A Garganta da Serpente
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A vida a dois

(Bruno Calil)

Tarde de domingo, o sol mansamente entregava o dia à branca lua dos enamorados, das paixões ardentes dos dois jovens, que passeavam de mãos dadas à beira do rio. Euzébio, jovem vigoroso e trabalhador morava distante de sua amada, mais de três quilômetros, fazia o percurso quatro vezes por semana montado em uma mula grande e de nome Ruana, para namorar Solange.

A moça de nome Solange de poucas prendas domésticas, talvez pela pouca idade, 17 anos, que aparentava mais, pela sua formação física avantajada, e com toda perfeição da natureza, a começar pelos lindos cabelos negros, lisos e longos, tratados com primor com babosa, retirada dali mesmo da fazenda de seu pai, que fica no município da Cidade de Goiás às margens do rio Ferreirão. Corpo escultural e tratado apenas pelas dádivas de Deus, pois, a moça sempre morou na fazenda e muito pouco visitava a cidade e seus atrativos naturais.

Seus pais o senhor Dito da Chica e sua mãe Ana, ambos vivem na região a mais de vinte anos, um casal perfeito, desde que Dona Ana ditasse todas as regras da casa e da fazenda de nome Recanto da Garça.

Euzébio não se cansava de a mais dois meses percorrer os mais de três quilômetros que distava sua casa a de sua amada. O namoro era sempre no final do dia, depois do trabalho duro, como sói ser o da fazenda, lida de gado, plantio de arroz, milho e roçagem dos pastos duas vezes por ano. Euzébio morava com os pais que possuíam uma venda a beira da estrada, dentro da pequena propriedade; Euzébio não gostava da venda e dizia sempre ao pai que sua paixão, além claro de Solange era a mula Ruana e o gado branco; mesmo solteiro já tinha suas economias: uma bicicleta barra circular ano 1976, um moto-rádio a pilha e elétrico, nove vacas nelores e seis bezerras de dois anos, doze porcos de engorda, um cavalo de nome Gaúcho, a mula Ruana que foi presente de seu padrinho, trinta e seis sacos de arroz e vinte carros de milho. O que para um rapaz de vinte anos morador da fazenda, humilde de pouca escolaridade é muito e tudo é bom dizer tirado dos braços e com muito esforço.

Euzébio sentia que suas posses já eram suficientes para casar e Solange era já um namoro sério. Pensou muito e conversou com a moça. Foi na bucha. O rapaz muito sério e respeitador da filha alheia pensou, tenho de pedir a mão da moça a seu pai. No sábado à tarde Euzébio estava pescando piau na loca no rio Ferreirão que banha os fundos da casa do futuro sogro; muitas pedras e grandes e o rio fazendo aquele ruído das águas fortes batendo nas pedras; Euzébio estava com a fieira de fio elétrico com seis piaus e duas voadeiras guardadas, para o jantar que dona Ana iniciava fazendo tutu de feijão, arroz pilado no monjolo, feijão roxinho, maxixe e os peixes; que com toda certeza o Dito levaria para a cozinheira limpos prontos para fritar.

Euzébio foi logo falando seu Dito, queria ter uma conversa séria com o senhor. - Pode falar meu rapaz! Tô gostando de sua filha e tenho umas economias e tô querendo casar com ela... Bem meu filho vou ser franco e rápido com você, porque já já a Ana grita pelos peixes... Sofro muito com minha mulher, manda demais e não consigo ficar sem ela. A vida toda ela foi mandona e vou levando e esperando que uma hora ela melhore. Isto já faz mais de vinte anos. Estou cansado de esperar, praticamente estou conformado, mas no fundo tenho uma revolta de ter deixado ela me dominar e pior por completo.

Fico muito satisfeito seu Dito com os conselhos. Mesmo assim quero ser o seu genro. - Vamos almoçar e lá dentro você pede perto de sua futura sogra. Quando estavam todos a mesa almoçando Euzébio disse: dona Ana e seu Dito gostaria de marcar o casamento com a Solange para depois da colheita do arroz, isto é se vocês estiverem de acordo? Dona Ana meio emocionada disse, fico feliz meu filho de pedir a Solange em casamento, vai dar tempo de arrumar o enxoval até final de abril! Tem uma casa desocupada na beira da estrada, carece de uma reforma, vamos providenciar. A casa é boa toda de tijolo e chão batido, tem seis pés de caju, quatro mangueiras abacaxi, um pé de jaca, tamarindo, limoeiro e laranja da terra. Solange alegre disse que estava muito feliz e que gostaria que seus pais a levassem na Cidade de Goiás para algumas compras, aviamentos e panos para preparar o enxoval e conversar com o padre para fazer o casamento na capela da estrada que ficava ali mesmo na região.

Euzébio achou que demorou muito para chegar a colheita do arroz, que por sinal produziu duzentos e quatorze sacos, mais do que suficiente para um casal no inicio de vida, daria até para vender o excedente e adquirir mais algumas reses uma vez que o sogro, digo sogra cedeu o pasto para o bom genro. Finalmente chegou o dia 30 de abril, padre, padrinhos, pais dos noivos e uma meia dúzia de moradores da região que foram prestigiar o bolo e o casamento de Solange e Euzébio.

Os dias foram passando e o casal vivia feliz com a casinha da beira da estrada com um quintal limpo e varrido com vassoura curraleira (feita pela Solange), os capados gordos, também tratados por Solange, sem dizer das galinhas, patos, galinhas d'angola e uma cabrita já amojando; que futuramente serviria para amamentar os filhos que certamente viriam. Casal feliz! Seis meses de casamento e pouco saiam de casa, pois, as tarefas do casal eram muitas e diárias.

Num final de tarde o sogro e a sogra foram visitar a filha e genro. O sogro logo mostrou interesse de ver os capados no chiqueiro. Lá chegando foi perguntando, como a Solange mudou o que você fez Euzébio? Ora meu sogro matei o galo na primeira noite! - Como é isso? No dia que nos casamos fomos para casa e logo que deitamos o garnisé cantou e eu disse que não gostava que galo cantasse àquela hora, pois, estava cedo. Novamente cantou e me mostrei indignado, ralhei novamente. E pela terceira vez o garnisé cantou incontinenti fui ao poleiro, com um facão tramontina e trespassei o galinho, levando até o quarto e finquei o facão na porta de jacarandá, escorria sangue pela porta até o chão batido e disse, todos que me aborrecem faço isso, não aceito teimosia. Foi o que aconteceu meu sogro, nunca brigamos ou discutimos. Voltaram para dentro de casa e Solange já preparava um jantar muito gostoso, guariroba com arroz, pequi em conserva no óleo, omelete de ovo de pata e feijão bolinha sem tempero e sem amassar, parecia uma delícia, as vasilhas de alumínio pareciam espelhos de tão limpas e areadas. O Dito da Chica foi logo falando minha filha seu pai não está passando bem e por isso vamos embora, não é Ana? Esta sem entender foi logo levantando e ficando a disposição de ir embora. Na estrada Ana pergunta o que aconteceu homem de Deus? Tenho de ir à casa do compadre Quin para buscar um remédio. Arriou um cavalo baio e, pois a marcha, logo a noitinha estava em casa, trouxe um galinho carijó, que colocou no poleiro das galinhas. E logo foi deitar. Ana achou o marido estranho e pensou que era alguma indisposição com alguma comida. Meia hora após o galinho carijó canta espremido e tímido por estar em terreiro alheio, mais do que depressa Dito fala bem severo: não gosto que galo cante a esta hora! Ana resmunga e fala vai dormir homem! Canta novamente o galinho bem forte, cheio de si. Ralha vigoroso Dito da Chica. Soa um arremedo de canto e Dito levanta-se rapidamente, antes mesmo que Ana argumentasse e colocasse Dito para deitar. Dito foi até o poleiro com um facão de cabo quebrado, pegou o galo pelo pescoço e torceu com força, estrebuchou o coitado no chão, Dito enfia o facão nas costas do galo inerte e leva-o pingando sangue pelo caminho. Bate o facão com força na porta do quarto e fala bravo, todos que aborrecem são tratados assim. Ana vira-se para o lado e vê a cena de terror, brava, ralha com o marido, vá levar para cozinha e depene o coitado do galo! E fala que sabia da história do genro. Perplexo e sem saber o que fazer Dito caminha para cozinha para cozinhar o galo, e daí pensou, o galo só mata na primeira noite.

(17/11/00)

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