(Para meu pai)
A pequena vinha com os bracinhos cheios de terra e pedras e soltou tudo no
alicerce da casa em construção. Tinha pouco mais de dois anos,
vestia apenas uma calcinha de malha e, por algum motivo só seu, havia
enfiado os chinelos de borracha nos braços. O pai, parado à porta
do barraco, a observava. Onde será que ela aprendeu a colocar as sandálias
nos braços, pensava sorrindo.
Ela não parava, ia ao monte de terra, abraçava o que conseguia
e jogava junto ao alicerce. Todo esse trabalho a tinha deixado coberta de terra,
fios de cabelo, que tinham sido amarrados, haviam se soltado e estavam grossos
de sujeira. Seu rostinho alegre e seus olhos brilhantes, em meio ao barro, demonstravam
a felicidade que sentia por estar ali trabalhando e ajudando o pai.
O pai também estava completamente sujo de terra. Era um homem bem jovem,
ainda longe dos 30 anos de idade. Estava colocando terra em volta dos alicerces
de sua casa em construção. No dia seguinte começaria a
levantar as paredes. Parecia um sonho, sua casa. Olhando aqueles alicerces e
a menina que repetia seus gestos, emocionou-se e deixou uma lágrima dançar
em seu rosto. Nunca esqueceria o dia em que aquela criança havia nascido,
o mais feliz de sua vida.
Naquela época, saía bem cedo quase todos os dias para ver se
conseguia receber o lote que o governo prometera. Já fazia muito tempo
que esperava. Horas na fila e nada. Desempregado, vivia de pequenos bicos aqui
e ali. A mulher, nas vésperas de dar à luz, já não
conseguia trabalhar. Saía sem comer, para deixar mais para a mulher.
Havia dias em que não conseguia nada.
Mas um dia a sorte mudou. Saiu cedo, sem comer como de costume. A mulher, que
sempre levantava muito cedo, ficara deitada, não se sentia bem. Agora
só falta ela adoecer nos dias de ganhar o neném, pensou. Horas
de pé na fila, sol quente. A fome apertando o deixou tonto. Finalmente
chegou sua vez. Nesse ponto sua memória fica confusa, talvez a fome,
ou o calor, ou o cansaço, ou, ainda, a emoção, ele só
sabe que saiu de lá com um papel com seu nome e o endereço de
seu lote. Lembrava-se também de ser cumprimentado por algumas pessoas,
companheiras diárias na mesma fila. Seu lote, não conseguia acreditar.
Seu lote, finalmente. A mulher ficaria tão feliz. Uma casa, um canto
para os dois, para o filho que chegava.
Ao chegar em casa, uma vizinha o alcançou antes de abrir a porta. Sua
mulher tinha sido levada ao hospital. Estaria muito mal? A vizinha o acalmou,
não era doença, era só o bebê que resolveu nascer.
Mas isso não o tranquilizava, queria estar ao lado dela nesse momento,
ver a criança. Quando chegou ao hospital a esposa o recebeu sorrindo
com o bebê nos braços.
- Vem ver sua filha. - ela disse.
Uma menina! Tão linda!
- Veja, já temos lugar pra morar. - Lembrou-se de mostrar o papel do
lote.
- Saiu nosso lote?
Ele apenas a abraçou e os dois choraram de emoção. Uma
filha linda e um lugar para morar. Tudo no mesmo dia.
A esposa comentou:
- Nossa filha ainda não tem nome. Tu quer escolher?
- Com tanta coisa boa num dia só, tanta graça de Deus, ela só
pode se chamar Maria da Graça. - disse, entre lágrimas.
- Maria da Graça. É um nome muito bonito, para uma menina muito
bonita.
Isso foi há pouco mais de dois anos. Depois disso a vida não
foi só alegria, claro, mas ver a pequena Maria dava-lhes força
para lutar. O lote não tinha energia elétrica ou água encanada.
Foi preciso cavar uma cisterna, usavam fogão à lenha. O barraco
que conseguiram construir era pequeno, chão de terra batida, havia goteiras
no telhado. Mas nada disso abatia. Maria crescia e seus olhos e sorriso enchiam
a vida dos pais, era sua alegria e esperança.
Parado ali, à porta do pequeno barraco de madeira, vendo aquela criança
tão alegre brincando de trabalhar, ele agradeceu a Deus por ter tanta
felicidade em sua vida. A mulher saiu de dentro do barraco e parou ao seu lado
para observar a menina também. Era jovem como o marido, os cabelos castanhos
estavam molhados e ela terminava de amarrá-los. Vestia um vestido claro
com estampa de flores que mal podiam ser vistas de tão desbotado. O vestido
estava excessivamente justo, revelando a barriga no começo de gravidez.
Ela limpou um pouco o rosto do marido e o beijou.
- Tu tem terra até dentro da orelha. - brincou.
- E como é que tu beija um monte de terra? - ele olhou para ela e sorriu.
- É que eu amo muito este meu "monte de terra". - e o beijou
novamente - Em cima do fogão tem uma panela com água quente pra
tu se banhar.
- Não, deixe a água quente pra Mariinha. - começou a sacudir
um pouco da terra do corpo.
- Eu já separei a dela. A bacia já tá pronta. - virou-se
para a menina e chamou - Mariinha, meu anjo, vem tomar banho.
A pequena jogou a terra que tinha nos braços e correu para a mãe.
O pai a pegou nos braços no meio do caminho.
- Tu tá suja como seu pai. Parece um tatuzinho. - e falou para a mãe
- Deixa eu levar ela pra tu, senão ela te suja toda. Não é
tatuzinho? - brincou com a menina.
O barraco era apenas quarto, sala e cozinha. Na sala havia uma mesa muito rústica
com dois bancos. O chão de terra havia sido molhado e varrido. A bacia
de alumínio estava no chão ao lado da mesa. O pai verificou se
a água estava morna e colocou a menina dentro. A mãe sorriu para
ele.
- Do que é que tu tá rindo? - ele perguntou sorrindo pra ela.
- Tu sempre tem que ver se a água não tá quente ou fria
demais.
- Ah! Eu sei que tu toma cuidado, mas não custa eu ver também
né?
- Não, não custa. Gosto que tu faça isso. Agora deixa
que eu banho ela. Vai se banhar também pra gente poder jantar.
A mãe começou a dar banho na criança e cantar. A menina
ria e cantava junto, naquela linguagem ininteligível das crianças
pequenas. O pai foi pra cozinha. Em cima do fogão de lenha havia uma
panela grande com água fervente. Em um canto, algumas latas de tinta
eram utilizadas para armazenar água dentro de casa. Ele pegou uma que
estava quase vazia e derramou parte da água quente dentro. Colocou mais
água fria, viu se a temperatura estava boa e saiu pela porta da cozinha.
Atrás do pequeno barraco ele havia feito uma meia parede de tábuas
para que pudessem tomar banho. A mulher teve o cuidado de colocar tábuas
no chão para manter os pés longe da lama. Na casa que estava construindo
haveria um banheiro dentro, chuveiro e todos esses luxos.
Depois do banho, sentaram-se à mesa para o jantar. A mulher havia forrado
a mesa com uma toalha muito velha e puída, que havia sido dada pela dona
de uma casa onde ela fazia faxina antes de Mariinha nascer. Quase tudo na cozinha
havia sido ganhado assim, por isso não havia dois talheres ou pratos
iguais. Mas tudo estava sempre perfeitamente limpo e a mesa era colocada com
muito cuidado e carinho.
A mulher serviu os pratos com a sopa que estava numa panela sobre a mesa. Mariinha,
sentada sobre um caixote, já comia sozinha. Os pais a observavam e sorriam
de seu esforço para alcançar o prato que ficava à altura
de seus olhos. A mãe sempre tinha o cuidado de amarrar um pano de pratos
ao redor dela para não sujar a roupa. A pequena tinha um temperamento
muito forte e não aceitava ajuda.
Terminada a refeição, Mariinha dava sinais de estar com sono,
apesar de não perder seu sorriso. A mãe tirou o pano de pratos
de seu pescoço e limpou seu rosto. O pai a pegou no colo.
- Vamos passear, meu anjinho!
Ela abraçou o pescoço do pai, a mãe beijou os dois e observou:
- Do jeito que ela tá cansada, vocês não chegam nem na
esquina hoje.
- Acho que tu tem razão. - disse o pai, beijando a mãe - A gente
volta logo.
A mãe ficou arrumando a mesa e o pai saiu com a menina pra rua. Ela
acomodou a cabeça no ombro dele e começou a cantarolar algo ininteligível.
O pai andava devagar na rua sem iluminação.
Ele gostava de andar à noite e aproveitava para fazer a menina dormir.
Ia observando as casas dos vizinhos, pessoas que, como ele, haviam ganhado um
lote e que lutavam para construir suas casas. Aqueles que tinham emprego fixo
iam mais depressa, faziam prestação nas lojas de materiais de
construção. Dava gosto ver as casas brotando do chão, crescendo.
A felicidade das pessoas.
Mariinha parou de cantar. O pai deu meia volta e foi pra casa. A mãe
já havia arrumado o berço e ele a colocou lá, deu um beijo
e cobriu. Só então sentiu que estava cansado também. Abraçou
a mulher:
- Tu deve tá morto de cansado. - ela disse.
- Tou sim, vamos dormir?
Ela deitou-se enquanto ele buscava um copo d'água para colocar no caixote
que servia de mesa ao lado da cama, para o caso da mulher sentir sede à
noite. Depois deitou-se também.
- Posso apagar a vela? - perguntou
- Pode sim.
Ela deitou a cabeça no peito dele. Ele a abraçou, beijou seus
cabelos e acariciou a barriga que guardava o filho por nascer. Adormeceu.