A Garganta da Serpente
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Nocturnos

(Beatriz M. Azevedo)

Gabriel esperava sentado em um banco. Suas mãos estavam tremendo sobre seus joelhos, o que ele poderia esperar? Será que ele tinha ouvido certo? Não era só mais um dos seus sonhos que ele tinha, antes mesmo de dormir? Não, ele sabia que era realidade. Ele tinha ouvido o telefonema.

- Alô, Gabriel? Preciso falar com você. Pode me encontrar no banco da praça daqui a meia hora?

Como com tão poucas palavras ela conseguiu deixá-lo tão nervoso? Gabriel não ousava imaginar o que ela precisava falar com ele. Ele não queria se iludir mais uma vez, não teria forças para se iludir mais uma vez.

A chuva tinha, há pouco, acabado, o vento frio cortava a praça. Eram poucas as pessoas que passavam. As crianças, que normalmente brincam no local, deviam estar em suas casas jogando seus jogos eletrônicos ou assistindo televisão. A praça era tão diferente esta tarde.

Gabriel decide pegar seu "disc-man" porque queria companhia enquanto esperava, e que melhor companhia que a música? Suas mãos não paravam de tremer. Será que alguém poderia notar que ele estava tremendo? A praça estava quase vazia e ele nunca imaginaria que alguém iria notar as suas mãos, mas quando a gente quer esconder algo, sempre pensa que todos podem vê-lo. Ele tem vontade de rir do seu princípio de paranoia, mas não consegue.

O que será que ela queria com ele? Se qualquer outra pessoa tivesse ligado ele não estaria naquele estado, mas quem ligou foi ela. Gabriel sentia-se aliviado, pelo menos ela tinha ligado. Depois de tudo o que aconteceu ele não esperava que eles se falassem nunca mais. Não, ele não queria imaginar o que ela queria falar com ele. Ele não tinha mais forças pra ter esperança.

Era melhor respirar, respirar fundo. Por que sempre que você está ansioso as pessoas mandam que você respire? Essa técnica nunca tinha funcionado com Gabriel e muito menos nesta tarde, nesta praça, neste banco. As mãos de Gabriel ainda tremiam em cima de seus joelhos. Decidiu se concentrar na música. Sua banda predileta não conseguia impedi-lo de pensar nela, mas pelo menos com a música ele não se sentia tão sozinho.

A chuva recomeça bem fraquinha, não passava de um chuvisco. Gabriel decidiu não sair do banco, poucas gotas de chuva o atingiam. A música começava a se misturar com todo o ambiente. Ele tantas vezes já tinha pensado em como a vida deveria ter trilha sonora. Essa era a desvantagem da vida em relação aos filmes. Se bem que, pensando melhor, a vida dele sempre teve trilha sonora. Todos os momentos importantes da sua vida eram associados intrinsecamente a uma música, a um perfume, mas principalmente a uma sensação.

Gabriel notou que tinha o que ele chamava de "memória interna", ou seja, ele lembrava, não especificamente das coisas que tinham acontecido, mas sim de como ele reagiu a elas. Ele não lembrava tanto da conversa que teve com Eva, esse era o nome dela, mas sim de tudo que cruzou sua mente naquele instante. Ele lembrava ter achado que o perfume de Eva parecia com o cheiro das manhãs de verão quando ele brincava com seus primos. Ele lembrava da música de Chopin que há pouco tinha ouvido "Nocturnos". Esse nome brincava na sua mente, associado agora inevitavelmente à manhã de verão do perfume dela. Engraçadas as coisas que ele conseguia lembrar. Quase não tinha falado com ninguém naquele dia, queria guardar suas melhores palavras para ela. Lembrava de tudo isso, mas não conseguia lembrar-se de todas as palavras que eles tinham trocado. Ele lembrava com todos os detalhes dos olhares, das mãos trêmulas, dela segurando sua mão. Lembrava também do vento que cortou uma pequena flor branca naquele exato instante no qual ele disse a Eva tudo que há muito tempo adiava dizer. Lembrava do alívio, da felicidade por ter tirado um fardo de suas costas, de se sentir exposto como nunca tinha se sentido na sua vida até aquele momento. Depois disso vinha um caos, emoções bagunçadas, sobrepondo-se umas as outras.

Mas ele não queria mais lembrar daquela conversa. Ele não tinha forças para lembrar daquela conversa, não agora, não neste banco de praça, não nesta tarde. Voltou então à sua ideia da trilha sonora. Como poderia alguém viver sem música em sua vida? Deve ser por isso que as pessoas vão ao cinema, assistir vidas que têm trilha sonora. Elas vão procurar um pouco de inspiração, mas não percebem que o que falta em suas vidas é aquela música de fundo que torna tudo o que está acontecendo muito mais emocionante e significativo.

Pronto, já tinha resolvido: a vida precisa de trilha sonora. Agora ele precisava de outro desafio. Em seus devaneios ele sempre procurava algo para resolver. Agora começava a pensar em como o mundo seria diferente se, de repente, passássemos a ler pensamentos. O mundo seria outro. O que seria da hipocrisia humana se não pudéssemos guardar segredos? Será que o homem conseguiria viver sabendo a todo instante de todos os seus menores instintos? Claro que conseguiria, o homem venceu a corrida evolutiva, não por ser mais forte ou mais rápido, mas sim por ter uma grande capacidade de se adaptar às mudanças. Seria difícil no começo, nossa sociedade baseada em aparências teria que mudar, mas o homem conseguiria vencer mais esse obstáculo. Não que ele o vencesse por ser muito diferente dos outros animais ou por ser a imagem de Deus na Terra, Gabriel não acreditava nisso. O homem venceria a dificuldade justamente por aquilo que mais nos assemelha aos animais, que é a vontade de sobreviver, a vontade de deixar um legado para o futuro. A nossa maior força seria o nosso medo da morte e do esquecimento.

Se todos pudéssemos ler mentes, seria impossível enganar o outro. O mundo seria muito mais honesto, honesto até demais. Acabariam todos os mistérios. É quando Gabriel percebe que o mundo não seria totalmente honesto, ainda poderíamos praticar o jogo predileto da humanidade, enganar a nós mesmos e, por conseguinte, enganar a todos aqueles seres que lessem nossas mentes. Se todos pudéssemos ler pensamentos, ele não poderia ter escondido tudo de Eva até aquela conversa. Ele não conseguia decidir se isso seria algo positivo ou não. Embora Gabriel não queira pensar em Eva, sua mente prega peças nele. Ela surge em cada uma das suas pequenas reflexões. Ele decide que vai bani-la de seus pensamentos. Já havia pensado nela demais por um dia. Decide abandonar sua indagação para outro dia. Só mesmo ela para fazê-lo deixar um desafio em aberto. Mas o mundo que não se preocupasse, outro dia Gabriel iria descobrir como seria se todos lêssemos mentes, agora era algo que ele tinha obrigação de desvendar.

O que fazer agora? Gabriel olha para o relógio, ele tinha chegado antes do horário marcado. Tinha que escolher outra coisa para pensar. Não conseguia escolher um tópico, deixou sua mente fluir. Começou a pensar na vida no seu sentido mais amplo. As pessoas, ao contrário do que a maioria de seus amigos dizia, são extremamente simples. Nós temos algumas emoções básicas e universais. Charles Darwin disse que as emoções básicas seriam alegria, surpresa, tristeza, medo, aborrecimento e cólera. Essas emoções dosadas de modos diferentes compõem todas as experiências humanas. Gabriel não sabia se concordava com a lista de Darwin, mas concordava com a ideia dele.

Todas as emoções humanas, elas são tão simples. Se as pessoas soubessem disso talvez muitos poetas perdessem seus empregos. Mas eles não tinham que se preocupar com isso, as pessoas não querem descobrir o quão simples elas são. Todos tentamos parecer pessoas extremamente complicadas, únicas, queremos achar que os nossos questionamentos são únicos em toda a história da humanidade. Um número estonteante de humanos já viveu nesta Terra, o número de filósofos que já tivemos também é enorme, mas, um certo José, que trabalha em um escritório o dia todo, quer acreditar que é o primeiro homem a indagar o sentido da vida.

A nossa vontade de sermos únicos está ligada ao nosso medo da morte. Ao acreditarmos que somos únicos e especiais achamos que devemos ser lembrados pelos outros, é um modo de continuarmos aqui mesmo depois da nossa morte. Não queremos ser esquecidos. Por isso temos filhos, escrevemos livros, tentamos quebrar limites, criar algo novo e inovador. Mas também não queremos ser totalmente incompreendidos por todos. Não queremos ser decifrados, queremos apenas que alguém se dê ao trabalho de tentar.

Gabriel fica feliz e um tanto quanto assustado com sua descoberta, mesmo sabendo que muitos antes dele já deviam ter chegado à mesma conclusão. Lembra também de Jung e de seus arquétipos que formam todo o inconsciente coletivo. Formas universais que estão presentes em todas as culturas de toda a história da humanidade. Todos nossos medos, paranoias, padrões de comportamento, podem ser resumidos a alguns arquétipos.

Ele pensa que o tarô é também chamado pelos místicos de livro da vida. Isso porque, segundo eles, todas as situações das nossas vidas podem ser interpretadas através, das apenas vinte e duas cartas que eles chamam de Arcanos maiores. Gabriel era um cético acima de tudo, mas começou a pensar que os místicos poderiam estar certos dessa vez. Não que ele acreditasse em predição de futuro ou algo desse tipo, mas conhecia as cartas do tarô, sua amiga Júlia tentava convencê-lo há anos de que elas funcionavam. Apesar de nunca ter achado que aquelas aulas de Júlia poderiam servir de nada, agora ele via sentido em tudo. Aquelas vinte e duas cartas eram arquétipos de tudo que podemos viver, sentir ou imaginar, representam a jornada do homem.

Gabriel começa a pensar em Shakespeare, como suas peças abordavam todos os sentimentos que existiam. Essa frase ele já tinha lido de Harold Bloom, mas, naquela época achou que o crítico só estava entusiasmado demais com o autor. Gabriel lembra de Hamlet, Otelo, Macbeth, tudo estava nessas histórias.

Uma leve euforia começa a tomar aos poucos o corpo de Gabriel, ele estava começando a entender tudo. Sentia como se estivesse fora de seu corpo sobrevoando o mundo. Via famílias, pessoas passando pelas ruas, brigas, ódio, amor. Entendia absolutamente tudo. Notava todas as ações e percebia todas as motivações por trás delas. Novas pessoas chegando ao mundo, novos corações sendo quebrados, novas amizades sendo feitas, novas traições em curso. Pensava na história da humanidade, como ela estava repleta de crimes e também de atos heróicos. Gabriel estava acima das parcialidades já que entendia completamente todos os motivos. Ele nota, finalmente, que faz parte desse mundo. Lógico que intelectualmente ele já sabia disso, mas agora ele realmente sentia o mundo. O mundo, poucos sabem disso, tem uma música, uma melodia tão sutil e imperfeita que só poucas vezes conseguimos ouvi-la. Ele via a história do Universo como se estivesse lá, o Big Bang, a inflação de que aconteceu nas primeiras frações de segundo do Cosmos, a expansão do Universo. A criação de estrelas, algumas que acabavam em belas explosões de super novas, outras que simplesmente iam perdendo os seus brilhos até viraram estrelas anãs. Ele finalmente chagava em nosso sistema solar, via a Terra surgindo, as primeiras moléculas orgânicas virando organelas, o RNA surgindo, depois o DNA, e finalmente surgia a vida. Desse momento até aparecer o homem foi um piscar de olhos, e finalmente Gabriel chegou exatamente de onde tinha partido.

Mas ele não era mais o mesmo, sentia que era um com o Universo. Percebia que ele era somente uma gota de um mar eterno. Começava a esquecer quem ele era, sua individualidade. Era uma troca com grandes vantagens. Ele perderia ele mesmo, seu ego, mas ganharia todo o Universo, ele era uno, ele sentia o batimento do coração do mundo.

De repente, Gabriel sente um leve toque em seu braço. Ele volta abruptamente de sua viagem pelo Cosmos, sente como se estivesse caindo dentro de seu próprio corpo. Todos os pensamentos que ele teve enquanto esperava passaram em um segundo por sua mente. Ele começa a notar que seu rosto está molhado, a música que ele estava ouvindo já tinha acabado, sente um pequeno calafrio, nota o barulho das pessoas passando, percebe que voltara a chover forte.

Olha para o lado e vê Eva, ele lembra que estava esperando ela, lembra do telefonema que tinha recebido há pouco tempo, lembra da conversa que eles tinham tido, aquela conversa na qual ele tinha exposto para ela todos seus sentimentos. Sente seu perfume, lembra de "Nocturnos" e da manhã de verão. Todos seus pensamentos são interrompidos, quando, com um pequeno sorriso no rosto, Eva fala para ele:

- Gabriel, eu estava pensando esses dias em tudo o que você me falou, em tudo pelo que passamos. Eu também gosto de você.

E foi assim, com essas palavras, com o cheiro frio da chuva no rosto de Eva se misturando ao seu perfume de verão, com seus lábios molhados ou de chuva ou de lágrimas, ele não sabia, que Gabriel esqueceu de tudo o que tinha descoberto essa tarde. Por um instante, ao sentir o leve toque no seu braço, Gabriel teve uma escolha, não era uma escolha consciente, mas a escolha existiu, ele deixou tudo que tinha descoberto para trás somente porque queria ouvir o que Eva tinha para lhe dizer. E Eva nunca soube que ele desistiu do Nirvana, da sua iluminação, ou seja lá como quiserem chamar, para ouvir suas palavras.

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