A Garganta da Serpente
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A sorte é cega

(Darlon Carlos)

Dentro da barraca o calor já fazia-se sentir, as cobertas já estavam um bom tempo em cima dos rapazes. Ninguém queria se mexer mais, todos estavam cansados das algazarras do dia. Eram somente dois, aproveitando as férias de julho, saíram para acampar, nada como uns dias fora de casa e dos mandos dos pais, um pouco de liberdade faz bem as pessoas.

A comida não foi muito boa, e depois de amanhã, as meninas iriam chegar, as camisinhas já tinham sido providenciadas e tudo seria as mil maravilhas. Finalmente, o fim da virgindade! Os dois dormiam de barriga para cima, não queriam dá chance para o azar. O sono já fazia a sua entrada triunfal quando um deles ouviu alguma coisa. Chamou o outro.

- Ei cara, ouviu alguma coisa lá fora?

- Não. Não ouvi nada, você que deve estar sonhando e me acordou à toa. Volte a dormir, pô!

- Cara, eu ouvi alguma coisa lá fora! Eu sei que ouvi, vai lá e vê o que é.

- Eu! Você deve está louco achando que eu vou lá fora só porque você ouviu alguma coisa, eu é que não vou. Vai você, não fui eu que ouvi.

- Mas você é mais forte do que eu. Pode ser alguém grande e eu pequeno como sou vou levar é porrada.

- Até que tá merecendo mesmo. Só que eu não vou não.

Repentinamente, enquanto eles discutiam, um barulho foi ouvido lá fora. Todos se assustaram. Ficaram quietos para não levantar alguma suspeita.

- Não falei, tem alguma coisa lá fora.

- Talvez seja só um bicho do mato.

- É mas alguém vai ter que ir lá ver.

- E por que você não vai?

- Já disse, sou pequeno e fraco. Já sei! Vamos tirar na moeda quem vai, se der cara eu vou se der coroa você vai, que acha?

- Valeu, vamos logo ver isto. Mas, se acontecer alguma coisa você vai lá para me ajudar.

- Tá limpo, pode deixar.

O garoto lançou a moeda no ar, foi girando e girando, sem se preocupar muito com a lei da gravidade foi fazendo seu bale pelos ares. Quando chegou em um determinado ponto, começou a sua queda, os olhares dos garotos foram seguindo a peça de metal, até que ela chegou na palma da mão de quem tinha arremessado. Cobriu-a com a outra. Fez silêncio. Todos se olharam.

- Mostra logo, pô!

Foi o que o fez, abriu lentamente a mão para revelar o que tinha sido decidido pela sorte. Deu coroa! O rapaz, sobre protesto, levantou-se e foi ver o que estava acontecendo do lado de fora da barraca, e o outro ficou lá paralisado de medo. O tempo foi passado e nada do amigo voltar, ele começou a ficar preocupado se poderia ter acontecido alguma coisa mas não ouviu nada. Achou melhor fechar a barraca. Tentou perceber algum movimento com os seus ouvidos, nada. De repente, um som como de passos vindo em direção a ele. Quem poderia ser? Seu amigo que tinha voltado? Quem? O zip foi aberto pela parte de fora, uma cabeça foi colocada para dentro, era seu amigo que estava com um cara de poucos amigos.

- Então o que foi que estava lá fora? - Perguntou.

- Não sei, eu não vi nada. - Foi a resposta que ele deu antes de tombar no chão com uma estaca cravada nas costas. Seu amigo deu um grito e puxou imediatamente o corpo para dentro, fechando logo a seguir a porta da barraca.

Ficou ali, parado em um canto, olhando para o corpo de seu amigo que, a pouco tempo, estava vivo e falando, agora, estava no meio de uma poça de sangue. Se cobriu e ficou esperando, esperando e esperando mas nada aconteceu. Juntou o pouco de coragem que tinha e foi lá fora ver o que estava acontecendo, só foi o tempo do sol surgir no horizonte e notar uma silhueta que corria pelo moro, sem olhar para trás somente correndo como se tivesse fugindo de alguma coisa ou de alguém, olhou ao redor, sentiu que estava bem, sentiu que estava seguro, teve a sensação que desta vez teve sorte, muita sorte. Como dizem, a sorte é cega. Mas, não surda. Tirou trêmulo do bolso a moeda com os dois lados iguais, coroa, sempre coroa.

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