A Garganta da Serpente
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O velho e a brasa...

(Adhemar Molon)

Joaquim, homem branco já passado dos cinquenta, baixinho atarracado, meio gordinho, funcionário público, era casado com Elza. Mulata, de vinte e poucos anos, traços finos identificados com os da raça branca, cabelos anelados até aos ombros, corpo esguio, altura mediana. Não tinha beleza estonteante, porém não se poderia dize-la feia. O casal tinha um lindo menino, ainda bebê, moreninho, quase branco. Joaquim era um homem apaixonadíssimo pela esposa. Tinha mesmo loucura por ela!...

Elza adorava dançar e seu marido, satisfazendo-lhe todos os gostos, a levava aos clubes de dança onde a deixava se divertir à vontade. Ele não sabia dançar, mas ficava sentadinho à espera do fim das noites dançantes somente admirando sua mulher rodopiando alegremente nos seus desenvoltos passos de dançarina .Estranhamente ela dançava sempre com o mesmo homem, um negro magrelo com mais de dois metros de altura. A cabeça de Elza mal chegava à altura do peito de Ventura. Esse era seu nome. Ao fim do baile, todos se despediam e Joaquim voltava para casa com sua adorada esposa.

Certa vez, ao término da noite dançante, Ventura acompanhara o casal. Com eles estava também um casal de jovens noivos, Joel e Maria, que passaram a noite dançando no mesmo salão. Era já madrugada quando todos saíram indo diretamente à casa de Joaquim. Era um porão onde existia pouca mobília. Apenas uma cama de casal, um velho guarda-roupas, uma mesa de cozinha com quatro cadeiras. Sob a cama estava um penico para as necessidades fisiológicas. A um canto, duas trempes que serviam para cozinhar com fogo de carvão. Tudo isso num único e meio mofado cômodo cuja parede dos fundos terminava num alto barranco. Nem banheiro tinha. Apenas um pia com torneira para pegar água. Em cima, prolongando-se, estava construído um pequenino sobrado, residência dos senhorios. Poder-se-ia dizer que tal porão seria inabitável por nocividade à saúde. Mas, naqueles tempos era o que Joaquim podia oferecer à família.

Faltando poucas horas para terminar a noite, todos procuraram acomodar-se como podiam no aguardar do amanhecer. Assim, Joel e Maria ocuparam duas cadeiras, ficando a se bulir nas partes íntimas até que cochilassem debruçados sobre a mesa. Ventura, com aquele corpo comprido ocupando toda a longitude da cama, deitou-se de bruços à cabeceira, abraçando com suas enormes mãos negras o corpo de Elza de um lado e o do bebê do outro parecendo até que ia esmaga-los com aqueles pesados e longos braços.

O pobre quase idoso Joaquim, encolheu-se a um cantinho aos pés da cama e passou o resto da noite a soluçar, naquela situação que nenhum homem de verdade poderia aceitar ou suportar. Em dado momento, o quase velho levantou-se indo à direção das trempes. Joel apavorou-se! Imaginou que fosse apanhar uma faca ou qualquer arma para matar o negro que ocupava sua cama! Porém, apenas tomou um copo de água e depois um gole de café frio e voltou a se deitar continuando nos seus soluços de dor de amor e despeito.

Amanheceu! Todos com uma única exceção, estavam cansados pela noite mal dormida. Apenas Ventura houvera dormido tranquilamente como se estivesse em sua própria casa. Tinha percebido a fraqueza e covardia do velho Joaquim e em momento algum demonstrava qualquer preocupação. Elza apressou-se em acender o carvão para fazer café. Ventura e Joaquim estavam sentados na beira da cama. O bebê ainda dormia. Joel e Maria continuavam sentadinhos ao lado da mesa.

Num determinado momento, Elza apanha um pedaço de carvão em brasa com um pegador e desafia o marido:

- Se você me ama de verdade, segure essa brasa!

Joaquim levanta-se rapidamente estendendo sua mão direita. Ela maldosamente deposita a brasa em sua mão meio enrugada pela idade. Ele a sustenta por pouquíssimos segundos. Sentindo muita dor, joga aquele carvão aceso para cima e tenta várias vezes segura-lo até não suportar mais. Estando com a mão queimada e não aguentando tanta dor, desiste. Ela, num gostoso gargalhar exclama:

- Ta vendo! Você não me ama de verdade! Você é um fraco e mentiroso! Ventura, sim, me ama! Não é mesmo, Ventura?

O negro magrelo olha incrédulo para a mulherzinha que segurava outra brasa com seu pegador. Fixa-a por alguns segundos e lhe responde:

- Sim, eu a amo! Mas, melhor usar suas brasas para fazer nosso café...

Passados alguns meses, Joel encontra Joaquim perambulando na rua e lhe pergunta por Elza. Ele, parecendo feliz lhe diz que sua mulher se fora com o amante. E, conformado, afirmara ter sido melhor que tivesse ido, pois a vida a três não daria certo mesmo. Também não tinha mais disposição para viver segurando brasas como forma de provar seu amor...

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