A Garganta da Serpente
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Visita à velha senhora

(Carlos Bruni)

"...Vinte anos de tal existência, e a legenda está feita.Quarenta, e não há como mudá-la. O sentimento de que a doida carregava uma culpa, que sua própria doidice era uma falta grave, uma coisa aberrante,instalou-se no espírito das crianças..."
Carlos Drummond de Andrade, em "A doida"

Muitos anos se passaram desde sua morte. Quantos, com exatidão, não saberia dizer e tal não importa. Durante todo esse tempo, insidiosa que era, aquela mulher deu um jeito de acomodar-se num cantinho qualquer de minha memória.

Naquela quente e ensolarada manhã, ao desembarcar na velha e decadente estação da estrada de ferro, o que primeiro fiz foi olhar em direção ao velho relógio da sala de espera, com seus algarismos romanos querendo marcar um tempo que nunca passou.

A pequena praça defronte, pouco se alterara. As charretes de aluguel que ali faziam ponto foram substituídas por automóveis de praça. Seus motoristas, contudo, preferiam ficar sentados à sombra das sibipirunas jogando damas. Dei-lhes razão; como desperdiçar sombras amigas, mais ainda num dia quente como aquele?

Único viajante a descer do trem, não ousei interrompê-los preferindo subir à pé a rua que levava à praça principal. Uma visita como essa deveria ser saboreada em todos os detalhes e, caminhando, poderia fazê-lo como se estivesse chupando os picolés de groselha que "seu" Antenor fazia em sua antiga máquina de sorvete.

Não vi sinal algum da velha sorveteria e acabei por prometer a mim mesmo que me contentaria mais tarde com uma soda limonada, talvez na lanchonete ali na esquina.

A praça, esta sim, mudou muito com o passar dos anos. Ganhara canteiros novos, altos postes com modernosas lâmpadas amarelas e - decepção - havia perdido seu coreto.

Haverá quem ainda se interesse por coretos?

Perdi o norte por um instante, mas logo localizei a rua que descia para o córrego que deslizava ao pé de sua ladeira, local de memoráveis banhos de nossa turma de moleques.

Mesmo essa rua não escapou às investidas do progresso. As pedras soltas deram lugar a uma capa de asfalto onde em algumas rachaduras teimosos tufos de capim teimavam em sobreviver. Ela própria já não terminava à beira do riacho; uma pequena ponte de concreto dava-lhe continuação para bem além do campo onde, meninos, jogá-vamos bola.

Muitas casas apareceram nesse trecho de rua e repentinamente temi que aquela que procurava não mais existisse; que outra ou outras ocupassem seu terreno.

Meus temores foram infundados pois logo vi a velha casa, intocada e decadente tal como a conhecera quando criança. Não atinei com o motivo de ela não ter sido ainda derrubada.

Parei defronte ao portão, como sempre destrancado. O sol forte batia em minha cabeça, como querendo me fazer desistir daquela empreitada. Os pensamentos rodopiavam, tudo parecia girar, como um aviso. Qual, não sei. Rompi com a indecisão em querer atravessar aquela barreira e invadi o jardim com o mato desmesuradamente crescido. E por detrás dele, a casa.

O sol forte. O sol queimando meus pensamentos, como indagando-me se queria mesmo avançar em meu passado. Lentamente nele fui mergulhando, adentrando num terreno que, afinal, não me era desconhecido. Era um território já conquistado, devassado em cada um de seus segredos desde aquele nunca esquecido dia.

As ruínas do casebre mostravam que o tempo não lhe tivera perdão. Os sujos escombros pareciam ainda mais tristes do que quando os vira pela última vez.

Não precisei desta feita saltar o peitoril; a carcomida porta dava-me acesso à sala. Vazia e suja, como a tinha na memória, seu tapete de poeira deixava para trás a marca de meus passos naquela incursão ao meu próprio interior.

Sem perder tempo examinando aquele espaço pois conhecia-o em cada milímetro, fui direto à porta do quarto no qual onde ficara frente a frente com ela na única vez em que a vi dessa maneira. Não era outro o propósito de minha viagem senão o de reencontrá-la.

Empurrei a porta do aposento, que respondeu num rangido como um cumprimento. Não estava escuro; a cortina puída estava entreaberta, tal como a deixara naquela tarde.

A mesma e compreensível desordem marcava o ambiente. Poder-se-ia dizer que tudo aquilo fora respeitado como a um templo. Nada fora tocado; nada fora retirado.

Nada.

Soprei o pó da velha banqueta e sentei-me. A carcomida cama ainda permanecia ao canto do quarto. E na cama, ela.

Não se dignou a abrir os olhos, num primeiro momento. Julguei-a ressonar tranquila, indiferente à minha presença. Achei que quisesse - e bem o merecia - descansar.

Durante um tempo que não medi fiquei ali parado, observando-a. Não queria incomodá-la, eu que fiz tanto disso em minha meninice. Esperaria o tempo que fosse; não tinha pressa.

Então, ela virou a cabeça em minha direção, abrindo os olhos. Pareceu-me ver o risco de um sorriso nos cantos da boca, o que não se esforçou para esconder.

Devolvi-lhe o sorriso, sem nada dizer.

Sentia-me como se estivesse invadindo seu reduto pela primeira vez, como naquela tarde. Sua voz fanhosa ecoou em meus pensamentos:

- "Quanto tempo..."

- "É...", foi tudo o que veio lá de dentro de mim.

- "O que o traz de volta?"

- "Tinha de vir. Sabia que um dia aconteceria".

Percebi-lhe alguma ironia:

- "Remorsos"?

- "Um pouco, talvez".

Ela aquietou-me:

- "Se o tem, deixe lá fora, menino. Jamais recriminei você por nada. Nem naquele dia, nem em outro qualquer." E, sorrindo com malícia: "Eu só gostava de parecer brava. Fizeram-me assim, fizeram-me louca, que resolvi aceitar o papel. Agradava-me ser temida. Os xingamentos, as citações bíblicas, tudo aquilo era para demostrar uma força que eu não tinha." Calou-se por algum tempo e depois, suspirando: "A verdade é que gostava de todos vocês. Todos".

Concordei, balançando a cabeça:

- "Penso que era uma forma estranha e recíproca de amor. Não fazíamos aquilo por maldade, por mais que quiséssemos pensar que fosse. Acho que... fazíamos porque tinha de ser feito. Só isso".

- "Cada um de nós cumpria seu papel. Era nossa sina." E em seguida, séria: "Por que veio?"

- "Na verdade, penso que jamais saí daqui. O menino, esse sim, cresceu e foi embora. Deixou de ser menino naquele dia mas, isso não é mistério algum, virou adulto somente da pele para fora. Por dentro, continuou sentado aqui mesmo, segurando sua mão, esperando, esperando. Está esperando até hoje".

- "Tem certeza de que ainda não encontrou o que esperava?", disse nem tão enigmática como pretenderia.

Tinha razão. Não seria preciso pisar aqueles campos, molhar os pés em algum córrego. A ladeira, a velha estação, a praça, tudo isso estava dentro de mim. Tudo isso era eu. Sentimentalão que sou, deveria saber que não seria preciso sair pelo mundo para descobrir a mim mesmo.

Ela também sabia disso e agora parecia ter voltado ao seu repouso. Levantei-me em silêncio, fui até a janela e fechei a cortina jogando o quarto de volta à penumbra.

O sol forte. O sol parecendo queimar meus pensamentos. Empurrei o ferrolho trancando meu passado.

Comecei a subir a ladeira em direção à praça. Não olhei para trás; não queria ver o asfalto, a ponte de concreto, as casas intrusas. Queria apenas saborear um picolé de groselha.

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  • Publicado em: 30/01/2004
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