A Garganta da Serpente
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Três por três a nove graus

(Ana Ventura)

Sempre gostei de números, mas nunca me constou que pudessem economizar palavras ao falar de vidas. Ria de meus amigos que, vez ou outra, tentavam convencer-me de que determinada combinação ou supressão de letra em meu nome, cada uma associada a um algarismo, serviria para mudar o rumo à vida que (de pouco adiantava dizer-lhes) eu escolhera para mim.

Ainda assim, e ainda os números, gostava da minha casa por tudo nela estar dividido em números exatos. Decimais sempre me atormentaram, e desde criança construía meus sonhos em medidas exatas e, mais importante ainda, mensuráveis. Por isso esse meu colchão, tão exato, e o meu termostato, de agradar defunto.

Meus amigos, nas raras vezes em que me visitam, observam, entre o curioso e o espantado, a minha relação com o espaço. Percebo-lhes a incredulidade, e espanta-me que não percebam o quanto o meu equilíbrio depende do exato - aliás, deduzo que seu desequilíbrio tenha a ver com suas medidas inexatas ou, pior ainda, da sua falta de consciência das medidas que cercam a vida.

Cinquenta quilos. Exatos. Saio com sossego da balança e organizo com entusiasmo milimétrico o caminho do meu dia. Compraz-me verificar a quantidade de passos até à garagem, e o número de vezes que deverei olhar pelo retrovisor ao sair da garagem. Na dúvida, disponho-me a olhar mais vezes do que o necessário, mas é preciso que cada olhar dure uma porção de tempo que possa quantificar com exatidão, sem sobressaltos nem interrupções. Ainda assim, prefiro os dias em que meus pensamentos se dirigem para dentro, e o carro também fica dentro, e nada sai do lugar.

De noite, há um pesadelo que me persegue, e que me rouba horas de sono - sempre as mesmas horas, mas sinto-as roubadas, ainda assim.

Há alguém à minha porta, de chave na mão. Gira a chave de um lado para o outro, mas interrompe um último movimento no meio. Prenúncio de catástrofe. Entra-me pela casa em passos suaves, e aproxima-se do quarto. Meus nove metros quadrados de colchão não são o suficiente, e esse alguém galga-me a superfície e atinge-me com cadência sincopada, inexata e confusa. Não é por essa pessoa, mas por mim, que meu coração pára, numa interrupção sem sentido.

Acordo em sopa. A respiração está normal, mas o ar à minha volta é quente e espesso. Rolo para um dos lados e encontro uma superfície fria no espaço de lençol que não ocupava. Resfria uma parte de mim, enquanto a outra aquece o entorno. Quem virá roubar-me o certo?

São três da tarde e não tenho o que fazer. Sento-me diante da janela, frente à acácia que tenho no jardim, plantada a três metros da varanda. As flores amarelas colorem o espaço em baixo, porque já começam a cair, e daqui a pouco estarão desfolhados os ramos da minha árvore predileta. Gostaria de poder plantar ciclâmenes e outras flores que quando menor me encantavam nos jardins dos livros da Agatha Christie, mas desconfio que não se dariam bem aqui nos trópicos, apesar dos nomes sonoros ao gosto das escarpas da Cornualha. As flores amarelas da acácia bastam-me, e lembram-me os tempos da cidade que mudou de nome. As grandes avenidas, e as acácias plantadas a distâncias regulares. Única regularidade no meio das regularidades mentiras.

Há alguém à minha porta, de chave na mão. Gira a chave de um lado para o outro, procura-lhe que as ranhuras correspondam à orientação da fechadura, como faço quando vou ao correio buscar a correspondência à minha caixa postal. Abre e entra.

Os barulhos na cozinha quebram a monotonia do meu dia, trazem-me um mundo de desconforto ao qual não me habituo mais. Corro a esconder-me na minha grande cama, a sós com o frio que me conserva a memória no lugar. Retiro o caderno de dentro da gaveta e escrevo mais algumas linhas. Algumas vinte linhas, para ser exato.

Há alguém à porta, mas esta porta não tem fechadura, e a mão não tem chave. Bate e não respondo. Quem dera entrasse.

A casa em silêncio outra vez. A cozinha limpa, os relógios com seu tic-tac ritmado. Minha amiga especialista em feng-shui me advertiu e funcionou - os que estavam parados foram consertados. Não quero energias estagnadas perto de mim. Devo estar enlouquecendo, pensei no dia em que me convenceu. E mais no dia seguinte, quando dei por mim a fazer contas ao nome da minha rua, para ver se coincidia com o número da minha porta. Preciso de ajuda: não sei a que algarismo corresponde a letra J. De Joaquim, primeiro nome do nome da minha rua. Parece começo de poema... "o primeiro nome do nome da minha rua". Amanhã telefonarei a Verônica.

Há alguém à porta. Despertei ou sonho ainda? A chave não gira na mão. A mão bate, insiste com uma intenção tão clara e rítmica que me obriga a levantar para abrir. Verônica chegou cedo, acho que ainda nem a chamei. Vem sorrindo com suas tabelas logarítmicas, suas codificações que se pretendem numéricas e exatas e dão-me vontade de rir. Diz-me que o J é uma letra poderosa, mas que não tem nenhuma importância a relação entre as letras e o número da porta. Discordo. Como não tem relação?

De qualquer forma, isso já não me importa. Há uma curiosa simetria entre as orelhas de Verônica. Gostaria de imobilizá-la, mas ela dificilmente fica quieta, para poder-lhe estudar as medidas do rosto. Tendo a achar que são exatas, mas não gostaria de precipitar-me. Preciso medi-la um dia.

E as mãos. Já um dia li uma carta sobre as mãos de uma mulher. Não fui eu quem a escreveu, nem sei para quem seria, mas as mãos eram indefiníveis e dificilmente seriam as mãos que se apalpam e que os sentidos percebem. São mãos como as de Verônica, com 33 anos exatos, comemorados hoje conforme me informa. Pergunta-me de meu mapa astral - a hora exata do meu nascimento? O que quererá fazer ela com a hora exata de meu nascimento? Com o meu nascimento? Seria melhor comemorarmos seu aniversário e esquecermos do meu nascimento, e da sua hora exata.

Já é tarde e Verônica embarca no ônibus que pára diante da minha janela, do lado de lá do muro que separa a acácia e a minha vida do turbilhão lá fora. Verônica ri-se e pergunta-me que posso saber eu de turbilhões, se eles são inexatos e nos surpreendem quando não estamos à sua espera. Agora sinto-lhe a falta, mas a presença de seu cheiro e a substância volátil das suas mãos conduzem-me à minha grande cama. Minha grande cama vazia. Trato de ocupá-la com meu corpo na transversal, mas ainda sobra muita cama. Muita cama. Nesses nove metros quadrados exatos, ainda bem que me tem o frio.

Acordo e de novo é dia de sair de casa. Meus hábitos de eremita ainda não me permitem a ausência do mundo. Decido ir a pé até onde tenho que ir; será provavelmente mais saudável, estou a ouvir as palavras de Verônica ao meu ouvido, só não gosto do provavelmente, como não gostei do ponto-e-vírgula tão inexato ali atrás. Assim que revise o que escrevi, terei de transformá-lo num ponto. No máximo numa vírgula.

Decido é que é mais saudável, embora mais incômodo, porque a volta me custará o dobro da ida, e a distância parecerá infinita. Mas talvez encontre Verônica e o encontro transforme meu dia e minha caminhada em matéria de nuvens. Talvez. Que é isso de "talvez"? Talvez o que? Ou encontro ou não encontro. Para todos os efeitos, pouco importa que eu decida encontrá-la ou não. Verônica é incapaz de corresponder às minhas disposições mais corretas.
Já se foi a ida, estou no meio da volta. Nada de Verônica.

Antes que a veja, sinto-lhe as mãos. Não sei por que me deu para pensar-lhe tanto nas mãos. Nem é que sonhe com elas em mim, através de mim, sobre mim, deslizando em mim.

Não. Descobri-lhes pequenas rugas e traços quando não a via, e depois tornaram-se reais, as rugas, os traços e as mãos, quando a dona de tudo isso chegou. Como foi? Não sei. E embora me doesse a inexatidão, prendeu-se, agarrou-se a mim como uma peste esse desejo de as descobrir na ausência e fazer-lhes a conferência depois ao chegar. Mas hoje, nem mãos me esperam na fechadura da porta. Só o aço frio, que me aquece, e prenuncia o frio de dentro, que me envolve e acalma ao entrar. Vou direto à minha grande cama, e olho radiante o termostato. Nove graus.

As minhas pernas têm inchado nos últimos anos. Lembro-me de quando lhes surpreendia a curva ao espelho, olhando-as por trás. Não as achava bonitas necessariamente, mas havia uma conformidade entre elas e o espelho. Agora o espelho rejeita-as, engrossa-as, quere-as cheias e curvas. As grotescas varizes dos pesadelos de quando era criança na praia e via os velhos escondidos debaixo dos guarda-sóis, poupando-se as varizes ao mal que lhes fazia o sol, parece que se tornam realidade azulada por trás da minha pele translúcida. Verônica encontra-me nessa posição esdrúxula, observando varizes que ela diz inexistentes. E ri-se, a Verônica. Será que ela não vê por baixo da pele? Como se formam esses tentáculos ameaçadores? Como crescem sem ordem nem nexo? Como incham e querem rebentar, espalhando seu conteúdo que parece azul mas é roxo pelas paredes, pelo chão, pela minha grande cama que aí não me será mais salvação?

Trouxe-me um livro de numerologia. Parece entusiasmada pelo meu interesse, mas eu hoje sei que quero ver-lhe mais que as mãos. Com essa história de pernas, fiquei pensando nas suas, mas será demais querer que mas mostre, assim, sem mais. E as pernas, Verônica? Haverão de perturbar-me como as mãos, quando não estiveres aqui? Posso vê-las por baixo das calças? Verônica?

Acordo ensopado. A mesma chave, a mesma mão, o mesmo movimento interrompido. A mesma invasão e a respiração pesada. Acordo em sopa porque reconheço a mão, mas não sei de quem é. Preciso deixar-me de histórias de mãos de Verônica. Mas assim que penso nelas elas deslizam até às pernas, e descobrem uma linha mais sensível daquela que eu imagino ter sido a minha. Há uma transluz em torno delas, mas o pior são as mãos que deslizam por elas. Criam espaços de cor, de sombra, que tento em vão compreender dentro de algum padrão que me dê segurança e compreensão. Mas umas e outras, as pernas e as mãos, são de Verônica, e ela não quer dar-me segurança. Compreensão... hei de perguntar-lhe.

Verônica: tu me queres seguro? Mas é claro que nunca lhe perguntarei tamanha estupidez! Se me quiser, eu não a quererei mais. Se não me quiser, estaremos um perdido para o outro. Não gosto de dúvidas, mas não quero perder a sensação exata das mãos, nem a perturbação de seu encontro com as pernas.

Convidá-la-ei a um banho de mar. Se houvesse mar por perto. Um banho de piscina será o máximo que conseguirei, mas é certo que recuse. Lembro-me de tê-la ouvido, no dia em que a conheci, discursando contra o tratamento químico da água das piscinas.

Mesmo dia em que instalei meu novo termostato. Deu-me vontade de rir a expressão bestializada do instalador, estendendo-me a declaração de estar de pleno juízo e consciente de que viver a nove graus centígrados corresponde a temperatura de frigorífico, não de dormitório.

Por isso, decidi torrar ao sol da piscina municipal, para melhor apreciar meu frigorífico particular. Das situações dos últimos tempos, imaginar-me um pernil foi das mais hilárias. Por causa dessa hilariedade, que se ouvia à distância marítima desses metros quadrados aquáticos civilizados, Verônica prestou atenção em mim, por achar que me ria dela e do seu discurso.

Sabe quantos quilos de cloro por ano? Sabe o quanto o cloro irrita as mucosas do seu corpo, sobretudo aquelas mais escondidas? Sabe o quanto o cloro se dilui na atmosfera e polui o nosso ambiente? Sabe o quanto...? Sabe o quanto...? Sabe o quanto...? Essa fixação do quanto, do quanto, do quanto, do quanto abriu uma fenda no pensamento e minha alegria histérica se desvaneceu. Quem era essa criatura que queria medir, e saber de tudo o quanto?

E assim me manteve Verônica durante meses, sem lhe saber o nome, mas sabendo da sua vontade de saber o quanto. Bastava-me. Quase não a via, não conhecia quem a conhecesse, mas sabia que a encontraria mais uma vez, e outra, e outra. À piscina não voltei, porque descobri que estar a nove graus era suficiente, sem precisar torturar-me com calor a mais para satisfazer-me depois.

Antes as pernas não se movimentavam, mas agora adquiriram vida. Eram as mãos que deslizavam, agora as pernas abrem-se de leve ao menor movimento. As mãos deslizam e as pernas respondem. Alongam-se quando os dedos se alongam. Dobram-se, estiram-se, abrem-se como lábios. A luz diminui mas eu procuro um interruptor, uma cortina, qualquer coisa que eu possa acionar para continuar vendo. Ela ri-se e diz-me depois. Depois. Um inexato depois, um depois sussurrado que me acorda e me faz olhar para a parede que mais detesto de todas as que me rodeiam, porque é o fim dos meus nove metros quadrados de macieza.

Verônica interessa-se por alimentação. Já percebi a sua necessidade rítmica dos interesses pelas coisas. O curioso é que em vez de descartar uma ao encantar-se com outra, vai colecionando-as e relacionando-as umas às outras, numa leve sensação de enciclopédia sem verbetes.

Da alimentação, então. Nada de doce até às três, nada de café no horário do meridiano do coração (isso, informei-me, é coisa dos médicos chineses, que gostam de andar descalços e tomar o pulso dos outros certificando-se de que como previsto a humanidade sofre do baço).

Mas eu gosto dessa precisão. Aliás, parece-me receituário clínico, com a sua precisão matemática de a que horas, quantos mililitros, durante quantos exatos e reconfortantes dias. Às vezes a cura não vem ou, pior, assemelha-se tanto à própria doença que creio perder-me. Ainda assim a precisão me reconforta e parte de mim se cura, ainda que a outra pareça não dar por isso.

Mas a questão da alimentação fez com que Verônica se horrorizasse com o que como, onde como, como como, com quem como (desnecessária essa última, porque a solidão é minha mais frequente companheira; é, pensando bem talvez seja por isso mesmo...). E o barulho da cozinha modificou-se sensivelmente. Os choques das panelas são suaves, a ordem faz parte do processo, e tudo ficou mais claro desde que Verônica assumiu o controle. Sei que durará pouco tempo (preveni-me para não estar desprevenido, claro), mas satisfaço-me no dia a dia, um após o outro. Não tenho pressa para começar as coisas, e não tenho pressa de lhes ver o fim; deve ser por isso que as pessoas passam por mim e às vezes nem as sinto nem me sentem.

Verônica gosta dos meus quadros. Os azuis que sobem pelas paredes especialmente. Dedica várias horas por dia a estudar a longa pilha inclinada encostada à parede da sala. Diz-me que não entende, mas não quer explicação. E as mãos passeiam pelas telas, e pela primeira vez não me ressinto de que outros dedos acariciem os contornos dos meus pesadelos. O único problema é que decidiu reorganizar as minhas paredes e trocar meus quadros de lugar. Tento refugiar-me nos meus metros gozosos de colchão, mas a sensação de mudança persegue-me e há dias em que penso com ansiedade a que horas irá a seus cursos.

O que invariavelmente acontece, sempre antes das 16h30, e assim que sai percebo que as mãos ficaram, mas para elas colchões, frigorífico, paredes, pesadelos abrem espaço e permito que se deitem a meu lado.

Há alguém à minha porta, de chave na mão. Gira a chave de um lado para o outro, mas interrompe um último movimento no meio. Prenúncio de catástrofe. Entra-me pela casa em passos suaves, e aproxima-se do quarto. Meus nove metros quadrados de colchão não são o suficiente, e esse alguém galga-me a superfície e atinge-me com cadência sincopada, inexata e confusa.

Adormeci e acordo em convulsão, suando apesar dos meus nove graus. É noite, e ela não veio. Levanto-me de um pulo com o pensamento "ela". Como? Ela? Onde deixei o nome? Por onde entrou a familiaridade, que portão deixei destrancado?

A cozinha está às escuras e de novo me assusto com o vermelho do quadro que reina sobre o fogão. Inadequado - esse vermelho é do hall de entrada, onde teria Verônica a ideia. A acácia já perdeu suas folhas, e seus galhos secos destacam as estrelas por trás deles, projetando umas sombras no quadro que o distorcem e transformam meu pesadelo vermelho numa pantomima de teatro de sombras mudo. Passam das três com certeza. E dou-me conta de que procuro Verônica na escuridão da sala, por trás do espelho do banheiro (não poderia ela haver deixado uma parte de si para sempre refletida?), dentro do armário das vassouras. Percorro meus quadros com as mãos, buscando as marcas do tato.

Há alguém à minha porta. Preciso dar-lhe uma chave, mas que não entre sorrateira. Não bate, não chama, mas quando abro a porta lá estão suas mãos sob a campainha, num gesto de dúvida e espera. Deito-me e imagino-a deitada.

Acordo com o pensamento funesto de todo dia 12. Dia de supermercado. Arrepio-me só de pensar, porque lá estarão as filas, os caixas pretendendo uma simpatia pasteurizada, ou não pretendendo coisa nenhuma a não ser torturar-me com esperas porque o sistema cai e nunca me explicam de onde. Verônica ri-se da minha lista, por ordem de entrada começando pelo corredor à direita, gôndola da direita, primeira prateleira de cima e daí para baixo e em frente, parando diante do que preciso e ignorando o resto. Novidades em termos de supermercado, para mim, não existem porque nem lhes reconheço a existência. Divulgadores de produtos novos, de linguiça a sabão de louça com poder desincrustante fogem de mim assim que veem. Passo por várias prateleiras sem sequer as olhar, porque as minhas compras que já eram regradas tornaram-se espartanas graças a tudo o que não posso não gosto não devo não quero comer. A minha alimentação pode haver melhorado, mas sobretudo melhorou o tempo que gasto dentro desse estabelecimento. Oito horas e as portas abrem-se. Gosto de ser o primeiro, apesar do cheiro nauseabundo que me atinge lá do fundo, do açougue.

Já estou no sétimo corredor, e o sabão em pó mudou de lugar. Deveria estar nesta prateleira, nesta gôndola. Não sei agora o que fazer, talvez não compre sabão. Porque não uma plaquinha indicando? Por que não um aviso, um comunicado, um simples pedido de desculpas pelo transtorno estamos em obras para melhor atendê-lo?

Gosto de mim em dias como esses. Volto para casa de mãos vazias, sentindo-me mais pleno e realizado do que minutos antes. Passei todas as compras pelo caixa e depois disse-me arrependido e vim-me embora. A estupefação do caixa, com seu sorriso plástico pendurado no anúncio de pasta de dentes produzirá em mim uma boa gargalhada ao chegar a casa. Uma única, e ao chegar a casa, para que possa ecoar nas minhas paredes e povoar depois os meus pesadelos, dando-lhes uma sonoridade catastrófica que me fará acordar mais cedo.

Não se gargalha em pesadelos.

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