A Garganta da Serpente
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A última noite

(Ela)

Um último gole de whisky e Joanna subiu ao palco pronta para gritar suas dores. Ela era assim, se apegava a uma emoção e exauria dela tudo o que podia. Naquela noite entrou em cena para cantar a angústia e tristeza que a situação lhe trazia.

Chegou ao microfone e nele amarrou a rosa vermelho sangue de sempre, rosa que ao final da apresentação estaria inteiramente despetalada, sua última. A última noite. Suspirou e encarou rostos ansiosos para a ouvir pela primeira vez, bocas nervosas que sabiam que não a ouviriam mais e olhos preocupados que notavam que algo simplesmente estava errado.

Começa a melodia e uma voz grave, meio rouca, cheia de sentimento invade o lugar. Era tal qual uma cantora de jazz, musicando um coração dilacerado. As três primeiras pétalas arrancadas violentamente caíam à sombra de uma má-iluminação violeta.

- Você não tem o direito - veio a voz sem rosto ou corpo da plateia, ou de seus próprios pensamentos.

Sorriu e continuou. Se achava no direito. Provavelmente o tinha. Vinha a próxima música, as próximas dores e mais pétalas ao chão. Cada vez mais canto, menos luz e ao fim de tudo uma flor despedaçada. Um grito de desespero e fim de show. Acabara... E ela ainda tinha tanto...

Em casa fechou a porta e não se preocupou em acender a luz, foi direto ao fogão que estava, agora, ligado, mas sem chama alguma. Um último gole de whisky e Joanna cantou suas dores. Estaria, ao fim da música, completamente despedaçada. Ela era assim, se uma emoção pegava nela, deixava que a exaurisse. Naquela noite, até o último suspiro.

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  • Publicado em: 15/05/2017
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