre e risonho sob o soalho do barraco. Não percebe (às vezes a luz solar se comporta aparvalhada) as lágrimas e os choramingos sinceros das tábuas que se pretendem paredes do cômodo único. Lacrimejantes porque anos e anos de convívio produziram uma amizade cúmplice pela vítima, de quem muitas vezes ouviram sonhos os mais comezinhos sendo implodidos, tristezas íntimas, palavras revoltadas com a vida, confissões de pensamentos inconfessáveis.

Paupérrimo sol... ralo e cego, não enxerga na casa um personagem fundamental, recostado no marco da porta desabotoada. Incômodo e asco, mas o semblante tranquilo como quem é paz na alma. Deita olhar e sorriso perversos sobre o corpo praticamente nu. Não fossem a gravata preta e os sapatos belíssimos, ingleses.

Chuva esquálida. Vento gelado, navalhando a carne até atingir os ossos. A prostração e a dúvida gritavam-lhe ouvidos adentro frases de ir embora, adormecer um sono mais cedo e tranquilo. Palavras de renunciar ao expediente daquela noite. Que dinheiro freguês compensaria o esfaqueamento pela friagem? Ouça-me, rapaz: você, calção curtíssimo para sublinhar o volume natural de sua ferramenta de trabalho, camiseta moldada aos músculos, essa maquiagem andrógena, os olhos flechando com a mesma sutileza de qualquer rameira de quinta categoria possíveis clientes... Seu dia na noite de hoje, convença-se, é perdido. Observe em volta. Enxerga a cotidiana manada de prostitutos no calçadão da praia? Nenhum colega de ofício por muitos quilômetros. Minto? Houvesse, ao menos, um ou dois trabalhando os clientes na cama... Mas... hora dessas... o início da madrugada a remover o cadáver da noite morta de sono e frio e cansaço... certamente os outros todos estão no sétimo sonho. Eu sei... eu sei... a necessária verba para sua cocaína diária, dosagens cada vez maiores; está sem munição a garrucha reumática que você usa nas noites de revolta insuportável para assaltar, na alcova, senhoras e senhores com muito mais bens do que precisam para existir para viver; as roupas novas e perfumes maravilhosos que você insiste em ter sempre... Mas hoje?! Esqueça. O máximo que vai conseguir pescar é aborrecimento e um atestado de burrice pela teimosia.

O desejo era, sim, meia-voltar. Mas aquela realidade infecta em que vivia desde sempre funcionava como arreios: colchão fétido, barraco fétido, morro fétido. Impossível, portanto, renunciar à féria da noite, ainda que minguada. E além dos custos com a vida de merda, havia dívidas com uns indivíduos homicidas, sem nenhum humor; nos últimos meses o corpanzil num enfraquecer vigoroso e crescente, sem remédio que desse remédio. A doença do prazer, seria?! Então minhas precauções serviram para quê? De toda a maneira, não poderia simplesmente ir embora, como se nada: estava aguardando o encontro marcado pela Agência com um cliente de bolsos, garantiram, generosos.

O atraso do homem era tão desanimador quanto o frio. Entretanto, o bom-senso aconselhava deveria esperar mais uns quaisquer quinze minutos. No máximo. Com ele, profissional dos mais explorados pelos empresários do orgasmo sob encomenda, havia um princípio ético, dos raríssimos valores positivos que seu pai lhe deixara antes do suicídio milhões de vezes anunciado à família e sempre motivo de galhofas maternas: "filho... quando o homem empenha a palavra, é sagrado!" Se bem que... rigorosamente considerando o conceito... "homem" era-lhe definição pouco exata.

Lá longe, onde se dava o nascimento da avenida úmida, umidade capaz de refletir o amarelo-icterícia dos vapores de mercúrio, lá longe um par de faróis mansos caminhava. Lentidão como quem procura ou espreita a caça, no deserto construído pela chuva. Certamente fingia enxergar a cena na qual o interesse era nenhum: nos bares da orla, em geral habitados por uma fauna para quem dinheiro brota em árvores, uma multidão de ninguém: garçons, guardadores de veículos, alcoólatras pelos mais diversos motivos, moleques-ladrões à espera de vítimas tornadas improváveis pela chuva... E continuavam os faróis seus passos leopardos, tinta escura pintava a lataria, vidros sem transparência, chuviscos mofinos. Tanto que o limpador de pára-brisas nem trabalhava, conforme conseguiu avistar com maior nitidez à medida que o veículo fazia a aproximação. Muito perto. É o tal sujeito, concluiu num suspiro de alívio ao mesmo tempo em que dois pneus estacionaram sem pressa, roçando o meio-fio. Faróis morreram logo em seguida. A porta abriu. A porta fechou. Em silêncio quase total, não fosse o dispositivo de trava automática.

Examinou rapidamente o próprio reflexo no retrovisor. Cabelos dentro das expectativas, caminhou em direção ao rapaz, lentidão, trajes de importante. Olhos brilharam com intensidade gulosa ao medir, alto a baixo, o produto. Que homenzarrão, este garoto!... Lindinho do papai... Umedeceu o lábio, terreno onde um bigode era cultivado. Canino esquerdo mordiscou o lábio inferior. Sem machucar. Apenas antevendo a delícia. Saboroso ele, assim me parece. Pode ter sido mais um ótimo negócio que fiz, esse banquete em forma de homem. Abençoado pelos deuses e absolutamente silencioso, aguardando eu termine minha análise. Sem nenhuma apreensão. Sabe-se produto irretocável, o danadinho. Por isso o cinismo muito bem mascarado nos traços do rosto, verdadeira escultura. Um sorriso macio de quem satisfeito acompanhou o apalpar com carinho a região do quadril. Aquele músculo obediente que, quando bem tratado, aumentava de volume sempre na hora exata. Hum... gostoso... E ele tão quietinho... Bom menino. Em algumas horas o Paraíso terrestre, a algazarra dos meus urros de contentamento.

- Aprovado?

- Nem tenha dúvidas.

- Vamos?

- Nossa!... Quanta pressa... Preciso mais tempo. Sentir a pele, o tórax lisinho... Ninguém por perto mesmo... Além do mais, paguei por sua carne e vou desfrutá-la até lamber o fundo do tacho. Nunca se esqueça disso enquanto estiver comigo na cama. E se há algo que abomino é degustar alguém às pressas ou ser devorado por adolescentes indóceis, afobados porque outros clientes a atender. Sossegue. As quatro horas contratadas têm tempo de sobra para nós dois, querido. Calma... Daqui por diante mando eu. Apenas eu.

- Tenho compromissos...

- Claro que tem... Seu compromisso é comigo. Ao menos por enquanto. E eu quero na sua casa.

- Está maluco?! Aquele lugar...

- Sei bem onde você mora. O buraco fedido dentro do qual você se esconde. Mas, sabe como é... fantasias sexuais costumam fazer coisas assim com a gente. Mais ou menos como esses desejos de mulher grávida, quase sempre fora de hora. Também, pudera!... Tanto menino competente sob os lençóis usou e abusou de mim do jeito que eu bem quis nos últimos trinta dias... quem sabe a natureza foi generosa e algum deles me deixou... digamos... gestante? Ai, credo! Brincadeira, meu caro imbecil, não precisa fazer carinha de muxoxo. Você fica feioso, nunca percebeu?

- O tempo está voando...

- Pois muito bem! Antes que consiga espantar meu apetite por causa dessa preocupação aborrecida com os ponteiros do relógio, vamos. Um minuto! Ponha esta gravata e calce os meus dois sapatos ingleses. Rápido! Não podemos perder mais tempo!

- É boa!... Agora está apressado... Durma-se com um barulho desses.

Vagarosamente a mão esquerda alisou o bigode embranquecido, ao mesmo tempo em que os olhos procuravam submergir na alma daquele bonequinho falante e apetitoso. Sorriu qualquer coisa ambígua, vasculhou com cuidado e com os olhos o pouco ou nenhum movimento em redor. Mesmo alguém houvesse não haveria interferência. Ruminou palavras incompreensíveis antes de, num súbito, com violência desmesurada, pôr a gravata no pescoço do rapaz e apertar o nó como quem pretende a asfixia; puxou-o para si, gritou um xingamento em altíssimo volume como se louco, artérias do pescoço em polvorosa, os rostos praticamente encostados. Ato contínuo, beijou, paixão com sintomas de doença, a boca masculina que alugara por alguns dólares/hora.

- Entre no carro!

Foi com um sincronismo quase perfeito que bateram as portas. Girou o botão do ar-condicionado, mas... já não está frio o bastante? Quem decide sou eu. Quis saber se os retrovisores nas posições adequadas. O rádio procurava encontrar uma sintonia onde música intimista, acendeu incenso, rápidas e surdas palavras, o limpador de pára-brisa se pôs a enxugar a pouca água que escorria pelo vidro e algumas gotas. Acionou o motor, luzes se fizeram.

- Debaixo do banco onde você está existe um embrulho. Poderia fazer a fineza de pegá-lo para mim, se não for demais?

- Na está incluso em meus serviços ouvir gracinhas.

- Pegue agora! Gracinha da minha vida...

Estava incomodado. Mais um com o rei na barriga, este com as fortes sombras da loucura. Desaparecer nunca fora uma vontade tão viva quanto naqueles quarenta e três minutos em que dentro do importado luxuoso. Alisar minhas pernas até atingir o que realmente interessa não aborrece, a profissão é assim... Mas gritar comigo como ele fosse um feitor e eu escravo no canavial é um pouco demais. Só não pediu parasse o veículo na primeira esquina por causa das dívidas sempre crescendo em proporções geométricas e da cocaína que já começava a rarear em casa e nos bolsos. Nervoso e acompanhado por um sentimento que odiava, a humilhação, pegou o tal pacote embaixo do banco.

- Abra.

- Mas o que é isso?!

- Cego também? Então vou apresenta-los, preste atenção: punhal de prata (falando nele, melhor guarda-lo no meu paletó), sete velas vermelhas, garrafa de cachaça, pólvora, três charutos. Entendeu? Calma, calma... assuste não. Mandei você pegasse só para conferir se não está faltando nenhum ingrediente. É coisa minha. Uma oferenda que preciso entregar antes que o sol boceje seus primeiros raios. Nenhuma relação contigo, acalme-se. Por que a fisionomia imbecil? Uns poucos da alta elite também batemos atabaque nos terreiros, meu bem. Mas, nem é preciso ressaltar, em segredo. Você entende... acaso nos misturarmos à negralha pobre... Nem de leve sua cabecinha quis considerar essa hipótese um dia? Nunca desconfiou? Bobinho... Para a sociedade estampamos em néon sermos católicos ou evangélicos, que diferença verdadeira não há. Alguns de nós, contudo, jamais nos esquecemos de queimar velas coloridas em certas noites certas.

Não conseguia encontrar disfarces para o asco ao pôr os pés no barraco com o rapaz, sentir aquela mistura desagradável composta por muitos odores: uma sujeira impregnada, inerente, das que parecem existir desde sempre. Dois sentimentos faziam-se visíveis mas não se mesclavam enquanto o garoto de aluguel despia-se e seus olhos de aluguel procuravam lançar lascívia de aluguel no cliente, como estivesse de fato transbordante de fome sexual: apetite por tanta carne nova, macia, com certeza saborosa; gozo por antever o instante em que o trabalho finalmente realizado. Passos de algodão, sem sapatos, dirigindo-se àquela nudez linda e quase de graça, àquele órgão escanhoado e pronto para o trabalho. Por causa do nojo que sentia pelo cubículo, procurava não se encostar em nenhum objeto com certeza imundo, franzia o rosto mal disfarçadamente, esfregava de quando em quando o indicador e o polegar esquerdos no nariz. Não fosse a extrema necessidade de estar ali por causa da tarefa...

- E esta santa?

- Ela? Faz tempo. Mas depois eu conto. Vamos logo.

- Eu quero saber agora.

- Aja paciência com vocês, excêntricos... Foi perto da praia, talvez há um ano. A madrugada estava indo embora quando percebi os movimentos apressados de um vulto feminino. Largou um embrulho numa das muitas encruzilhadas e desapareceu na penumbra antes que eu piscasse os olhos. A vida me ensinou a fingir que assuntos inúteis ao meu bolso não existem. Mas fiquei intrigado, confesso. Fui até lá, abri o pacote. Um caixãozinho de madeira vagabunda. Dentro havia uma menina meio viva e meio morta enfeitada com três rosas lilases, um bilhete manchado de sangue... e a santa. Eu nem aí pra criança morrendo (de confusão quero distância e a morte me acompanha desde os tempos da inocência) mas a santa... abriu os olhos, descruzou as mãos do peito, sorriu amigavelmente, bateu palmas para mim. Deveria ter me arrepiado com a cena? Deveria. Mas, ao contrário, achei até divertido e me apossei da imagem. Ornamentar o criado-mudo, atrair Deus para mais perto de minha alma.

- E a criança?

- Sei lá! Morreu, com certeza. Tanto sangue pelo corpo... O pescoço aberto... Quanta pergunta!... É da Civil?

- E o bilhete?

- Não me lembro das palavras, mas parecia um daqueles trechos bíblicos.

- E a cabeça, o que houve com ela?

- Foi madrugada dessas. Um pesadelo com a tal menina querendo cortar meu pescoço. Acordei aos gritos. Logo depois que o pânico foi embora, vi: a imagem estava sem a cabeça, como se alguém tivesse usado um bisturi. Procurei encontrar, nada que uma boa cola não resolvesse, mas... inútil. Vez por outra tenho a impressão que ela sangra e chora. Quando chego perto, não há sangue e a choradeira foge. Bobagem minha, com certeza.

- Com certeza... E...

- Como você me quer, amor? Ativo ou passivo?

- Passivo. Pelo menos no início.

- Então venha, querido...

- Deite-se no chão com a barriga para cima.

Não obstante a estranheza do pedido e a imundície emporcalhando o soalho que nem mesmo era coberto por um tapete qualquer, sob o qual poder-se-ia ocultar a sujeira, contra a vontade fez o que o cliente pediu. Tivesse a agência avisado tanta esquisitice teria cobrado bem mais caro. Remoia arrependimento e a incômoda sensação de que fora iludido, enquanto suportava o peso do homem por sobre. Frente a frente, palavras sem calor como as de um texto teatral que narrasse carinho de aluguel, interpretado por atores ruins. Língua na orelha, língua no pescoço, gemidos, mãos nos mamilos jovens, você é meu agora e não se liberta mais, língua no tórax, beijos no pênis ereto. Palavrões escabrosos, como se possesso. Gargalhava, e no olhar uma maldade explícita, que o rapaz não percebia por estarem seus olhos fechados, mentindo prazer. Entre os lábios do homem, o músculo que até então era objeto de beijinhos, apenas. Deliciava-se. Criança excitada com tanto doce duma vez só, ou chupando um pirulito enorme e colorido, ou brincando de boneca com as amiguinhas. Até que seu rosto foi alvo de uma viscosidade branca, quente, súbita. Gritinhos de prazer, criancinha sorrindo e batendo as mãos na banheira enquanto se molha de banho.

- Sua carne é muito macia. Onde está aquele embrulho?

- Em cima da cama. Agora você quer mudar de posição?

- Fique exatamente como está. Apenas vista outra vez a gravata e calce os sapatos. Não! Não... sem questionamentos. Fantasias têm coisas assim.

Desfazia o pacote com muita tranquilidade, ao mesmo tempo em que alguns fios de sêmen escorriam dos lábios e batizavam uma ou duas velas. Felicidade. Olhos no pulso, onde um relógio. Hoje a consumação do processo que me dará o poder de que preciso no Conselho Executivo para esmagar meus inimigos e reger absoluto os negócios. Curioso... o sacrifício da menina do caixãozinho foi o que me deu menos trabalho, contrariando as expectativas. A mãe, um molambo fedorento disfarçado de gente, não se opôs à esmola dada por mim em troca da filha. Sorriu banguela e sem pensar muito, aprovando a miséria dividida em três maços grossos de dinheiro que joguei em suas mãos. Lágrimas sinceras como se tivesse recebido alguma fortuna, enquanto agradecia por Deus ter se lembrado dela. Até me auxiliou no ritual!... Bem, bem. Agora este idiota aqui já está morto, só falta matar. Depois, a breve espera pelos resultados das oferendas humanas que me foram exigidas em troca do império que anseio há anos.

Alheio, algum sono, e apreensivo em terminar o expediente, sequer atentava aos movimentos do homem, na mão cuidadosa desentocando punhal dum bolso interno do paletó adormecido na cama sem fronha. Desatento ao freguês que, sem nenhum motivo manifesto, libertou um sorriso grave. Que se transmutou em gargalhada perfuro-cortante e crescente em segundos. Que aterrorizou o espírito corrompido (frágil, portanto) do rapaz. Logo a seguir, o barraco caiu num silêncio incômodo àquelas emoções em torvelinho, sem bússola. Como estivessem os dois no sótão de um castelo mal-assombrado. Quis levantar, mas o cliente se mostrou rápido: engatou-lhe no pescoço as duas mãos com força descomunal sem dizer palavra, mas nos olhos as cores do homicídio. E da boca entreaberta minavam saliva e sêmen, unidos numa substância viscosa.

- Fique quietinho, amor... Por gentileza!

- Você está louco!

Esbofeteava, tranquilo, violência, as duas faces e exigia da vítima agradecimentos e sorrisos. Murmúrios de palavras carregando erotismo e volúpia à medida que aproximava seu rosto do rosto surrado, vermelho, doído. A delícia aumentava num volume indefinível quando sentia a respiração medrosa, os traços faciais da hipnose provocada pelo pânico mal contido. Até que lábios próximos, como se desde há muito convivessem casal.

- Está vendo? Tão mais gostoso ficar bom mocinho... Acalme-se. Tudo está em paz agora.

Mordiscava. Lambia. Beijavam-se beijinhos rápidos, viscosos, salgados e sem línguas. Quatro braços e dois gemidos se entrelaçavam frenéticos. Espectadores houvesse em redor da cena, apostariam numa inequívoca manifestação de amor. Sílabas interrompidas antes do fim, pronunciadas entre dentes enquanto os lábios conheciam melhor o território alheio. Como que uma embriaguez de sensações. Então o beijo mais profundo. Gemeram. Prazeres. Ambos falsos: um mentia por ofício e por medo; o outro gozava interiormente ao vislumbrar as riquezas que cairiam em seu colo.

No minuto seguinte o rapaz urrou alucinado. E gemeu uma dor comprida. E morreu surpreso e aos poucos. É que o homem puxou a arma e sem maiores explicações golpeou a vítima uma só vez, provocando um rasgar de carnes do pescoço ao umbigo.

- Muito grato pela colaboração. Continue assim, morrendo devagar assim, enquanto acendo as velas e preparo o ritual. Há alguém aguardando esta oferenda e eu já posso ver meu pedido satisfeito.

  • 3010 visitas desde 8/07/2005
  • Publicado em: 20/07/2004
menu
Lista dos 2201 contos em ordem alfabética por:
Prenome do autor:
Título do conto:

Últimos contos inseridos:
Copyright © 1999-2020 - A Garganta da Serpente
http://www.gargantadaserpente.com.br