A Garganta da Serpente
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Vida de Artista

(Abilio Terra Junior)

Estudou o roteiro a noite toda. No dia seguinte, por pouco não perde a hora. Chegou ao estúdio correndo esbaforido e o diretor lhe enviou um olhar que não deixava dúvidas. Aquela correria, e, chegou a sua vez!

Contracenava com uma atriz que, além de ser pra lá de bonita, era também talentosa. Estava muito nervoso, era, podia-se dizer, o seu primeiro filme. Trabalhara antes em comerciais e em alguns filmes de curta metragem. Esse não, era de longa metragem e o diretor, muito experiente e famoso, no país, pelo menos.

Estava suando frio, com a garganta seca, por mais que bebesse água. Era uma cena romântica, ele e a atriz sentados em um sofá, em uma sala de um apartamento, montado no estúdio. No instante da sua fala, lhe deu aquele "branco". Nada de se lembrar. Ficou mais nervoso ainda.

- Você está com a mão gelada e molhada, hein, Artur?! Ela lhe disse, sorridente.

Estaria ajudando-o ou tentando "queimar o seu filme"?

Ele sorriu, sem graça, e pensou até que não nascera para ser ator.

O diretor chamou-o e lhe perguntou se havia decorado as falas. Ele respondeu que sim, que passara a noite acordado, com esse fim. O diretor olhou bem para ele, tentando entender se ele estava mentindo ou dizendo a verdade. Depois, lhe disse: - Ta bom, respira fundo algumas vezes e vamos em frente!

Ele fez o que o diretor lhe dissera, respirou fundo diversas vezes, deu um tropeção no tapete da sala e se sentou, de novo, ao lado da atriz.

Ela segurou suas mãos e lhe disse: - Calma, cara, não é o fim do mundo! Relaxa, que você se lembra!

E lhe deu um olhar que a ele pareceu carregado de outras intenções. Seria mesmo? Ou sua mente "distorcida" que estava interpretando errado?

Agora, começou a se sentir mais calmo.

- Ação! Gritou o diretor.

Olhou bem nos olhos da atriz e ela lhe passou uma tranquilidade... infinita.

Quando chegou a sua vez de falar, lembrou-se das palavras, uma a uma, vieram todas lá do fundo da sua memória e fluíram com uma tonalidade tão natural que ele mesmo se surpreendeu.

Abraçou e beijou a atriz, e ambos foram muito convincentes...

Quando a cena terminou, o diretor se aproximou e lhes disse:

- Bravo! Vocês se saíram muito bem! Chegaram a me surpreender! Não precisaremos repetir a cena!

Ele respirou aliviado. Deu uma olhada na atriz que se levantara e se dirigira ao seu camarim. Ele também se levantou e foi tomar alguns copos d'água e depois foi ao banheiro. Vencera a primeira etapa. Outras viriam, talvez até mais difíceis, mas estava agora bem mais confiante e sentia que até que tinha queda para aquilo, atuar, mostrar suas emoções à multidão invisível, espalhada por milhares de cinemas no país, e, quem sabe? Talvez até mesmo no mundo! Porque ser modesto? Sabia que tinha talento, bastava enfrentar os desafios e... venceria! Etapa por etapa, chegaria lá... onde os grandes atores chegaram, e com merecimento, o mais importante!

A próxima cena seria de alcova, ele e a atriz deitados na cama, depois de fazerem amor. Não fumavam cigarros, ao contrário daqueles filmes do passado. Agora, com a campanha antifumo a pleno vapor, os cigarros haviam sido "cortados" sumariamente, era politicamente correto não fumar.

Abraçados e deitados, Artur não se sentia muito a vontade, mas, ainda assim, lembrou-se de todas as falas sem titubear. Com aquele monte de gente em volta, ele, nu, ao lado daquela morena linda, também nua, tinha que se manter concentrado todo o tempo, para não se esquecer de nada, e nem se deixar levar pela sensualidade da sua colega de trabalho. Era um mulherão, quanto a isso não tinha a menor dúvida! Sentia o seu odor erótico, mas a excitação ficou guardada lá no fundo, ali não dava pra se sentir excitado. Talvez mais tarde, em outro dia... Poderia até convidá-la para dar uma saída, quem sabe?

Sua vida estava começando a mudar, novas oportunidades estavam surgindo, no campo profissional... e talvez no campo amoroso... porque não?

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  • Publicado em: 07/05/2003
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