A Garganta da Serpente
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Enquanto o sono não vem

(Edu Beckandroll)

E teve aquela vez, que eu há algumas noites sem dormir, olhava pela janela do sétimo andar e via os travecos pra lá e pra cá.

Será que eles têm site? Desci pra perguntar. Oi! Beleza? Tem site? Qual o endereço? Ela deve ter achado que eu era algum tarado punheteiro ou um pobretão, não sei. Voltei para o apartamento e acessei o site da boneca. Que pavor. Sua bunda até que era apetitosa, mas a cara era horrível e um detalhe sórdido no perfil da moça me causava repulsa. Dote: 18x6 cm. Putz. Isso realmente me causava ânsia de vômitos. Eu não gosto de pau. Gosto de cu e de boceta. Pau não é comigo. Pau já basta o meu.

Esqueci o site da boneca aberto e fui pra varanda fumar mais um cigarro. Eu precisava limpar o cinzeiro. Aliás, precisava limpar o cinzeiro e a mesa na qual ele se encontrava pois há muito diversas bitucas, como se fartas da aglomeração compulsória que passavam, haviam saltado para fora do cinzeiro, deitando felizes e livres sobre a minha mesa. Que nojo.

E o pior é que sempre me disseram que baratas se alimentavam de cinzas de cigarro, assim como fumadores de crack. Talvez por isso eu percebera um considerável aumento da população das cascudas em meu apartamento. Antes elas respeitavam meu quarto e a sala pequena. Agora nem isso. Dias desses flagrei duas enormes, cascudas, marrons, reluzentes nadando num copo de uísque que eu havia deixado por ali umas duas semanas antes.

Cinzas de cigarro e uísque. Interessante, a julgar pelos gostos desses animaizinhos provavelmente eles fossem grandes injustiçadas da cadeia biológica. Eram tão parecidas comigo. Ou será que na realidade eu era um ser humano torto? Rastejante, egoísta, asqueroso. Semelhante a uma barata? Não, Kafka a essa hora e no estágio etílico no qual me encontrava, decididamente não faria bem a mim nem a minha integridade física, sobretudo por haver muitas giletes no banheiro e uma espingarda atrás da porta.

Voltei para o computador e tentei enviar um email para o travesti. Perguntaria se ele batia punheta enquanto era comido. Na real nem esperava resposta, mas só de imaginar a cena do traveco lendo isso na tranquilidade do seu lar me fez escrever. Enchi o copo e acendi outro
cigarro. Esse meu comportamento compulsivo em relação ao álcool e ao cigarro ainda iria me matar. Mas acho que demoraria ainda. Tudo bem apesar de me odiar eu não estava com muita pressa. Acho que os prazeres, mesmo que superficiais e materiais, supriam toda a minha necessidade de saber quem eu sou, de encontrar um sentido na vida ou de admirar um belo por do sol. Pra falar a verdade acho que a última vez que eu vi um por do sol deve ter sido mais ou menos quando eu tinha uns seis anos de idade. Antes da minha mãe me levar pra trabalhar no motel que ela dava expediente. Mas isso faz tanto tempo que nem lembro mais. E acho que não perdi nada. Afinal, por do sol tem todos os dias, agora encontrar uma gostosa, conseguir um bagulho bom, uma boa garrafa de uísque. Definitivamente, isto não ocorre todas as noites. Francamente, isto é raridade. Sou mais apegado às coisas raras. O por do sol nunca me interessou. Acontece todos os dias sei lá, há bilhões de anos. Não sei porque penso essas merdas.

Então decidi descer novamente e tomar uma fresca. A noite estava agradável. Quer dizer, já estava amanhecendo, e a brisa irritava. Imaginei mortos levantando dos túmulos e entrando nas padarias. Acho que o sono estava me fazendo falta ou eu tinha bebido de menos. Esse tipo de pensamento não era normal, talvez eu procurasse um psiquiatra. Não, não era uma boa ideia, ele ia querer que eu parasse de beber e tomasse um monte de boletas. Azuis, vermelhas, brancas. Não, isso não é pra mim.

Entrei numa padaria, não encontrei nenhum morto lá. O balconista sim, este parecia ter visto um cadáver quando me avistou. A expressão dele era essa mesmo. Ridícula, digna de pena. Que idiota, ficar me olhando daquele jeito. Pedi uma cerveja. Só tinha quente. Cerveja quente. Confesso, tive vontade de quebrar toda a padaria, mas me contive. Afinal eu precisava de uma cerveja, mesmo que estivesse quente. E na delegacia não devem servir cerveja. Só por isso não quebrei. Mas volto lá qualquer ora quando estiver bem abastecido de cerveja e quebro tudo. Um estabelecimento desses não pode continuar de pé, decididamente.

Saí caminhando sem rumo, ziguezagueando, quando dei por mim estava em frente ao edifício de Josephine. Uma trepada nessa hora cairia bem. O problema seria o bafo dela, depois de dormir a noite inteira. Bom, nada que uma boa escovada não resolvesse. E além do mais meu pau não estava dos mais cheirosos àquelas alturas. Aliás, eu poderia comê-la sobre a pia, enquanto ela estivesse escovando os dentes. Claro, abaixaria a calcinha dela, arredaria uma nádega para o lado e meteria a minha benga. Meus planos eram de gozar em trinta segundo e ir embora, nada além. Eu não estava com saco para romance. Não, romance aquela hora da manhã não era desejável. Toquei o interfone. Demorou. Toquei de novo. E mais uma vez. E outra. E outra ainda, sendo que nessa última vez fiquei mais de um minuto apertando a porra do botão. Atendeu um cara com voz de sono, com voz de drogado, com voz de que tinha fodido Josephine a noite inteira. Vai se foder, falei.

Virei as costas e caminhei. O traveco do site passou por mim. Sua cara já era medonha, naquela penumbra do pré-amanhecer parecia a cara do Coringa depois de ter levado uma raquetada ou algo similar. Um Coringa com o cu ardendo e bêbado. Continuei caminhando, atravessei uma praça e parei defronte um orelhão. Atrás de mim uma estátua. O céu já estava claro e azul. Dobrei os joelhos, encostei a cara no chão e dormi.

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