A Garganta da Serpente
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Tatuagem

(Claudia Zippin Ferri)

Não conhecia bem aquele lado da cidade e, definitivamente, nunca havia passado por aquela rua. Parecia interessante, com fachadas muito antigas e bem próximas umas das outras. Eram lojas que pareciam retratar outro tempo, outra época: sebos, antiquários, lojas de especiarias e artigos religiosos, tudo ali parecia velho. No meio de tantos estabelecimentos, Marcos avistou uma pequena porta com uma placa indicando que ali se faziam tatuagens. Resolveu bisbilhotar, há tempo que desejava fazer uma tatuagem, mas por um motivo ou outro acabava adiando o projeto. A loja era estreita e o corredor exibia figuras diversas para atender os mais diferentes gostos. Um homem magro e calvo acabava de guardar alguns instrumentos para tatuar e não percebeu a aproximação de Marcos. O rapaz observou as inúmeras tatuagens que recobriam o corpo do homem, como uma colcha estampada, mas não era a quantidade de tatuagens que lhe chamara atenção; a qualidade das tatuagens era, de longe, superior às que Marcos já havia visto; as cores eram mais vivas, havia brilho e nitidez perfeita, era como se as figuras tivessem vida própria, tamanha a perfeição dos detalhes.

Fascinado, Marcos dirigiu-se ao homem que parecia ser o proprietário do estabelecimento; intimamente já havia decidido: se fosse fazer uma tatuagem queria aquela qualidade, aquela perfeição. O local era antigo, e não parecia muito limpo. Marcos observou que o homem tinha um olho de vidro, o olho direito, o qual era mais brilhante que o outro e não se movimentava. "Deve ser apenas um balconista", pensou.

- Boa tarde, o senhor é o tatuador? Perguntou Marcos.

- Sim, respondeu o homem sem mais palavras.

- Eu gostaria de fazer uma tatuagem no peito...

O homem entregou a Marcos alguns álbuns, contendo mais figuras. Marcos tentou obter mais algumas informações, estava maravilhado com as tatuagens que o homem exibia pelos braços.

- Foi você mesmo quem fez estas tatuagens?

- A maioria delas....

- Você usa algum tipo especial de tinta ou é a técnica que difere tanto das tatuagens que eu tenho visto por ai?

- As duas coisas....


Marcos percebeu que seria inútil tentar um diálogo. Escolheu a figura de um morcego e perguntou o preço, esperando um valor bem superior ao cobrado pelos outros tatuadores, mas pagaria qualquer preço para conseguir uma tatuagem tão perfeita. Ficou surpreso quando o homem fez um preço que correspondia a, mais ou menos a metade dos valores usualmente cobrados. Sem pestanejar, deitou-se na mesa, mostrou exatamente a área onde desejava a tatuagem e deixou que o tatuador desse início ao trabalho. O homem mostrou ser muito habilidoso e rápido, mas doeu um pouco. O tatuador pareceu esboçar um sorriso no momento em que Marcos imaginou a cara dos amigos quando mostrasse a tatuagem e pensou: jamais darei o endereço desse achado. Devia ser impressão de Marcos, mas o olho de vidro do homem pareceu brilhar nesse momento.

Finalmente, o homem terminou a tatuagem e Marcos pagou pelo serviço. Antes de ir, perguntou se deveria ter algum cuidado especial com a tatuagem até que a pele cicatrizasse bem.

- Se doer um pouco, coloque um bife cru sobre o local.

- Bife...?

- Sim, um bife bem sangrento.


Marcos achou estranho, mas não questionaria; o homem havia feito um ótimo trabalho, cobrara pouco..... Lembrou que, quando criança, a mãe colocara um bife sobre seu olho roxo, depois de uma briga na escola. Enfim, se fosse necessário, colocaria o bife. Despediu-se, mas o homem não esboçou qualquer reação.

Marcos sentiu uma ligeira ardência no local da tatuagem. Lembrou que em casa tinha presunto na geladeira, mas o tatuador havia dito "bife" e não "presunto". Entrou rapidamente num mercado para comprar um pacote de carne, "melhor não arriscar", pensou, "pode doer à noite". Já em casa, tomou um bom banho e pôs-se a admirar a tatuagem diante do espelho: "que brilho, que perfeição" pensou, "espere a turma ver isso".

Dormiu mal acomodado no sofá da sala enquanto assistia TV; acordou com um braço dormente e uma ardência incrível no peito; lembrou da tatuagem "ainda bem que comprei a carne", pensou. Foi até a geladeira, cortou um pedaço de bife que fosse suficiente para cobrir toda a tatuagem; deitou-se de costas sobre a cama, acomodou bem a carne sobre o local e dormiu sem se mexer a fim de não sujar a cama e os lençóis. O estranho remédio era nojento mas aliviou bem a ardência do local e Marcos dormiu tranquilo. Pela manhã estranhou o fato de não encontrar vestígios do bife sobre o peito; procurou pela cama, no chão, mas não havia nada. No banheiro colocou-se diante do espelho; a tatuagem parecia ainda mais bonita e brilhante que no dia anterior, mas parecia maior.

Era domingo e Marcos ficaria em casa assistindo TV. Depois do almoço o local da tatuagem voltou a arder; Marcos cortou mais um pedaço de bife e colocou sobre o local enquanto assistia a um jogo e comia pipoca. Tentou relaxar e não pensar naquela nojeira sangrenta sobre o peito. Ao terminar o jogo lembrou-se de retirar o bife do corpo, mas só havia um pedacinho de carne, praticamente sem sangue. "Que estranho" pensou Marcos enquanto dirigia-se até o espelho mais próximo para ver a tatuagem. Assustado, constatou que a tatuagem tinha o dobro do tamanho. Pensou em ligar para o tatuador, mas não havia apanhado nenhum cartão da loja. O nome do estabelecimento era "O Portal", mas não constava na lista telefônica. Resolveu ir até lá, a caminhada lhe faria bem. Encontrou a rua estreita; lembrou-se que a loja de tatuagens ficava do lado esquerdo, entre um sebo e uma loja de roupas usadas, bem ao final da quadra. Andou mais rapidamente observando as lojas, não havia ninguém na rua e já começava a escurecer. Sentiu que a ardência no local da tatuagem voltara com força total; precisava falar com o tatuador, perguntar se era alguma reação alérgica; perguntar que tipo de tinta ele havia usado e por quê a tatuagem dobrara de tamanho.

Avistou o sebo e a loja de roupas usadas, mas não avistou "O portal". Entre as duas lojas só havia um pequeno espaço com uma porta fechada. Uma tábua estava pregada sobre a porta, indicando que ali não havia mais comércio ou moradores há um bom tempo. Marcos sentiu um cheiro adocicado de ervas queimadas e um ligeiro mal-estar, "talvez estivesse com febre", pensou. Procurou novamente, mas não havia sinal de movimento no local onde deveria estar a loja de tatuagens. Devo ter me enganado, as ruas são muito parecidas por aqui. Pensou em perguntar a alguém mas a rua estava vazia e as lojas fechadas, era domingo. No meio fio viu um rato entrando por uma fenda sob a porta lacrada, era escuro, magro e, por um momento, parecia olhar para Marcos; um de seus olhos brilhava estranhamente. "devo estar ficando louco", pensou Marcos, enquanto levantava a gola da camisa para ver a tatuagem que ardia insuportavelmente. Só podia ser um pesadelo, seu peito estava todo tomado por aquela cor escura e brilhante, como se estivesse crescendo a cada segundo e pedindo por mais um pedaço de carne.

"- Carne", disse Marcos para si mesmo; "é isso", essa coisa começou a crescer depois que eu lhe "alimentei" com carne. Não colocaria mais nem um pedaço de bife, cuidaria da ardência com uma pomada cicatrizante ou para queimaduras. Um pouco tonto, correu até a farmácia mais próxima. Sua aparência devia estar horrível porque o atendente chegou a perguntar se ele estava bem e se precisava de ajuda. Marcos pediu apenas uma pomada cicatrizante e um remédio para dor de cabeça.

O rapaz sentia-se estranho, sons que antes não eram nem percebidos começavam a incomodá-lo, como se tivesse sido aumentado o volume de tudo; as luzes pareciam mais intensas, provocando-lhe dores de cabeça. Em casa, tirou a camisa e tocou levemente a tatuagem; além do tamanho descomunal da figura, a pele reagia estranhamente no local; ficara saliente e uma penugem escura e uniforme recobria toda a superfície. Ardia terrivelmente e Marcos ficou tentado a colocar um bife sobre o local, pois a sensação de bem-estar fora imediata das outras vezes. Resistiu e espremeu a bisnaga de pomada sobre o peito, espalhando o creme por todo o tórax. A reação foi terrível, um ardor insuportável lhe tirou completamente a razão; era como se brasas lhe cobrissem o abdômen e o peito. Marcos correu até a geladeira e sem pensar pegou o pacote de carne e espalhou vários pedaços sobre a enorme mancha; o ardor ia cedendo à medida que os pedaços de carne iam sumindo sobre o peito do rapaz, que agora estava em pânico. Marcos queria tirar aquela coisa de si, mas era como uma doença que avançava sobre seu corpo e ia tomando conta. Procurou acalmar-se, a noite passaria rápido, ligaria cedo para o trabalho dizendo que não estava bem de saúde e iria imediatamente ao médico.

As luzes dos carros lá fora pareciam entrar pela janela de seu apartamento querendo cegar-lhe; fechou bem as cortinas. A mancha escura começava a avançar pelos ombros, descendo pelas coxas do rapaz e parecia que logo tomariam os braços e pernas. Sua cabeça parecia girar e os sons cada vez ficavam mais altos, insuportáveis. Percebeu que precisava de ajuda imediatamente, não suportaria mais uma noite com aquela coisa avançando pelo seu corpo e pedindo carne fresca. Lembrou-se de Kátia, uma amiga da faculdade, mas vacilou um pouco porque a amiga provavelmente pensaria que ele estava bêbado para ligar aquela hora da noite dizendo que não estava bem de saúde. Entretanto, precisava desesperadamente de ajuda. Kátia atendeu ao telefone; Marcos disse que não passava bem, explicou onde era seu apartamento, desligou e ficou aguardando a presença amiga que poderia lhe trazer um pouco de conforto.

O calor do apartamento parecia que o sufocava; Marcos abriu uma janela, cobrindo os olhos para não ser ofuscado pelas luzes da cidade. A enorme tatuagem começava a arder novamente, como se estivesse pedindo "comida". A superfície tomada pela mancha era enorme, e já avançava pelas costas do rapaz. Não era o momento de ser teimoso, precisava colocar os bifes sobre a mancha porque não suportaria o corpo todo ardendo como se fossem chamas a queima-lo vivo. Evitava olhar no espelho mas pelo reflexo do vidro da janela percebeu que a mancha já subia pelo seu pescoço. Começou a sufocar e correu até a geladeira, só havia mais um pequeno pedaço de carne crua mas havia bastante sangue no fundo do pacote. Derramou o sangue pelo corpo sentindo ligeiro bem estar. Exausto e vencido pelo medo deixou o corpo recostar-se sobre a poltrona da sala; "Era só um pesadelo" pensou o rapaz; quando acordasse Kátia estaria ali, serviria a ele um chá para aliviar a febre e tudo ficaria bem. O mundo parecia girar, tudo era barulhento e insuportável, luzes intensas entravam pela janela, a respiração estava pesada e ofegante.

Lá fora, Kátia desceu do carro apressada. O amigo era um rapaz independente, não costumava pedir ajuda aos amigos, "devia realmente estar com problemas", pensou. Estava no lugar certo: um prédio pequeno com quatro andares e uma pequena loja de animais no térreo. Pressionou o botão do apartamento 21 mas ninguém atendeu. Preocupada, percebeu que uma moça vinha em direção ao prédio, "devia ser uma moradora". Explicou a ela a situação e teve permissão para entrar. A porta do apartamento 21 estava apenas encostada. Kátia entrou; tudo estava escuro; chamou por Marcos enquanto procurava o interruptor de luz. Nada de excepcional na cozinha, exceto por um filete de sangue aguado derramado pelo chão. Mais algumas gotas de sangue levavam até o quarto do rapaz. Kátia chamou mais uma vez pelo amigo mas não teve resposta. Enquanto pegava o telefone para ligar para a polícia pôde ver no canto do quarto um grande morcego que parecia tonto e cambaleante, mas desajeitadamente alçou voo pela janela e sumiu na escuridão da noite.

(3º lugar no 37º Concurso Literário de Contos de Paranavaí)

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