A Garganta da Serpente

Boccaccio

Giovanni Boccaccio
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Para Mulher Avara, Amante Escroque

(Boccaccio)

Havia outrora em Milão um soldado de nome Gulfart, nascido na Alemanha, que passava por homem de bem e que era profundamente dedicado ao príncipe a quem servia, - qualidade que não é comum aos seus patrícios. Como fazia questão de honra pagar pontualmente o que pedia por empréstimo, encontrava sempre quem lhe desse dinheiro a juro módico toda a vez que precisava.

Esse excelente soldado apaixonou-se por uma formosa dama, de nome Ambrósia, casada com Gasparino Sagostrace, rico negociante, que conhecia particularmente e se davam muito bem. Foi bastante cauteloso para que ninguém, especialmente o marido, se apercebesse dos seus sentimentos. Tendo notado que a dama demonstrava simpatia por ele, arrojou-se a falar-lhe, pedindo que retribuísse a ansiedade que lhe provocara, prometendo corresponder com dignidade, atendendo-lhe todos os desejos de prazer. A bela mulher, demonstrando conveniente relutância, afinal consentiu em atender seus desejos se ele lhe resolvesse uma carência momentânea de duzentos escudos, desde que jurasse sigilo absoluto.

Gulfart, que jamais imaginara tal proposta, ficou tão chocado com a avareza da dama que seus sentimentos quase se transformam em aversão. No entanto acalmou-se, resolvido a dar-lhe o merecido castigo. Com essa ideia, se comprometeu a fazer o que ela desejava; que queria ser mais rico para oferecer-lhe uma quantia maior; que ela tinha apenas que marcar a data e o instante em que poderia encontrá-la, quando então lhe daria o dinheiro pedido. Então a mulher, para ele desprezível, manda-lhe um recado informando que o marido partiria em breve para Gênova, e que lhe avisaria no mesmo dia da sua partida.

Sabendo que Gasparino iria fazer a viagem, Gulfart foi procurá-lo.

- Eu tenho necessidade - disse-lhe,- de duzentos escudos, e ficarei muito grato se me emprestasse essa quantia com os juros que me tens cobrado até agora.

Gasparino prestou-lhe esse serviço com prazer, entregando-lhe imediatamente a quantia, com grande satisfação do militar.

Dias depois o comerciante partiu para Gênova. A mulher mandou dizer imediatamente ao galã que ele podia vir, e que não esquecesse a quantia acertada. Gulfart, que não tinha interesse em encontrá-la só, fez-se seguir por um dos seus amigos e disse-lhe, na presença desse amigo e de um empregado que estava com ela nesse momento:

- Aqui estão, senhora, duzentos escudos bem contados e lhe peço que entregue a seu marido quando ele voltar da viagem.

Ela recebeu o dinheiro sem perceber qualquer segundas intenções de Gulfart, a não ser que ele havia falado assim por pura política, apenas para que não se suspeitasse que essa quantia era o preço dos seus favores.

Respondeu-lhe então que se desincumbir-se-ia do pedido no mesmo dia da chegada do esposo.

- Mas vejamos,- acrescentou ela,- se a quantia está correta.

Pôs-se então a contar imediatamente, sobre a mesa. Vendo que não faltava sequer um escudo, guardou tudo na sua bolsa, sussurrando para Gulfart que passasse ao anoitecer que ela estaria só, à sua espera. Ele não faltou. A mulher conduziu-o ao seu quarto, onde passaram a noite juntos. O amante não se limitou a essa noite, de tal modo encantou a dama, que passaram juntos as outras, até o regresso do marido.

Quando Gasparino voltou de Milão, Gulfart escolheu o momento em que ele devia estar com a esposa para ir visitá-lo, na companhia do seu amigo.

- Gasparino - disse-lhe, após os cumprimentos, - os duzentos escudos que me emprestou antes da viagem, tendo sido desnecessários para os negócios a que se destinavam, eu os devolvi, no mesmo dia da partida, para vossa esposa, que até os conferiu na minha frente. Assim, vim pedir que tire o meu nome do seu livro de devedores.

Voltando-se para a mulher o marido perguntou se ela havia recebido o dinheiro e ela - diante da testemunha não pôde contestar - se desculpou pela falta de memória, inclusive por não ter lembrado de dar o dinheiro ao marido há mais tempo.

- Pode ficar tranquilo, - disse então Gasparino a Gulfart, - hoje mesmo vou riscar o seu débito do meu livro.

O amante retirou-se da casa satisfeito por haver punido a amante pela sua avareza e ainda por ter usufruído tão ardentemente os favores, sem que isso lhe tivesse custado sequer um escudo.

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