A Garganta da Serpente
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Um encontro inusitado

(Ana Guimarães)

O sol se punha no horizonte e o horário de visitação recém terminara. O amplo espaço do aposento em que me encontrava e a distância que nos separava fizeram com que hesitasse sobre a impressão de ter visto uma silhueta correndo suavemente, quase deslizando, pelo piso de mármore de carrara do vestíbulo.

A luz que a essa hora se desfazia em réstias era exígua e com um brilho fosforescente, como uma ponte provisória entre dois mundos, gerando uma dubiedade, uma disparidade em relação a imagem que o olhar percebe e diz à mente e o que ela acredita ter visto. Com os olhos semicerrados e o espírito aberto, supus tratar-se de uma criança perdida, ou esquecida pelos pais - apesar de seu ar alegre e despreocupado - afinal era muito pequena para estar sozinha, devia ter uns seis ou sete anos.

Em seguida, perdi-me eu, esquecido de tudo e de todos, mas principalmente de mim mesmo, entre as maravilhas que se descortinavam aos meus estrangeiros olhos: um pedaço importante da história do Brasil, ao vivo e a cores. Tudo em torno se apequenou. Minhas inquietações arrefeceram. O desassossego que havia tomado conta de mim até então, desapareceu por um breve período de tempo.

Pude vê-la novamente, ao longe, na sala de música. Parecia reger, convincente e enlevada, uma orquestra imaginária. Tamanho silêncio pensei ouvir a melodia que a inspirava, e meu coração espantou-se com essa sensação solidária que me acometia. Não querendo assustá-la (mais do que eu próprio já estava), aproximando-me devagar, resolvi pedir ajuda a um guarda. Quando me voltei para apontá-la, ela sumira de vista de novo.

Na sala de visitas a reencontrei. Pulava compenetrada agora, uma amarelinha fictícia. Segura e à vontade, movimentava-se com desenvoltura por aquele ambiente, e, embora só, parecia divertir-se a valer. Buscando sentido, perguntava-me: seria uma criança da região, acostumada a visitas frequentes ao Museu Imperial de Petrópolis? Ou talvez um filho de funcionário, familiarizado com suas dependências? Sua aparição de novo foi efêmera.

Ao chegar aos jardins, já num fulgurante anoitecer, tão mimetizada ao coqueiro ela estava que me sobressaltei quando se mexeu: só então dei por sua presença. Desapareceu como surgiu assim que se viu descoberta. Parecia brincar de esconde-esconde comigo.

Na casa de chá, comecei a suspeitar do que se tratava. Sentadinho, comportado agora, como que aguardando o serviço, pela primeira vez me encarou e sorriu. Só então, mais de perto, reparei. Não usava jeans, camiseta e tênis como qualquer menino de hoje. Não, era uma suntuosa indumentária de época. Um traje absolutamente soberbo, cheio de medalhas e condecorações.

Desconfiado, perguntei: Qual o seu nome, garoto? Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Miguel Gabriel Rafael Gonzaga, respondeu. E acrescentou, adivinhando meus pensamentos, que gostava de se materializar assim, nessa idade, porque fora quando ascendera ao trono do Brasil pela abdicação do pai, em 7 de abril de 1831.

Para meu alívio era tarde e o lugar estava vazio. Pude não passar por louco, falando com alguém que ninguém mais via: D. Pedro II em pessoa. Confidenciou-me que, nascido no paço de São Cristóvão, gostava de por aqui perambular, pois além de museu - um lugar onde estão reunidos e expostos obras de arte, peças e objetos que não se cansa de admirar - tinha sido sua adorável residência de verão, seu Palácio de veraneio, por muitos e muitos anos.

Mais não conversamos, pois súbito alguém apareceu e, puxando-me pela mão, gritou: Rembrandt, venha ver a fila de turistas diante de suas telas lá no Louvre...

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