A Garganta da Serpente
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A velha mais velha

(Ana Maria Esteves)

Acordou naquele dia bem mais tarde que de costume. Espichou-se e se embolou nas cobertas como uma gata no cio. Os olhos abriram-se em câmera lenta. Com as mãos espalmadas reconheceu o corpo lânguido e desobediente.

Bastaram alguns minutos naquele ballet matinal para que a velha revivesse em flashes sua própria história. As imagens que se sucederam em cadeia, como relâmpagos de chuva de verão, inundaram sua alma. Ela sentiu então um calor tomando conta de seu corpo e abandonou-se ao mistério daquele momento.

Lembrou-se da passarinhada cantando cedinho nas gaiolas penduradas na varanda do fundo de sua casa. Do cinema improvisado, figuras grudadas num lençol úmido e iluminadas à luz de velas animadas pela voz da mãe. Da família em volta do rádio, ouvindo as notícias do país. Das máquinas de costura, afinadas pelas pedaladas do pai e da mãe, chiando horas seguidas.

Resgatou as noites insones, em que lia vorazmente romances empilhados no criado-mudo ao lado de sua cama. As primeiras poesias sangrando no papel branco. As reuniões intermináveis com as amigas arquitetando a paz. O footing na praça, enquanto a banda majestosa tocava marchinhas.

Depois da torrente de lembranças que desfilaram ininterruptas, a velha ficou ainda mais uns instantes na cama. Lentamente, o corpo começou a se diluir, primeiro os pés, as mãos, depois as pernas e os braços, o ventre, os ombros, o peito e finalmente a cabeça. Agora, flutuava.

Na transparência daquela manhã luminosa, descobriu que a vida não podia ser medida por dias acumulados e ossos cansados. Tudo o que havia vivido e sonhado ter vivido estava consigo, e era tanto...

O coração bateu irremediavelmente encantado. A vida fluiu como sempre e a poesia sangrou novamente. Queimou um incenso, acendeu uma cigarrilha e botou um daqueles discos de vinil da década de 60 na vitrola.

Danou a escrever, agora na tela branca do computador. As palavras borbulharam como espuma no mar, algumas afogadas, outras perdidas como pequenos barquinhos distantes da orla marítima. Juntando-as na escrita que decifra a vida, ela se sentiu possuída.

A velha estava mais velha.

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