A Garganta da Serpente
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O que seria do Bauru sem o tomate

(Dani Sigaud)

Aposto que poucas pessoas ficaram sabendo que um polvo gigante morreu, bem aqui, na América do Sul. Como a cultura pode ser um refúgio tal qual a televisão ou fazer um blog ou escrever um livro. Ela me diz que aquela namorada linda de uns 18 anos do Theodoro morreu num acidente de carro. Está frio. Te dou um abraço. Sair com a turma que entra no lugar e diz: "fechamos o lugar, nos bastamos, é isso aí." Eu olho o tempo todo para uma loira que chora na mesa ao lado, sem barulho, as lágrimas descendo no rosto e o acompanhante dela só vejo as costas. Ele fica dizendo todos os lugares que gostaria de me mandar, o último deles é Bauru. Eu penso nos caras que estavam sentados com a mãe mais feia do mundo dentro de um fusca branco em domingo de sol tomando quentão em copinhos de plástico. Uma comédia velha. Ele é tão bonito e engraçado, eu te amo tanto e, quero te convencer que se fiquei com todos aqueles caras foi pra aguentar te esperar. Ele está na Sibéria. Quem não esperaria por um homem condenado a trabalhos forçados?

Faço um esforço. Subo as escadas, um cheiro detestável. Ele decorou minha postura (ou impostura?) na frente dos quadros.

Eu conto piadas pra aguentar a dor, seu palerma!

Vão dizer: morreu doente.
Vai dizer que estava esperando eu ficar um pouco mais educadinha?
Desprezo.

Só subindo a rua Augusta. Ver que tem gente que trabalha em cima de plataforma transparente e enfiada em minúsculas peças de couro mesmo no frio.

Um bom motivo (entre outros) para romper com uma editora é perceber que eles só publicam seus textos "fáceis".

Pego um pedaço de veludo na cor vinho e vou espetando alfinetes.
Paralelas de alfinetes no fundo vinho.

Estou saindo e você faz questão que eu assine uma merda de papel!
Que porra de homem é você?

Você gosta desta palavra: insubstituível?

Se tirarmos o tomate não será mais um Bauru.
O garçom pede pra eu não criar um caso, afinal, um monte de gente morre porque não foi amada.

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