A Garganta da Serpente
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Viagem para a morte

(Alberto Metello Neves)

Carlos, próspero comerciante de uma pequena cidade do interior de Pernambuco, foi à Recife fazer compras para o seu negócio.

Como o tempo estava muito nublado e sujeito a chuvas, resolveu carregar consigo o seu guarda-chuva. A sua missão já estava praticamente terminada. Para não ficar muito tarde, pois já estava se aproximando o horário do seu ônibus, procurou andar depressa em direção à estação rodoviária.

Assim que dobrou a primeira esquina, começou a sentir algumas dores nos braços e no peito. Diminuiu o passo e encostou-se em uma parede, pois o seu mal-estar estava aumentando. Sentou-se na calçada ainda úmida de chuva.

Duas a três pessoas à sua volta indagaram se não estava se sentindo bem. Carlos tentou responder, moveu os lábios e de sua boca só saiu espuma.

Alguém disse que talvez fosse um ataque epilético. Ele não se firmou mais e deitou na calçada.

Um cidadão que passava pediu aos curiosos que dessem espaço para que ele pudesse respirar. Abriu-lhe o paletó, a camisa, tirou-lhe a gravata e abriu-lhe o cinto.

Carlos apenas soltou mais espuma pelos cantos da boca.

A curiosidade era grande.

Os moradores da rua conversavam tentando chegar a uma conclusão sobre o caso, mas nenhuma providência foi tomada.

Uma senhora idosa de cabelos grisalhos que passava, vendo o que acontecia, bradou: "ele estava morrendo".

Fizeram parar um táxi, que se negou a prestar socorro ao cidadão, pois não havia ninguém que assumisse o valor da corrida.

Um senhor que passava naquele momento, sugeriu que se chamasse uma ambulância, pois aquela pessoa não podia ficar ali sem socorro.

Carlos foi largado à porta de uma peixaria, aguardando o socorro. Um enxame de moscas lhe cobre o rosto, sem que se faça um gesto sequer para espantá-las.

Os curiosos foram para um café próximo, comer e beber tranquilamente, enquanto o Carlos continuando a aguardar o socorro que não chegava, ficou sem o seu relógio de pulso.

Uma outra pessoa sugeriu o exame de seus papéis, que foram retirados de seus bolsos, junto com outros pertences. Ficaram sabendo o seu nome, endereço, idade, e que era de outra cidade.

Aconteceu nesse momento, uma correria dos curiosos que ocupavam toda a rua e as calçadas: era a polícia que se aproximava. Várias horas já haviam se passado.

O veículo policial investiu sobre a multidão, devido à "pressa". Várias pessoas chegaram a tropeçar no Carlos.

O guarda aproximou-se do cadáver, não pode identifica-lo pois já não possuía mais os seus documentos Os bolsos estavam vazios.

A polícia decidiu chamar o rabecão para transportá-lo para o IML.

Surgiu uma exclamação: "ele morreu". O povo começou a se dispersar. Carlos morreu sem qualquer tipo de socorro. Ali estava um defunto, exposto à curiosidade popular.

Um senhor caridoso dobra o paletó do Carlos para apoiar a sua cabeça. Cruza as mãos no peito. Fechou os olhos e a boca. A espuma sumiu.

A multidão se espalhou. As mesas do café ficaram vazias. Nas janelas, alguns moradores.

Fechou-se uma a uma as janelas. O Carlos à espera do rabecão. A cabeça agora na pedra, inerte. As primeiras gotas da chuva, voltaram a cair.

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